quinta-feira, 31 de outubro de 2013

COM AMIGOS DESTES...

Depois de almoço, estacionara o carro, como habitualmente, junto às piscinas e deslocava-me tranquilamente a pé, para o centro da cidade.

Ao pretender atravessar a passadeira na Avenida vinte e cinco de Abril, há um carro que para para me deixar passar. Nem reparo no condutor e agradeço a simpática atitude com um gesto de cabeça, como sempre faço e avanço. Já estava na outra faixa da estrada, o carro arranca e ao avançar o condutor grita:

- Estás velha!

Então olho para trás. Ao volante seguia o Rafael, um daqueles amigos que conheci bem pequenina, antes de descobrir que era gente.

- Velho estás tu. Olha para esse bigode todo branco. Por isso é que eu não deixo crescer o meu. - gritei-lhe já do passeio do outro lado da estrada.

Digam-me, com amigos destes, quem precisa de inimigos?

terça-feira, 29 de outubro de 2013

VINTE E SETE DE OUTUBRO

O sol acordou a madrugada com um sorriso radioso. “Vá, levanta-te.” – disse mimoso para o novo dia – eu ouvi, e fingindo-me dona do mimo, pulei da cama e abri a persiana. A luz entrou e o calor também pelo vidro da janela do quarto, que ficara toda a noite meio aberto.
“Bom dia sol, bom dia vida, bom dia amanhecer”.

A manhã estava esplêndida. Apressei-me a levantar as persianas de todas as outras divisões. E a casa inundou-se de sol. Cumprido o ritual de sentir o dia na pele, com a ida à varanda, logo que cheguei à sala, sentei-me calmamente às voltas com a torrada que deixara a fazer e o copo de leite do pequeno-almoço. Nem liguei a TV. Queria lá saber as notícias, não ouviria nada que me apetecesse. Limitei-me a fazer planos para a manhã: “hoje vou descer até ao rio.”











A moda chegou a Leiria...


 É na Ponte Chinesa...


Manhã, mas que linda manhã!


Depois de dar almoço a  minha mãe fui almoçar com uma amiga. Ela telefonara no dia anterior a sugerir: "Vamos amanhã almoçar à praia. É para nos despedirmos das sardinhas" E fomos. Tarde e más horas, pois não quis deixar de ir cumprir o ritual com minha mãe, mas fomos.


Vieira de Leiria






Aconteceu uma tarde de verão!

sábado, 19 de outubro de 2013

FORMAS DE MATAR UM ESCRITOR por MICHEL LAUB

29/03/2013 - 03h04
Formas de matar um escritor
DE SÃO PAULO

Exemplo de frase atribuída a Clarice Lispector na internet: "Ainda bem que sempre existe outro dia, e outros sonhos, e outros risos, e outras pessoas, e outras coisas". Outro exemplo: "Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome".

Ambas estão num site que, reagindo ao que o mundo virtual faz contra autores como Luis Fernando Verissimo e Caio Fernando Abreu, dispõe-se a conferir a autenticidade de citações. Tarefa digna, embora eu fique em dúvida sobre o que é pior: a Clarice falsa (sonhos e pessoas) ou a verdadeira (desejo sem nome).

Quer dizer, a Clarice transformada em autoajuda ou a tirada de contexto, numa vulgarização do registro original. A segunda frase é o ponto de vista de uma personagem --a protagonista de "Perto do Coração Selvagem"--, e fora do ambiente claustrofóbico e idiossincrático do romance vira apenas banalidade.
Há muitas formas de matar um escritor, e a mais segura talvez seja botá-lo num pedestal, escondendo as falhas e oscilações que o tornam humano --e, portanto, próximo do que a literatura deve ser. Acontece quando o transformamos num oráculo, com verdades a revelar sobre temas que pouco ou nada têm a ver com os seus.

Caso dramático é o de ficcionistas cujo mérito maior não é a capacidade de síntese, ou mesmo as ideias. "Grande Sertão: Veredas" é um clássico por vários motivos, um deles o acúmulo caudaloso e virtuoso de termos raros e palavras inventadas por Guimarães Rosa, num ritmo e ambientação a serviço de uma grande narrativa de aventura.

É um efeito que só se potencializa por causa desse fluxo --ao qual o leitor precisa dedicar tempo, paciência e atenção diversos do que exige uma simples frase. Destacar do romance uma fala como "pão ou pães, é questão de opiniães", do jagunço Riobaldo, é escolher (e indiretamente apontar como essência) apenas o que Rosa tem de diluído --uma celebração algo ingênua, ou algo demagógica, de uma suposta sabedoria popular.

Se a fala até pode ser charmosa pela sintaxe, sonoridade e empatia que evoca no contexto de "Grande Sertão", na vida real equivale a uma criança dizendo espertezas diante de adultos. "Viver é muito perigoso", outra máxima conhecida do livro, não é uma tolice, ok, mas repita-a sem a muleta de um medalhão das letras, em tom compenetrado, numa festa ou reunião de trabalho, e saboreie o efeito que causará.

Claro que citar é inevitável. Há autores talhados para isso, de frasistas como Nelson Rodrigues e Paulo Francis a romancistas cujos diálogos valem de maneira autônoma. Isso ocorre quando os personagens estão no mesmo nível do criador, sem que o último precise se rebaixar ou distanciar --com ironia, crueldade, paternalismo ou condescendência-- para exprimir a voz dos primeiros.

Também quando não emprestamos às frases uma filosofia moral adaptada a conveniências. Transformar Rubem Braga num militante da ecologia, como fez um programa recente de TV por causa de um trecho sobre passarinhos, é alistar o cronista numa batalha que não era a sua, ao menos nos termos ideológicos de hoje. E trair o que ele tinha de particular, sua melancolia cética e nunca açucarada, na contramão de qualquer bom sentimento da moda.

Da mesma forma, "o que desejo ainda não tem nome" talvez diga algo de "Perto do Coração Selvagem", mas usar isso em confissões de Facebook --como se houvesse grande transcendência nos anseios indizíveis do eu feminino-- é puxar para si uma sugestão de mistério, profundidade, alma complexa. Um egocentrismo tão contemporâneo e distante do que o texto de Clarice significou, inclusive em risco de incompreensão e fracasso, à época em que foi escrito (1943).

A boa ficção usa mentiras para dizer a verdade, e as citações malfeitas são o contrário: usam verdades (trechos reais) para mentir (atribuir ao livro um sentido que ele não quer ter). Ao contrário do que pensa quem as promove, é um desserviço à literatura. Apenas mais um, num tempo em que pouca gente tem disposição para abrir um romance --ou pensar qualquer coisa-- e ir além de meia dúzia de slogans.
*
Michel Laub é escritor e jornalista. Publicou cinco romances, entre eles "Diário da Queda" (Companhia das Letras, 2011). Escreve a cada duas semanas, sempre às sextas-feiras, na versão impressa da "Ilustrada"


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

OUTONO

Tinham acabado de me sangrar o braço para as análises anuais que habitualmente faço em setembro e que este ano foram adiadas para outubro. O tempo passa cada vez mais depressa e eu sem vontade de lhe acompanhar a passada vou aprendendo a procrastinar, como diria o meu querido e saudoso amigo C. P. que foi capaz de procrastinar tudo, menos a morte. Como ele adorava esta palavra! Procrastinar! Que verbo! – brincava eu – só pela trabalheira que dá a conjugar, mais vale não adiar nada.

O casal chegou sorridente, não eram novos, mas o sorriso contradizia a idade que, tenho a certeza, o Cartão de Cidadão teima em lembrar. Indecisos olharam as mesas, acabando por se decidirem por uma situada na esplanada. Não admira, a madrugada acordou meio friorenta, mas o sol brilha já animado e disposto a aquecer quem, por volta destas dez horas e trinta da manhã, se permite ao luxo de parar o tempo e sentar-se.

A senhora lê o relatório dos exames que terá ido buscar à Cedile e o senhor espreita com um sorriso de gaiato a informação do topo da caixa dos sapatos, que o saco de plástico garante terem sido comprados na sapataria Guimarães. Ela guarda os relatórios. Deve estar tudo bem, não se alterou o ar de felicidade do seu rosto. Ele chama-lhe a atenção para qualquer pormenor. Ela debruça-se sobre o saco de plástico, espreita e lê o que ele lhe sugere. Sorri. Trocam impressões. Voltam a sorrir. Bebem o café. Ele come um bolo, enquanto ela fuma um cigarro e vão rindo e conversando. Pagam e partem ainda conversando de nada e rindo de coisa nenhuma, ou será ao contrário?

É o outono da vida acontecendo no outono do tempo.


No “Aldeia dos Sabores”, com o paladar dividido entre um copo de leite morno e meia torrada do melhor pão da Praça, dou comigo a pensar que só o senhor Marques fala inverno o ano inteiro.