domingo, 30 de dezembro de 2012

A DIFERENÇA


SÍSIFO

Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

                                    Miguel Torga

Lancei o poema ao vento e o eco respondeu:

"Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças..."



E os dias repetir-se-ão sempre iguais. O Sol nasce e põe-se imperturbavelmente. Não há qualquer ingrediente que torne diferente esta cadência. O milagre somos nós. Nós possuímos a capacidade de tornar os dias diferentes. É o significado que atribuímos aos muitos momentos de interação com os outros, que pinta a vida com as cores do arco-íris.

Sejam felizes!


sábado, 29 de dezembro de 2012

ANO NOVO


E o Natal passou. Mais um que aconteceu cumprindo-se em desvelos.

O André veio uma semana antes. Presente antecipado do Pai Natal que atirou com os preparativos culinários para horas habitualmente consideradas impróprias. Não por mim, que tantas vezes trabalhei alongando-me nas horas em que, vulgo, se costuma descansar.

E cozinhei: “para um regimento” – dizem as filhas - que depois se abastecem e levam para suas casas o comer em excesso, poupando-se no trabalho de confecionar algumas refeições. Também eu fico fornecida por uns tempos e, por vezes, até dá para as amigas provarem as iguarias.

“A avó coseu o peru” e todos pensando que o havia cozido não entendiam a admiração… “sim?!” – alguém comentou condescendente. “Com agulha e linha e brincou com as asas; até parecia que o peru dançava” – acrescentou o André. Foi então que se percebeu o espanto. De todos os trabalhos, o André vira rechear o peru e prepará-lo para assar.

Comido o jantar do dia vinte e cinco, começa a debandada. Primeiro parte uma, depois os outros todos. Volto a ficar só. Pela casa parece ter passado o “fim do mundo” e eu começo a arrumar…

E continuo arrumando no dia vinte e seis. Depois cedo lugar à tristeza. Há sempre algo em mim que se não cumpre. São afetos – outros - que me faltam: uns que se foram, porque a vida se há já cumprido, outros porque os não terei merecido. É a nostalgia do Natal: ataca, sacudo-a, adormeço-a e a vida continua, na certeza de que mais ou menos sofrida é o melhor presente que já me foi oferecido.

Ah! Sem presentes de outra ordem. O Pai Natal chegou apressado. Bateu, deixou as prendas na varanda e escapuliu-se. O André bem chamava. Pai Natal! Pai Natal! Este ano nem o vi… – lastimava-se e ele nada, nem para trás olhou. Mas eu gritei-lhe da varanda: Acabe depressa com a crise que eu também quero prendas… Tenho a certeza de que terá ouvido. Sou professora e faço teatro,  falo bem alto!

E chegámos ao fim de mais um ano. Em trezentas e sessenta e seis folhas fomo-nos entretendo a escrever sem borracha. Teremos escrito o melhor que pudemos, tantas vezes angustiados e sempre comprometidos com as decisões que tomámos. E tantas vezes assaltados pela dura sensação de impotência perante as situações em que não dependo só de nós a solução, não conseguimos cativar os outros para ela.

A nível do coletivo ensombramos negra nuvem. A palavra oportunidade, de tão vã, passou a significar demagogia e só um povo de brandos costumes, teimosamente verde, consegue vislumbrar a vontade de continuar a acreditar que o milagre acontece. 

E eu, contagiada pela vontade coletiva de que tudo se resolva a contento também acredito que terei a força, a coragem e discernimento necessários para levar a vida por diante.

Que venham essas trezentas e sessenta e cinco folhas brancas! Cá as espero de lápis afiado, pronta a escrever mais um ano de vida, não como eu gostaria, mas da melhor maneira que for capaz.

Desejo a todos alento e coragem, muita coragem para enfrentarem as vicissitudes que possam surgir, tantas delas devidas a loucuras “outras” que não nossas, mas que nós teremos de sofrer na pele como se de opções nossas fossem a consequência. E acreditem, acreditem que dia a dia o ano cumprir-se-á e havemos de respirar aliviados. Só precisamos de saúde e vontade de viver, o resto virá por acréscimo.

Para vós, os meus votos de um ano de 2013 bem vivido e um abraço solidário.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O BEIJO E A LÁGRIMA


Por S.Martinho do Porto, pisando a areia da praia, enquanto a maré descia...





Quero um beijo, pediu ela.

Um sismo
abalou o peito dele.
E devotou o calor
de lava dos seus lábios,
entontecida água na cascata.

Entusiamado,
ele se preparou para, de novo,
duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo.

Mas ela o fez parar.

Só queria um beijo.
Um único beijo para chorar.

Há anos que não pranteava.
E a sua alma se convertia
em areia do deserto.

Encantada,
ela no dedo recolheu a lágrima.
E se repetiu o gesto
com que Deus criou o Oceano.

Mia Couto




quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

UMA HISTÓRIA TRISTE DE NATAL


Aconteceu há alguns anos. Foi na primeira noite de Natal que passei sozinha com a filha mais nova. Quem tem a filha mais velha casada com marido de famílias radicadas longe, está sujeita à circunstância de ano sim, ano não, ficar sozinha com a outra.

Nesse ano, arquitetara a ideia de voltar à Missa do Galo, soubera que o Padre Carlos recuperara do último AVC e queria ouvi-lo cantar. Quem não canta, encanta-se com a voz dos outros. Ele fora meu professor anos a fio e trabalháramos juntos na JEC. Cantava muito bem. Gostava de ouvi-lo. Como era bonita aquela canção ”bom dia nada custa…" (acho que é por isso que cumprimento toda a gente). Teria de convencer a Zara a acompanhar-me…

Eu fora à cabeleireira na manhã do dia vinte e quatro. Fui à Lina, cabeleireira que dispunha de um salão situado junto da escola aonde trabalhava. Era o hábito, só sabia caminhar para aquele lado. “Só sei estacionar o carro no pátio da prisão” – brincava eu referindo-me ao Largo Rainha Santa Isabel.

Ao chegar, reparei que esquecera a maçã para comer a meio da manhã e, antes de entrar no salão da cabeleireira, atravessei a rua e fui à mercearia da Alice. Ela estava lá, a dona Amélia. Amélia tal como minha mãe. Uma velhinha muito magra e sumida de anos e solidão. Queixava-se disso mesmo, de solidão. Ia passar a noite só, não tinha família. “Dá-me licença que pague a maçã, antes de a senhora ser atendida?” Que sim, que pagasse e eu saí em passo de corrida, com o coração a ordenar-me que convidasse a dona Amélia para jantar connosco e a inventar desculpas para não o fazer. “Também não vou levar a minha mãe” – a falta de elevador do prédio não permitia elevar a cadeira de rodas até ao segundo andar; possivelmente a P. virá buscá-la – P. era minha amiga, colega de trabalho e proprietária do pequeno apartamento onde morava; quero ir à Missa do Galo e o convite impedirá isso; e só conhecia a dona Amélia de vista; e tantas razões inventei que não a convidei.

A Zara chegou, as horas passaram e depois do jantar fomos à Missa do Galo. Havia pouquíssima gente, estava um frio atroz e o padre Carlos… o padre Carlos mal falava, como poderia cantar? E, no fim, a Zara: “não voltas a querer trazer-me à Missa do Galo, pois não?” “Melhor fora ter convidado a dona Amélia para jantar connosco… “ comentei e contei-lhe o encontro dessa manhã, na loja da Alice – “Pois era. Nós não apanharíamos frio e a velhota ficaria feliz” respondeu a Zara, mas já não havia retorno.

Os dias passaram e quando a Carma retomou o serviço perguntei-lhe pela dona Amélia : “A P. levou-a para jantar na Noite de Natal?” – que não  - “ah! mas a senhora não sabe? A dona Amélia morreu poucos dias depois do Natal". Que notícia! E eu que sabia tão bem o que era a solidão, fiquei sofrida, por sabê-la só no último Natal.

Segunda-feira, uma semana antes do Natal, à janela da cozinha, tendo por fundo a mancha verde do jardim da vizinha a que só a buganvília ainda com algumas flores cor-de-rosa, empresta cor e manchas escuras, via chover. Pensava que, possivelmente, aquele jardim se fosse meu não mostraria aquela profusão desordenada de folhagem, mas que era gratificante para os olhos e para a alma mergulhar naquele verde imenso. Olhava através da vidraça a chuva que caía decididamente oblíqua. Gosto de ver chover. Estava tão feliz, que nem sentia a presença física da vidraça.

E lembrei-me da dona Amélia…

Acontece-me inesperadamente em cada Natal, desde que a ouvi falar de solidão.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

AH! OS NETOS...


Hoje de manhã, como quase sempre, à sexta-feira, fui à cabeleireira. Levei o André que veio no domingo e ficará até ao Natal, como se fora um presente antecipado do Menino Jesus.

Como fazia no tempo da mãe e da tia, preveni-me com bolachas e um livro de histórias, para vencer a impaciência que o André pudesse manifestar ao longo do tempo de espera. Só não levei água, pensando que lá era coisa que não faltaria.

Chegados à cabeleireira, o André sentou-se. “Queres ver o livro ou queres que a avó te leia uma história?” – Quis ver o livro enquanto me começavam a lavar a cabeça. “Avó, não gosto deste livro” – Pois, a avó tirara um livro da estante, pertença da mãe ou da tia, com muitas histórias e nem se dera ao trabalho de reparar se se adaptavam ao nível etário… E continua sem saber, na verdade acha que, passados tantos anos, os interesses são outros, porque aquele livro usara-o com crianças mais velhas, sem reclamações da parte destas.

A cabeleireira resolveu a questão latente emprestando um Tablet – nem já as cabeleireiras são como as de antigamente – e o André descobriu um jogo adequado ao momento e vá de brincar mudando os penteados da imagem feminina que aparecia no monitor dizendo que era eu. Tive cabelo às riscas, espetado, bicolor, curto, comprido, com lacinho e sem lacinho e lavaram-me a cabeça e secaram-me o cabelo, na paz do Senhor, sem sacrifícios de espera impaciente para o neto.

“Acha que com esta altura fica bem o cabelo enrolado para fora?” – perguntei à Lígia. “À senhora tudo fica bem” – ora ali estava uma maneira airosamente mentirosa, de responder de forma afirmativa à minha pergunta. Faça-se! E quando vi o cabelo enrolado para fora, até gostei do resultado. Estava diferente, muito diferente. Paguei e saímos.

Com o André sentado, no carro, no banco de trás, cinto de segurança colocado e com tudo como mandam as regras, ponho o motor a funcionar e preparo-me para arrancar. “Avó” – paro e olho para trás – “há algum problema?” – não, não havia, só curiosidade: “Mas afinal o que vieste fazer?”

Ah! Os netos… Que adoráveis pestinhas! E ri-me com vontade, não fora eu uma mulher que prefere uma verdade nua e crua  à mais piedosa das mentiras. 

PODIA ACABAR O MUNDO

Mas não acabou. O fim do mundo não quis nada comigo...

...

Podia acabar o Mundo
Desabar a ponte sobre o Tejo
Que eu viria do fundo Mar
Só para te dar mais um beijo
...
Rosa Lobato Faria

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

BOAS FESTAS

Amigas e amigos,

Desejo que este Natal vos renove em esperança e amor.
Boas Festas.
Para todos o meu abraço solidário.

Isabel



LOA

É nesta mesma lareira,  

E aquecido ao mesmo lume,  
Que confesso a minha inveja  
De mortal  
Sem remissão  
Por esse dom natural  
Ou divina condição,  
De renascer cada ano,  
Nu, inocente e humano  
Como a fé te imaginou,  
Menino Jesus igual  
Ao do Natal  
Que passou. 



Miguel Torga





quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

TERROR DE TE AMAR


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo 

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

SORRISO AUDÍVEL DAS FOLHAS


Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.

Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.

Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O VENTO


«O vento

Por mais que tente, o vento
não consegue adormecer
se não tiver nada para ler.
Seja uma folha de tília,
de bambu ou buganvília.
É por isso que o vento
arrasta as folhas consigo,
até encontrar um abrigo,
onde possa adormecer.
- arrastou até a folha,
onde eu estava a escrever!»


Jorge de Sousa Braga


Já aí chegaram as palavras?

sábado, 15 de dezembro de 2012

CANÇÃO NA PLENITUDE



Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

Lya Luft, Secreta Mirada, Editora Mandarim - São Paulo, 1997


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

FATALIDADE



Não sei tecer
senão espumas,
nuvens
e brumas.
Coisas breves,
leves,
que o vento desfaz.

Como prender-te
em teia tão frágil?

Luísa Dacosta

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

NATAL DOS POBRES



Quando a mulher adormeceu
naquela noite de Natal,
o homem foi, pé ante pé,
pôr um sapato (dela, não seu)
com um embrulho de jornal
na lareirinha da chaminé.

Um casal pobre... um ano mau...
Era um pedaço de bacalhau.

Ora alta noite, pela janela,
com fome e frio, entrou um gato
que, no escuro, cheirando aquela
comida boa no sapato,
rasgou o embrulho, comeu, comeu
e, quente e farto, adormeceu.

De manhã cedo, ela acordou,
foi à cozinha e viu o gatinho
adormecido no seu sapato.
Voltando ao quarto, feliz, falou
para o seu homem: – Meu amorzinho,
como soubeste que eu queria um gato?

                                                   Leonel Neves

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A CARTA


A Ana, depois de prolongada ausência, retomara o serviço e eu, em vez de arranjar as unhas na manicure que trabalha no salão da minha cabeleireira, marquei o serviço na Leiriestética. E lá fui…

Ela arranjava-me as unhas e eu conversava com a O.  que entretanto aparecera para o mesmo e por me ver, invadira o espaço. A certa altura, a Ana levantou-se e voltou com uma chávena de chá. É sempre assim: entre uma mão e outra, ela oferece-me uma chávena de chá, porque para além de saber fazer o seu trabalho, sabe cativar as clientes. E aqui cativar tem mesmo o significado de “criar laços”, que Saint Exupérie lhe atribuiu, dado ela ser uma jovem sorridente e afável. “Diga-me, no outro lado onde arranjou as unhas também lhe serviram um chazinho…”- perguntou-me com ar malandro -  “sua chantagista! “ - exclamei enquanto ela servia o chá à minha amiga – “saiba que não me deram chá, mas ofereceram-me uma taça de champanhe e uma fatia de bolo floresta negra” “porque foi o aniversário do salão, senão não teria direito a coisa alguma” E a conversa continuou, inconsequente enquanto a Ana tentava acabar o trabalho.

Reparei então que no fundo da chávena, à semelhança do que acontecia antigamente, havia um pedacinho de folha de chá, sem que se entenda por que artes terá conseguido escapar à embalagem que se usara na máquina. “Gosto do chá” – ela servira-me um chá de pêssego - “mas ainda gosto mais da mensagem que contém”- brinquei eu - “mensagem?!” Então expliquei, com a anuência de O. que garante que ainda faz chá assim, que antigamente não havia folhas picadas para a infusão, em saquetas, nem máquinas que fizessem o chá, resultando daí que as folhas eram vendidas picadas em pequeninos pedaços, pouco maiores que o que se podia ver na minha chávena e que, depois de mergulhados em água a ferver, era necessário esperar que assentassem, para se servir o chá. Se o acaso fazia com que algum desses pedacinhos saltasse para a chávena, a feliz contemplada, sabia que ia receber uma carta. “Carta, não. Já não se usa. Um email” – brincou por sua vez a Ana “ora tanto faz – retorqui – é preciso é que seja um miminho, pois é do que bem preciso”.

Acabado o trabalho, despedi-me, não sem antes pagar, obviamente, e saí.

Chovia e meia dúzia de passos dados encontrei a dona L. que parecia passear-se à chuva. As boinas que ambas usávamos tornavam-nos “atletas” do mesmo clube, mas de modalidades diferentes, dado ser tigresa o padrão da minha e de ser preta a cor da dela, com aquele ar de sofisticação que a pregadeira, colocada no lado mais baixo lhe dava. Um dedinho curto de conversa e seguimos, cada uma para seu lado, dado que achando que não chovia, se recusou a que a acompanhasse a casa, sob a proteção do meu chapéu-de-chuva. A conversa tida na Leiriestética fora completamente esquecida.

Só depois de aberta a caixa do correio, à entrada do prédio aonde habito, à visão de uma carta diferente, me lembrei do chá. Lá estava a carta! Era mesmo uma carta, não um email conciso. Só poderia ser a carta que o chá anunciara! Abro-a… e que mimo!

Era uma carta das Finanças… alguém nos ama mais? Alguém se lembra mais de nós? Poderei eu queixar-me com falta de mimo? Quinze euros de coima por ter comprado o selo do carro, respeitante ao ano de dois mil e oito, nos primeiros dias de Novembro em vez de o ter feito até trinta e um de Outubro.  Que outro mimo me deixaria mais efervescente? Quem não ficaria “com asa leves e brincos na alma"?

Ah! Depois do que conto ainda haverá alguém que duvide das premonições das folhas de chá?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

PARIS

Lembraram-me Paris...




À beira do abismo...


E a "birra"?! Sim. Eu queria a Vitória de Samotrácia só para mim. Eu queria deliciar-me com aquele deslizar leve. Eu queria sentir o vento naquelas vestes. E... só via japoneses à minha volta... Não deve ter ficado um só no Japão. Multiplicavam-se, ali, à minha beira.  Deu-me "uma coisinha má": "daqui não saio, daqui ninguém me tira: Eles hão de ir embora." - disse às amigas. E foram...

 A escadaria... O meu sonho louco (um dos... tenho tantos!)

Quedei-me a olhar

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O PRESÉPIO



A Carma entrou esbaforida. Ela não sabe entrar de outra maneira. Anda sempre em passo de corrida e por isso mereceu de minhas filhas o epiteto de “Furacão”. Antes de desejar  bom dia adiantou “está aqui o musgo. E olhe só a sua sorte! Este ano limpei o pinhal, nunca pensei que lhe arranjava musgo tão bonito para o presépio”.

“Então bom dia também para si” – brinquei eu, pensando que a minha sorte não era ter musgo, mas sim esta Carma, que à mistura com o musgo ainda trazia ovos, couves, alfaces, marmelos e que me satisfazia as vontades e me obrigava a satisfazer as delas. “Mais marmelos?!” – espantei-me eu – “e quem come a marmelada?” “Isso não sei. A minha prima tinha-os lá para si (e referia-se à Guia sua terra natal e minha também). Não os pode deixar estragar”. Estava proferida a sentença: Faz marmelada e cala-te!

E “toca” de fazer o presépio, que ela tinha mais que fazer do que aturar-me. Não foi dito, mas era a ideia subjacente à ligeireza com que se dirigiu à varanda e começou a desocupar a mesa, tirando os vasos mais pequenos. As figuras do presépio já lá estavam, debaixo da mesa, na caixa que trouxera na quarta-feira da garagem e eu tratei de as dispor sobre as placas de musgo com que entretanto forrara toda aquela superfície branca.

“Vá, saia daí que eu ainda limpo todo o lixo que fez” e eu obedeci. Restar-me-ia outra hipótese? “ Que cara é essa?” - a Carma acabara de surpreender o olhar analítico com que eu olhava, desde a porta da sala, a obra recém-acabada - “O presépio ainda não está bem?” - quis saber.

Então não está? Claro que está bem e estará muito melhor quando o André chegar e submeter as figuras a outra ordem e nos deliciar com outras leituras estéticas.

Para todos vós,
Feliz Natal 



O cato ainda não floriu, atrasou-se, mas está cheiinho de rebentos e as flores irão debruçar-se, em delicados tons de rosa, sobre a manjedoura.




segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO


Quando no fim da década de oitenta, início da de noventa, me debrucei sobre o tema valores em educação, pude concluir, embora esse não fosse o objetivo do trabalho, que, na década de noventa, iríamos estar perante o boom da comunicação.

Pois parece que aconteceu, como previra. Hoje, dia 3 de Dezembro, contam-se vinte anos, sobre o envio da primeira mensagem através de SMS, com votos de Feliz Natal. E, de então para cá, como evoluíram os meios técnicos postos ao nosso alcance!

Pois nem mesmo com a perfeição da técnica se evitam situações embaraçosas, resultantes de falhas humanas. Aconteceu-me sábado. Descia as escadas. Ao ombro carregava o saco com roupa para o fim de semana, na mão esquerda levava mais umas coisas e com a direita ia escrevendo uma mensagem que pretendia enviar a um amigo. Como fiz não sei, mas em vez de a enviar a uma pessoa, enviei a outra. Fico zangadíssima quando sou protagonista de situações destas. Sinto-me info-excluída. Sei que nada mais há a fazer senão pedir desculpa a quem incomodei e voltar a enviar a mensagem, desta vez para quem pretendia, mas que fico zangada, é um facto.

Mas se fosse só isto que fizesse… Uso o dicionário para gastar menos tempo e muitas vezes, por falta de atenção as mensagens seguem com falta de palavras ou têm letras a menos. O meu amigo ASS, devolve-me as mensagens com a recomendação.”Lê o que escreveste. Não entendo isto” E eu apetece-me responder, “se não sabes, inventa”, mas encho-me de paciência e emendo o que escrevi para que nada lhe falte.

Nessa tarde, eu ia para Lisboa. O neto tinha feito sete anos durante a semana e o jantar da família seria nesse sábado. Pois à mesa, a minha filha mais velha, queixa-se de cansaço e, segundo dizia, andava tão mal que, em vez de mandar os apontamentos de Economia aos alunos, como seria suposto, os enviara para o Jardim de Infância que a filha, de um ano, frequenta. “E será que as crianças já apreenderam os conceitos?” – perguntou o sogro. “Não sou só eu…” – pensei, associando-me à brincadeira que tal facto ocasionou.

Pois, não acontece só com o SMS nem só comigo. Também acontece com o servidor de email. Habitualmente recebo emails que se destinam a uma advogada da zona do Porto. E o que passei até descobrir?! Os primeiros emails eram assinados por uma tal Z., dando-se o caso de eu conhecer uma pessoa com esse nome invulgar, sem que tenhamos a convivência necessária para os desabafos que eu lia. Preocupada e desejosa de ajudar de algum modo, perguntava a outros amigos “Tem visto a Z?” “Ela está bem?” a resposta invariavelmente referia que nada sabiam dela, pois há muito que ninguém a via, mas que constava que estava com problemas com o marido. “Mas que problemas?” O texto dos emails referia problemas com “ele”… Ninguém sabia e martirizava-me pensar que tinha merecido os seus desabafos e não conseguia ajudar… Um dia encontro-a: “Então como vais? Ninguém sabe de ti…” “o meu marido tem estado tão doente… Nem queiras saber o que tem sido”. Aquilo não encaixava com as lamurias que, de vez em quando eu recebia. E os emails foram chegando até que, num mais pormenorizado, me apercebo se tratava de questões laborais. Só poderiam ser dirigidos a uma advogada. Respondo: Minha senhora não serei, por certo, a Isabel Soares que pretende contactar. Recomendo que verifique, com atenção o endereço de email…

Mas a porta pareceu abriu-se. Atrás dos emails que refiro, outros vieram. Contas da referida advogada para pagar; tricas de que os advogados por vezes necessitam para se situar; relatórios de contas e por ai fora… Mas não ficamos por aqui. A Câmara de Matosinhos já me mandou apresentar sem falta ao serviço, avisando que se não o fizesse seria punida por lei e um agrupamento de escolas, situado também para essas bandas, no início do ano letivo, multiplicou-se em planificações.  

As planificações corrijia-as sugerindo, quando as devolvo, as alterações que me parecem pertinentes. Fiz esse trabalho durante tantos anos que nem consigo resistir. Também não deixo de pasmar com o facto de os professores, nove anos após a minha aposentação, estarem a planificar cada vez pior. Não posso generalizar, mas posso garantir que, nas planificações que avaliei, há uma indesculpável confusão entre objetivos e atividades e entre estas e as estratégias. Abstenho-me de referir a gestão do tempo…

Nunca recebi resposta a não ser do senhor das tricas, que se congratulava com o facto de ser discreto, o que me levou a questionar o que seria ser indiscreto, do técnico de informática que compusera o PC à advogada, jovem que me endereçou um pedido de desculpas, absolutamente desnecessário, acompanhado da sua foto com a mulher e o cão, provando-me, dizia ele, que era uma pessoa de bem, coisa de que aliás nunca fora posta em questão. Com o responsável pela educação na Câmara de Matosinhos ainda troquei dois ou três emails bem dispostos e ficou-se por aí.

Para além de se apostar no desenvolvimento da tecnologia, porque não apostar também, na reciclagem dos utilizadores. Eu já estou na fila. Sou a primeira e como já estou cansada de estar sentada à espera, vou dormir e sonhar com os anjos.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

NUNCA, COMO HOJE


Nunca, como hoje, me senti tão fisicamente parecida com minha mãe. Foi ao enfiar a minha boina basca preta que reparei. A culpa seria do baton vermelho por que optara.

Normalmente, no dia-a-dia, só maquilho os olhos, mas hoje apeteceu-me um baton vermelho. A minha mãe nunca maquilhou os olhos, só pintava os lábios, num vermelho semelhante ao que escolhera.  

O meu pai comentava sempre, com ironia, aquele baton. Comentava diariamente aquele baton, de que tenho a certeza, gostava e com o qual também gostaria de se mortificar. Assim como quem tem ciúmes sem ter, assim como quem sabe que é ridiculamente terno e se ri disso. E a minha mãe ria e todos ríamos com a cena que não poderia faltar. Não tinha hora para acontecer, mas nem o dia seria igual se faltasse, comigo e com o meu irmão a aplaudir.

Enterneci-me com a imagem que o espelho me devolvia. Não por me olhar, mas por ver o meu pai, a minha mãe, o meu irmão e sentir aquela saudável loucura feita de ternura de que já usufruíra sem ter consciência de que, quente e acolhedora, me embalava os dias. De como era amada. De como éramos felizes sem repararmos nisso.

Há quantos anos deixou a minha mãe de pintar os lábios? Nunca, como hoje havia reparado nisso.

E o meu coração desfez-se em ausência… 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O ATO CRIATIVO - ANA FERNANDES


A Mindocha convidara. A amiga Ana Fernandes expunha ontem, em Leiria, a sua nova coleção de bijuteria e pratas. Décimo primeiro andar, no Centro Comercial D. Dinis. “Décimo primeiro?” – Interrogara-me eu depois – “terei ouvido bem?”

Pouco faltava para as dezoito horas quando, com a LF me aventurei pelas escadas rolantes e depois pelas outras que faltavam, até ao último andar do edifício. Sem dúvida, tinha ouvido bem. A exposição era mesmo no décimo primeiro andar. Uma linda porta vermelha, reinventada de uma porta antiga facultou-nos a entrada num espaço de cowork, conceito que não sabíamos que já existia em Leiria.

Recebidas pela simpatiquíssima gestora de “GRUPO”, assim se denomina o espaço, fomos encaminhadas para a sala onde decorria a exposição.

Ana Fernandes recebeu-nos atenciosamente e percorreu com o nosso olhar os seus interessantes e originalíssimos trabalhos de bijuteria e peças de prata, demorando-se, à medida do nosso espanto, em cada peça. Que tentação! As pregadeiras eram lindas e havia dois pares de brincos que tinham precisamente “a minha cara”. As caixas de prata eram de perder a cabeça.

Conversámos, convivemos com quem estava, muita gente conhecida, reconheça-se, e vimos os catálogos de outras exposições.

Olhámos com Ana Fernandes o catálogo “Memórias” em que as fotos mostravam os trabalhos criados ora desfuncionalizando objetos, ora associando os atributos de conceitos de objetos vulgares, de forma impensável para o comum dos mortais. Talvez, por vias do trabalho do Cristóvão que irei apresentar no próximo dia oito, e faz com que olhe com atenção tudo o que é caixa ou a isso se assemelhe, a minha atenção deteve-se com mais empenho numa das fotos.  “Que pretendeu com este trabalho? Qual a ideia subjacente?” – perguntei curiosa. Ana Fernandes explicou: “era uma resistência de fogão, do meu primeiro fogão, que a minha sogra me deu, um boneco que andava lá por casa e de velho tinha adquirido esta cor maravilhosa e um martelo de cozinha que também usara.”  Assim com aquela simplicidade, a artista dizia-me que juntara objetos do seu universo pessoal, com que estabelecera laços e só por isso mesmo criara a peça. Sorri: “A mim parece-me um útero. Sugere-me conforto.” Foi a vez de ela sorrir: “Também podia ser.” E eu fiquei mais uma vez a pensar que o ato criativo é de uma enorme simplicidade. Nós, os desfavorecidos de dons artísticos, ao olharmos é que, em vez de usufruirmos a obra, de simplesmente nos deleitarmos na estética do que olhamos, por excesso de intelectualização, propomo-nos interpretar, perguntando o que diz o autor. E tantas vezes diz simplesmente que gostou, que teve prazer em fazer o que fez, em juntar os atributos que juntou, em criar simplesmente. Diz quase sempre: “Aconteceu!”

Adorei os trabalhos expostos e adorei falar com Ana Fernandes. Foi um pedaço de tarde bem passado.


Já de saída visitámos todo o espaço que o “GRUPO” que tem para oferecer. Como refere a pagela de apresentação, deparámo-nos com uma cobertura independente composta por um espaço de cowork, escritórios, sala de reuniões, estúdio de fotografia, copa e lounge - com a cidade de Leiria aos pés, acrescento eu. Lindo de morrer - como diria a minha amiga P. - e muito agradável. O espaço apetece.

Leiria, a par e passo com a vida, e nós distraídas. Um mês de distração… Imperdoável! 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

AQUELA CONFIDÊNCIA


Eu sentara-me sozinha junto de uma das mesas da receção do Centro Cultural. Tentava decorar as falas do meu papel para a festa de Natal, repetindo sem cessar aquela fala longa em vez de utilizar a associação de ideias tal como J.C., com a sua prática de ator, me sugerira. A senhora apareceu a meu lado sem que reparasse: ”posso sentar-me aqui?” Pois claro que podia, obviamente que podia. “Vou contar-lhe a minha vida. Oxalá não chore”. Fiquei embasbacada. Apeteceu-me responder que não, que não contasse a sua história, uma história com mais de setenta anos, mas, delicadamente, dispus-me a ouvir.

E ela foi contando… Falava de tristezas, de incompreensões, tantas vezes com as lembranças a ameaçar desfazerem-se em pranto e eu umas vezes a ouvir em silêncio, ou aventurando uma análise positiva sobre o que dizia, outras aliviando a carga emocional do revelado com algum comentário divertido, não sobre o que dizia, não fosse magoar a senhora, mas estabelecendo qualquer analogia com cenas diferentes, mesmo da minha vida. “Ah! Mas julga que só acontece consigo?” E contava uma qualquer história – o que há mais na vida das pessoas são histórias semelhantes – que interpretava de forma jocosa para que acabássemos rindo. Ao fim de duas horas (fora para a aula de dança e faltara), aliviada a tristeza ela ria mesmo. “Fez-me bem falar consigo”.

Tive reunião a seguir e não pensei mais no assunto. Os órgãos sociais de uma associação em início de atividade, têm muito com que se preocupar, mas, chegada a casa, no silêncio da noite, recordei a cena sem me furtar à análise. Que fizera eu senão olhar os factos narrados de forma diferente? Que fizera eu senão olhar os factos pela perspetiva da “garrafa meia cheia”?

Repetia a forma verbal “olhar” - e a minha avó Isabel, ali, a materializar-se: “Se o teu olhar for límpido…” Será que foi? Gostaria de ter ajudado a encontrar respostas; não a adiar questões.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

OS MELHORES BEIJINHOS


Precisava de ir à Almoinha Grande, local que hoje todos identificam como Nova Leiria, privilegiando o nome da urbanização e não o do local. Enfiei-me no carro e desci a ladeira. Estacionei no parque próximo e fiz-me ao que ia.

Chuviscava e o pé dorido não permitia que as condições de marcha fossem as melhores, mas apetecia-me caminhar à chuva. Feito o que me levara ali, dirigi-me devagar até aos Jardins do Lis. Precisava de comprar uma lembrança para a G. que fizera anos no sábado e que eu iria encontrar, para o chá habitual, nessa tarde. Decorria aí, à semelhança de tantas outras vezes, a Feira do Livro que a Livraria Letras e Livros costuma promover, oferecendo a quem adquire livros, um desconto de vinte por cento.

O livro estava exposto na vertical, meio aberto e chamou-me de imediato a atenção pelo elefante azul que ilustrava a capa. Há algum tempo que amadurece na minha mente uma história, que a timidez não tem força para escrever: “O elefante azul e a formiga rabiga” (pelo menos já tem título e personagens definidas). Sorri e avancei… “Os Melhores Beijinhos”: o título saltava à vista, letra num dégradée de tons quentes, com corações a substituírem as pintinhas dos ii e o elefante azul, enorme nas orelhas abertas (nem cabe todo na capa), atento, vertendo ternura com a tromba, arredondada sobre o animal que nela se senta – uma ave? Sei lá qual… Um pinguim? A imagem transmite ternura, aconchego, proteção, pois a tromba do elefante, com o auxílio da orelha direita sugere uma caixa, em que a suposta ave, alegremente se instala. Os três pequenos corações desenhados nesse espaço, reforçam a ideia. Quase sinto o leve movimento da tromba! Apelo inconsciente à proteção do útero materno, acolhedor e não sufocante, porque os diferentes cambiantes de cor, mostram que o espaço é aberto. Quando não precisar de mimo, a ave poderá saltar do embalo daquele baloiço aconchegante e fazer-se à vida. E só com a imagem da capa, a ilustradora fizera-me capitular. Eu estava rendida de encanto, de ternura. Apetecia-me o livro.

Olhei a contra capa. O elefante estendia-se por lá e, ainda assim, não estava completo. Era mesmo o “meu” elefante, enorme, de porte poderoso, inabalável, mas ternamente condescendente com a tal formiga, irrequieta, rabiga… vivendo há algum tempo no meu cérebro, só lhe faltava sorrir, como o "meu" sorri. “Todos precisamos de beijinhos, por isso haverá coisa melhor que um livro cheio deles?” A sintaxe poderia não ser das melhores, mas a questão era feliz. "...este livro tem beijinhos para toda a gente.” Então vejamos… E dispus-me a folhear o livro…

Beijinhos… beijinhos… “Beijinhos inesperados que te fazem feliz.” “Quem gosta de dar beijinhos? ... E tu, Não queres experimentar?” E todos gostam de dar beijinhos… “Os enormes elefantes também” E as letras garrafais com que a ilustradora escreveu “os enormes” a tornarem ainda maior aquele elefante que não cabe em duas páginas. O “meu” elefante! Sim, eu sei de um elefante azul… Só não sei se ele gosta de dar beijinhos… Sorri e fui sorrindo e não parei de sorrir até…

O fim: “tive estes beijinhos todos…" numa panóplia colorida de duas páginas de bicharada, “mas os melhores do mundo” - e a ilustradora utilizou o negrito -  “são os teus beijinhos!” E o André, com quem eu passara o fim de semana num terno arrolo  e fazia sete anos nesse dia, aos pulos no meu peito. A Rita ainda não sabe dar beijinhos. Só recebe. E tantos… Larguei o livro e saí dali.

Procurava a prenda para a G. que ainda não encontrara. Ao fim de alguma demanda por coisa sugestiva de preço módico, adquiri-a. Estava de regresso ao carro e a casa, evidentemente. Voltara a chover. Encaminhei-me, de novo para o centro comercial Jardins do Lis e adquiri o livro para o André. Ele já está na fase das lutas dos “Gormiti” e eu este ano, optara por oferecer-lhe Bay Blates, no aniversário, pois ele perdera os seus num péssimo “negócio” que realizara na escola. O pai e a mãe não lhe davam outros para que aprendesse a cuidar do que possuía, mas consentiram que a avó os oferecesse, como prenda, para sarar a dor que o afligia.

Então porquê o livro? Porque o André há de crescer. E há de “partir a cara” na vivência dos afetos. Acontece a todos… Crescer dói. Para uns mais do que para outros, por conta da sensibilidade. A ele vai doer muito...  E depois de se crescer, dói a vida… tantas vezes… É agora que tem de sentir (repare-se: não escrevi aprender) que os seus beijinhos são os melhores do mundo, para alguém, nem que seja simplesmente para a avó Belita. 

Até eu gostaria de receber este presente.

"Quero um beijinho ao pequeno almoço, para começar o dia a sorrir. E um beijinho de boas noites antes de ir dormir."


Joana Walsh e Judi Abbot, Os Melhores Beijinhos, Civilização Editora, Porto,2010

domingo, 25 de novembro de 2012

UMA HISTÓRIA DA CAROCHINHA


Estava uma tarde chuvosa, que convidava ao conforto. A noite anterior fora mal dormida. Dores no pé torcido e na pele que faltava no joelho acordaram-na frequentemente. Considerara mesmo a hipótese de uma ida ao hospital quando fosse manhã, mas depois levantara-se “ora, tu aguentas… já te aconteceu pior” e, enfiada na meia elástica, ficou-se naquele triste consolo do irremediável. Teria de esperar para que passasse.

Apeteciam-lhe palavras redondas, pequeninas, sussurradas, numa mistura de afagos inocentes. Apetecia-lhe mimo.

O dia foi-se cumprindo com as limitações óbvias e, à tarde, antes de partir rumando afetos, foi à conferência. Só o seu olhar estético se debruçara sobre o tema, seria interessante saber algo mais para além disso.

Tropeçou num sorriso luminoso, daqueles em que apetece mergulhar, como diz o poeta e que afagam a alma, digo eu, a narradora, porque ela não disse nada. Deleitou-se. Apenas.

“Quando é que esta atividade se transformou em arte?” Eis a questão interessante. Considerou: a forma “transformou” fala de um processo longo, demorado. Se fosse um brasileiro a falar diria “virou” e a noção de tempo seria outra: em vez de privilegiar o gesto repetido, a aprendizagem da perfeição, focalizaria o momento criador, o raio de luz, a ideia luminosa, a exaltação do nascimento… “Como as palavras nos espartilham!” Reconheceu…

Fechou os olhos. A voz tinha cambiantes graves de tonalidades que apeteciam, deixando adivinhar, sem exaltação, o prazer que o tema proporcionava ao homem que tinha à sua frente. “Lê-me poemas e conta-me histórias de encantar.” Corrigiu: “Lê-me só os poemas. A encantar estás tu, aqueles que te ouvem aqui.”

Apeteciam-lhe palavras redondas, pequeninas, sussurradas, numa mistura de afagos inocentes. Apetecia-lhe mimo. Não tinha. Ponto final.

Abriu os olhos. Ah! Não fossem pensar que dormia, só porque se deleitava na escala musical da voz que ouvia. Continuou atenta e brincou para o lado.

Depois partiu. As obrigações não lhe permitiam ficar até ao fim.

Na rua a verdade era outra. Era nua e cinzenta, naquela tarde de outono. Aristótles martelou-lhe o cérebro, numa lógica da treta “as palavras redondinhas são para quem as merece; se não as tens; é porque não as mereces.”

Já se viu um pé torcido e um joelho esfolado transformarem a gata borralheira em princesa de conto de fadas? Que mau feitio! Exclamarão alguns. Nada disso. É só uma observação da narradora, que não se furta ao sarcasmo que altera o rumo da história.

Esquece e faz-te à vida!

Enfiou-se no carro e partiu. “Ah! Aquela música não. Hoje prolongaria a tortura.” Parou sem reparar aonde. Felizmente, não havia trânsito… Mudou o CD e seguiu viagem…

Começou a chover…

A escuridão abateu-se sobre a lonjura e choveu mais, ainda mais. O céu desfazia-se lastimando o seu desconforto de alma.

Sempre fora assim: resistia tão bem à dor, que ninguém reparava na sua fragilidade.

A pele que faltava no joelho continuava a doer e o pé… o pé também.

Morrer há-de ser pior.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

SONETO DA FIDELIDADE


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes, "Antologia Poética"

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

TODA A POESIA É LUMINOSA



Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chega


Eugénio de Andrade

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

ABRAÇO

Graça,
Domingo fui a Lisboa e dei-lhe um abraço teu.


Lisboa mandou-te um beijinho.
Aqui vai: Chuap!

SE EU FOSSE...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

SELOS

Já me contemplaram com alguns (poucochinhos) selos, mas eu "informático-excluída" para estas coisas da NET, não soube publicá-los na minha página. 

Hoje, espreitei no "Picos de Roseitra Brava" e descobri que Graça Sampaio tivera a gentileza de nomear para este. Vai daí, fiquei muito agradecida e tentei copiá-lo. Parece que foi um momento de inspiração, pois consegui.

Muito obrigada, Graça, pela tua gentileza. Não sei se mereço, mas gostei que te tivesses lembrado de mim.
Bem Hajas!

Beijinho

sábado, 17 de novembro de 2012

MEMÓRIA


Há dias, quando referia o facto de já me esquecer de coisas impensáveis, uma colega, com quem trabalhei alguns anos, comentou: “então, agora é mais feliz”. Eu anui sorrindo mas, quem participava na conversa, não mostrou entender e a minha amiga tentando explicar-se aos outros, interpelou-me: “não costumava dizer que a memória não a fazia feliz?” “ Pois, mesmo com tanto esquecimento, a memória ainda não é suficientemente seletiva” brinquei.  

Detesto a memória. Não me refiro à capacidade de aquisição que me permitiu decorar em duas horas o livro de trigonometria; em três, o conteúdo do manual de Didática da História; em quinze dias toda a matéria, de que não percebia nada, da disciplina da Contabilidade de um semestre, nos meus tempos de Liceu, Magistério e, mais recentemente, de ESTG; nem sequer refiro a capacidade de armazenar os conhecimentos (consolidação), ou a falta dela; refiro isso sim, a capacidade de evocação.

Nada tenho contra o somatório de vivências que fizeram de mim quem sou, nem contra a forma como o meu cérebro o processou; contudo, nutro uma raiva surda contra a forma como é, por vezes, recuperado. Parecendo contidas sob pressão, as instâncias episódicas explodem no plano consciente, sem que consiga conter a corrente e deixam-me sempre fragilizada.

Hoje aconteceu. Os deuses estavam contra mim.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

TARDE DE TERÇA-FEIRA, TREZE


Depois de almoço, quando saía de casa, não pretendia passear pela margem do rio, mas levava comigo uma vontade irresistível de me deliciar com a paisagem.

Havia pegado na máquina fotográfica, descido as escadas e enfiado no carro, na firme disposição de ir a pé, pelo Marachão, o caminho mais longo até ao Centro Cívico, para cumprir as minhas horas de voluntariado.

Parei o carro junto às piscinas, como habitualmente, só que em vez de caminhar em direção à  Ponte Europa, virei para a cidade.

Fiz o primeiro registo.


Há muito tempo que não nos cruzávamos. Aconteceu: "Posso oferecer-lhe uma coisa para ler?" "Claro que pode" - respondeu o meu melhor sorriso, à vista da pagela. " A senhora é tão simpática! Posso oferecer-lhe também esta revista?" pergunta a amiga. "Com certeza!".

E segui carregada com aquela literatura que remetia para a Bíblia (aviso das senhoras- apóstolas de Jeová), dobradinha no bolso da parka que transportava no braço, à espera de um caixote de lixo distante, que não lhes entristecesse as feições.

O sorriso, às vezes, prega-nos partidas.




"Será que vou encontrar o monge budista, na camisa de xadrez azul com a gravata amarela? Será que hoje veste a camisa de xadrez verde com a gravata castanha? Por que chão estenderá agora os livros que não vende?" Saberia depois, que não. Ainda não foi desta.


Passei com habitualmente por baixo da ponte que liga Leiria e Marrazes olhando para o alto, como sempre faço.

E a voz da minha mãe, que tanto se preocupa com as minhas passeatas pelo rio - "vê lá se escorregas e cais à água... " E eu a rir: "Ora, sei nadar!"



Deixei que o casal se afastasse, para fazer o registo, porque me apeteceu caminhar para algum lado que não existe, também assim, com alguém ao meu lado. Quem visse haveria de dizer: "Levava asas leves e brincos na alma" (Alice Brito, As mulheres da Fonte Nova, pág 111)


"No chão, tapetes de folhas secas acusavam a madureza do tempo à espera do Inverno." (Alice Brito, As mulheres da Fonte Nova, pág 175)


E eu sub-repticiamente a caminhar, mal levantando os pés, feita pássaro no movimento que imprimia às folhas.



Olhei para trás... A beleza afirmava-se 



E afirmar-se-ia mais ainda, olhando em frente, à vista do Parque...


E fui andando... materializando o infinito no ponto, ao fundo, com que a perspetiva me enganava. E eu deixava que me enganasse. Estava ali para isso.


 A ponte chinesa, a minha preferida. "Justapõe-se" dirão alguns... e daí? Que leveza!


Olhei para o lado. Gosto de olhar em todas as direções. Os referentes ajudam a fixar a rota.


E a vida, força a acontecer em qualquer lado, inegavelmente, com um pingo de água e uma réstia de sol. Somos iguais: basta-nos pouco para desabrocharmos...



Praça Eça de Queiroz... As horas cumpriram-se...


 Um olhar à esquerda, naquele fim de tarde. 

E à direita...

E aquela sensação de liberdade mesclada de ausência a percorrer-me o corpo, trouxe-me de volta.



terça-feira, 13 de novembro de 2012

FESTA DA CASTANHA - MARVÃO

Sábado, dia 10, um grupo de amigos partiu de Leiria com destino ao Marvão, cerca das sete horas e quarenta e cinco minutos. A finalidade era a Festa da Castanha.

Primeira etapa: Belver. 
Esta visita não fazia parte do programa, mas o A. lembrou-se: "Estamos aqui tão perto, podíamos ir a Belver" e fomos.

Chovia, mas não foi isso que nos impediu de subir até ao castelo. 




Esta é a rua D. Sancho I. Rua? Quem diria...
Era aqui que D. Sancho treinava as tropas: obrigava-os a subir e descer a "rua" em passo de corrida. Assim como é mentira poderia ser verdade...

O castelo estava fechado, mas isso não nos impediu de apreciar a fabulosa paisagem: o Tejo meio enevoado, serpenteando indiferente à beleza com que nos fascinou.

A melhor característica das subidas é a descida, quando regressamos ao ponto de partida...
Acabavamos de descer a escadaria, cita rua de D.Sancho I, apareceu um senhor muito simpático com a chave do castelo, disposto a mostrar-nos a fortificação: "Ah! Eu não fiz mal a ninguém! Já não volto a subir" e ninguém subiu...

 Chovia copiosamente e eu sem chapéu de chuva... encaminhei-me para a Igreja Matriz.

 Ah! Se fora vermelha, pensar-me-ia em Londres.

 Nossa Senhora da Visitação. A imagem tem cabelo natural, circunstância que me impressiona. Não acho nada interessante a ideia...

Santa Luzia, vela pela boa visão de todos. Será por isso que a terra se chama Belver? - Muito gosto de inventar tolices...

 E na sacristia (sim , não deixo nada por ver) em cima de uma mesa, um lindo centro em crochete, como se pode apreciar pelo pormenor.

Toda molhada e os outros pouco melhor, regressámos à camioneta: Sr. motorista, posso pendurar o meu casaco na sua cadeira?" E referia-me à parka de penas com que de manhã me enchouriçara, prevenindo o frio - "então não pode?! O casaco cheira tão bem!" - Apeteceu-me responder que tomara banho por ser dia de passeio, mas limitei-me a um "obrigada" acompanhado de um sorriso.

Segunda etapa: Castelo de Vide
Almoçámos e dispusemos de algum tempo para passear.

 À saída do Centro da INATEL, onde almoçámos, fiquei intrigadíssima com as flores do arranjo: Serão naturais ou artificiais?" E vá de tentar descobrir, mas houve uma amiga que não me perdoou a curiosidade e registou-a...

 A MC quis ir à loja dos amigos. Fomos e calhou-me fazer a passagem de modelos de chapéus para que as interessadas vissem o efeito...

 Mas a C, a B e o marido e eu queríamos ir à judiaria. "Para aí Isabel, para registar o momento"

 Calcorreámos ruas e mais ruas...

 Apreciando tudo o que se oferecia ao nosso olhar curioso...

 E quando olhávamos para trás, não resistíamos a fixar a imagem.

 Mais um trecho bonito..

 Aqui não resistimos a um olhar indiscreto...

Também subimos ao castelo.

"Venham cá meninas que vocês não sabem o que isto é."

 Era para vermos o aquartelamento. Afinal até sabíamos o que era...

 Algures o brasão de D. Dinis...

 Tudo tão verdejante!

 Onde está o gato?

 E o canário à janela a ver-nos passar...

 Namorei janelas bonitas...

 Outra, tão bela!

E não deixei de admirar a paisagem urbana por este ângulo à saída do Castelo, junto ao monumento a Salgueiro Maia.

 Nós bem empurrámos, mas a porta não cedeu...  

 Que festa quando encontrávamos os outros!

 Que seria que atraiu a curiosidade das fotografas?

 Momento de miminho, no colo da mãe...

 E despedida a Castelo de Vide, com a sinfonia do violinista que quebrara o arco.

Ah! E as rosas...

Terceira etapa: Marvão - Festa da Castanha

 "Meninas, vamos lá a mexer as perninhas. As castanhas estão a arrefecer... "

 E logo à entrada, a hipótese de se escolher o meio de transporte novo para voltar a casa...

 E esta exposição de produtos? "Linda" mistura... O senhor da banca também era muito interessante. Tinha ar de estrangeiro. Tirei-lhe uma foto, mas não ficou em condições de publicar.

 E, finalmente, as castanhas. E há várias espécies de castanhas: camarinha, judia, longal e nem sei que mais. Eu pensava que havia castanhas e ponto final. Que rústica!

 E os nabos? Nunca vira tão grandes!

 Passeámos, passeámos...

 
Cumprimentámos o ouriço cacheiro.

E aqui?!Já tinha castanhas. Resolvi prender o burro.


E não é que a estrela de Belém , também foi à festa?!

Havia três cabeçudos...


 "Olhe que eu já vi uma mulher morrer à espera que começassem a tocar, para vos tirar uma foto" "É para já!" E foi...

E tocavam bem. 

 Mesmo muito bem!

 E esta hem?

Tantos a procurar e afinal é em Marvão... 

 E a coragem da A.?! Sapatinho de "ir ao figo" no empedrado do dia...

 Andei, andei mas não perdi o Norte.

 E os cavalos?! A ternura da infância a cair-me em cima... Quantas cavalgadas sem fim em bichos semelhantes, comprados, então, na Feira de Março?! 

Do alto da muralha, espreitámos a festa. Este pavilhão era onde atuavam os artistas. O nome de cartaz era o José Cid.
À esquerda, vê-se o primeiro assador de castanhas por onde passámos. Funcionava assim: numa tenda situada perto, compravam-se as canecas para o vinho e as senhas para o dito e para as castanhas, depois as senhas eram trocadas pelos produtos, junto dos colaboradores do assador de castanhas.
Quando espreitámos, o assador dizia: "Não há castanhas. Estão a assar. Quem tem pressa vai a outro lado, que há aí mais magustos" Não falara para nós, mas o recado serviu-nos. O homem costumava ser simpático uma vez por ano e já tinha sido, antes de chegarmos.

 E o sol a fazer inveja, brilhando lá por terras de Espanha...
Era hora de partir. E à saída: "Então as senhoras vão embora sem ver o José Cid? Olhem que ele vai já atuar" "Pois! Vamos perder o espetáculo e o autógrafo. É a vida!" E vá de rir...

 Gente e mais gente... Muita muita gente. Se a necessidade aperta... Palavras para quê? É Portugal no seu melhor!
E vá de esperar que o autocarro chegue, para o regresso a casa.

A Festa da Castanha ficou vista. A Marvão (há quantos anos não iria lá?) voltarei quando calhar, mas sem confusões...