domingo, 15 de agosto de 2010

SEXTA-FEIRA, TREZE


Na sexta-feira, dia 13 de Agosto de 2010, por inerência da minha actividade na Junta de Freguesia de Marrazes, desloquei-me ao Museu Escolar.

Tropecei numa menina-de-cinco-olhos, esqueci ao que ia e desamparada caí na infância, mais precisamente na minha estada no Minho onde, na Escola Primária de Quintiães, conclui a primeira classe. Daí até à terceira classe, já na Sismaria da Gândara, foi um “pulinho”, traduzido fisicamente em dois ou três passos e vi-me com o Livro de Leitura na mão. Procurei o texto que achava mais bonito e deliciei-me de novo com “A Vocação da Cerejeira “ de Guerra Junqueiro. Voltei a sentir-me a lagarta que acorda, esfrega os olhos e se espreguiça, a abelha que bebe o néctar, o passarinho que come as cerejas, as folhas que caem no Outono e, mais que tudo, senti na alma o sono reparador do Inverno. E, quando já fechava o livro, depois da breve dissertação sobre textos deprimentes, de que é bom exemplo “A Morte da Princesa Joana”, sem merecer qualquer atenção do grupo que me acompanhava, veio-me à memória “O Relógio da Saudade”.

“O Relógio da Saudade” é um texto cheio de sentir íntimo que fez doer a minha alma de menina. Eu encarnava aquele emigrante que, na Argentina, longe da pátria, adquirira com o pouco dinheiro que conseguira juntar, o relógio que lhe lembrava o som do campanário da sua aldeia distante, para depois morrer. Enquanto aluna da terceira classe, aquando do estudo do referido texto, eu temia que a professora me mandasse ler alguns dos parágrafos que me tocavam especialmente, porque sabia que choraria e “morreria” de vergonha dos meus colegas de escola por me desfazer irremediavelmente em pranto perante o texto, sem poder explicar que me “doía” (e de que maneira!) aquela dor tomada de empréstimo.

Ainda hoje, seja ou não em momentos de fragilidade, o sentimento de falta que a ausência provoca me corrói a alma. Então a lembrança vasculha na memória e, tal como fazemos em casa quando arrumamos papeis velhos que teimam em desalinhar-se, vem ao plano consciente aquilo que já estava adormecido.

É, entre questões do tipo “nada me falta” ou “terei alçando na vida mais do que sonhei”, muito mais exclamativas que interrogativas, que dou comigo em absoluto conflito com a ideia linear de tempo que Aristóteles e Newton impingiram à civilização ocidental, à mistura com a ideia que a água de um rio não passa duas vezes debaixo da mesma ponte. Perdoem-me os filósofos esta visão ingénua (naif – como é “fino” dizer agora) e por isso mesmo tão redutora de anos e anos de pensamento.

Não gosto da linha do tempo e aqui deixo o meu mais veemente protesto. Abaixo esse escasso segmento de recta que define a nossa vida! No mínimo deveria ser uma semi-recta! E, se é recta deveria ser ascendente, só no que de bom a vida nos desse e deveríamos poder percorrê-la para trás e para diante materialmente, como fizemos nas aulas de matemática e não só com o coração, a nosso belo prazer, sem a dor da ausência. Haveria de poder afagar as rugas da minha avó, ir passear ao rio com o meu pai, dançar o rock com o meu irmão e comer os figos das piteiras no quintal da outra avó e até deveria poder voltar ao Hiper-Urânio, se é que foi por lá que andei antes de nascer, para voltar de novo ao presente a saciar-me nos abracinhos, beijinhos e prrttts do meu neto, o menino mais bonito do mundo e arredores, sobretudo dos arredores.

Quando menina, no quintal da casa da CP da Estação de Leiria, onde morava havia um tanque, que na altura me parecia enorme, destinado à lavagem da roupa mas, sem esse préstimo, porque as lavadeiras achavam mais divertido ir à Fonte Quente trocar pilhérias umas com as outras, mesmo carregando as bacias à cabeça. O tanque estava sempre cheio de água e eu, a maior parte do dia a brincar no quintal, ia de volta e meia atirar uma pedra lá para dentro só para ver aquelas deliciosas ondas concêntricas que o embate provocava. O meu pai ralhou por eu encher o tanque de pedras até a “Paixoa” opinar que se o esvaziassem eu deixaria de fazer aquilo. Foi o que aconteceu: o meu pai esvaziou o tanque, o “Coquelimoque” passou a tirar a água directamente da torneira para regar a horta e eu deixei de atirar pedras para o tanque, mas não deixei de gostar de linhas curvas.

A linha da vida deveria ser curva! Assim já não vislumbrávamos o infinito sem poder tocar-lhe. Seria o ponto final à dúvida existencial e à angústia.

Está na altura de promovermos uma revolução na filosofia. Cá por mim, perante a efemeridade, proponho que Deus reveja a Criação e emende a mão. Tem duas opções na consecução do mesmo objectivo: torna-nos eternos e manda de novo o Sartre cá abaixo (sim, o céu pode continuar lá em cima) para rever a teoria do existencialismo ou, não querendo mandar cá o Sartre, ou na eventualidade deste não querer vir, tira-nos a horrível mania de nos questionarmos.

Ah! Poupem-se ao trabalho de me vir com os argumentos de que a certeza do fim é que dá sentido à vida porque, cá para mim, tal como para o Montaigne (ele ter-me-á copiado a ideia…) o sentido está na busca da felicidade.

Reconheçamos, as sextas-feiras treze não são dias aziagos, mas lá que têm um certo sortilégio não poderemos negar.

sábado, 7 de agosto de 2010

A MUDANÇA

O pai fizera exame e passara com distinção. Ser funcionário da CP não era fácil. Para progredir na carreira era-se avaliado de dois em dois anos, através de exame escrito e promovido de acordo com a nota. O pai obtinha sempre bons resultados e era dos primeiros a ser colocado, o que implicava mudança de estação. A mãe quisera radicar-se em Leiria e não achava graça à ideia, mas tinha de ser. Depois do Natal, o pai partiu para o Tamel, uma aldeia do Minho, situada perto de Ponte de Lima.

Ela adoeceu. Tinha febre, queixava-se dos ouvidos e doía-lhe a barriga, mas o Dr. Francisco Dias era categórico “isto não é físico, são saudades do pai”. Passado um mês o pai veio para a levar com a mãe. Ficava o irmão, já crescido, que desistira de estudar e começara a trabalhar. “O mão fica?!” Não queria, mas convenceram-na. Com o regresso do pai aprendera que a ausência não significava abandono e, depois, ela conhecia o local onde ele ficava, o que não acontecera com o pai que fora para o Tamel, um autêntico fim de mundo!

E partiram… Primeiro viajaram até Lisboa onde pernoitaram em casa do tio Manuel, o irmão mais velho do pai que era também seu padrinho. No dia seguinte, embarcaram para o Porto e, na estação de Campanhã, fizeram o transbordo para a linha do Minho. Um dia e uma noite, foi o tempo que durou a viagem.

Em Março, na terça-feira em que fez sete anos, levando numa mão um pacote de rebuçados, chegou ao Tamel.

Foram morar para Quintiães. A aldeia ficava a cerca de três quilómetros de Tamel mas o pai não encontrara casa senão aí. Conseguira aquela graças ao facto da esposa do amigo que lha arrendou ter medo das “almas do outro mundo” que passeavam pela vasta sala. Os pais achavam que aquela era uma casa vulgar e que a história servira de desculpa para a senhora se radicar em Braga, ideia que até lhes saíra a contento e, quanto a ela, estou em condições de garantir que se fartou de procurar por tudo quanto era canto e nunca encontrou alma nenhuma. Contudo aproveitou algumas vezes a história, para justificar o assalto às bolachas da dispensa ou aos torrões de açúcar que via convidativos no açucareiro, mas com plena consciência de que a mãe sabia muito bem quem fazia as tolices e não se importava. Foi assim que começou a treinar a ironia…

A casa ficava perto da estrada principal da aldeia, inserida no lado menor de uma vasta propriedade rectangular. À frente havia um muro alto, pintado de branco onde na Primavera floriam glicínias. Este transpunha-se ou pelo largo portão situado à esquerda, no extremo do muro, ao lado de uma pequena cavalariça sem qualquer cavalo onde se guardava uma charrete, ou pelo portão menor, situado na extrema-direita, que dava acesso à escadaria que subia ao primeiro andar onde moravam. Por baixo, no rés-do-chão, virada à frente, ficava a loja onde se guardavam grandes talhas de azeite e, nas traseiras, a casa onde vivia o caseiro com a mulher e a filha, a Micas (no Minho todas as Marias são Micas). Havia um pequeno jardim em frente da casa, depois um pequeno pomar e uma horta a que se seguiam os terrenos de cultura com mais árvores de fruto espalhadas, estendendo-se a propriedade para lá do pinhal que se via ao fundo, no outro lado menor desse rectângulo. Junto à casa do caseiro, ficavam o curral das vacas e os cortiços de abelhas.

Não havia luz eléctrica e a água provinha do poço, situado perto das cerejeiras, as árvores mais bonitas do pomar. Das cerejas que produziam, fez brincos que pendurou nas orelhas (a mãe não deixara que lhe furassem as orelhas em bebé mas, com uma imaginação tão pródiga, não lhe faltavam enfeites). Haveria de as recordar dois anos mais tarde, já a frequentar a terceira classe, na Sismaria da Gândara, quando estudou um texto que através das mudanças de aspecto de uma cerejeira, falava das estações do ano, mais ou menos assim “Deus disse: ponham a mesa às abelhas. E a árvore cobriu-se de flores (… ) Ponham a mesa aos pássaros e a cerejeira cobriu-se de frutos vermelhos”. Ela achou o texto tão bonito que até conseguia “ver” tudo aquilo acontecer.

Dividiu os rebuçados com a Micas e ficaram amigas. A Micas era uma menina da sua idade, bicho-do-mato, como ela, não falavam muito mas entendiam-se bem.

Naquela primeira semana teve férias. Chegara na terça-feira e a mãe deixou-a brincar livremente.

A casa da Micas foi um mundo novo! Na mesa da cozinha, sem toalha e sem guardanapos, à hora das refeições punha-se um prato enorme, à frente do pai. Ela ainda recorda um bocado de bacalhau perdido num enorme monte de batatas, tudo coberto com folhas de couve inteiras, artisticamente esticadas sobre o monte de batatas e toda a família a comer dali e ela também, para desespero da mãe. E a água?! “A água da Micas é melhor do que a nossa” e a mãe invariavelmente respondia que era igual, pois provinha do mesmo poço. Ela insistia e a mãe acabou por descobrir. Em casa da Micas demolhava-se o bacalhau nos cântaros da água que se bebia. A mãe assustou-se “quantas doenças se podem contrair!” e proibiu–a (ingloriamente, estou em condições de garantir) de comer e beber em casa da amiga, ainda sem sonhar que ela bebia o leite acabado de mugir!

Na segunda-feira seguinte, a mãe levou-a à escola.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

SERÁ A SOLIDÃO UM FADO?

Viveram oito meses no Minho e voltaram, indo morar para aquela “casa de rua” (como diria Erico Veríssimo), um primeiro andar situado perto do Largo da Estação, à entrada da Rua D. Carlos I, por cima da Fábrica da Pedra: “Mármores Sil” (seria assim que se chamava?).

Aquela casa, à borda da estrada, não tinha jardim, nem quintal, mas possuía umas divisões enormes. Espaço não faltava e até havia um quarto interior, sem janelas, situado entre o quarto dos pais e o do irmão, que a mãe convertera numa espécie de roupeiro onde guardava a roupa que, de uma estação do ano para a outra, não se vestia: o sobretudo do pai, a samarra do irmão, os casacos compridos e no verão, os cobertores fofos que os aqueciam no inverno.

Nesse quarto vivia um escuro amedrontado que se escondia mal a menina acendia a luz. Ela achou que o escuro era tão envergonhado como ela e muitas vezes, ia até ao quarto e ficava lá sem acender a luz, para não o assustar. Imaginava-se um caranguejo escondido na areia, só com os olhos de fora e brincavam os dois. Então, quem se assustava era a mãe, que nunca compreendeu muito bem aquela brincadeira. Desta prática ficou-lhe o hábito, que ainda hoje tem, de deambular de noite pela casa sem acender a luz.

Todos os meninos deveriam ter um quarto escuro como o dela para perceberem que o escuro não faz mal a ninguém. É até muito assustadiço. Foge da luz a sete pés e esconde-se debaixo da cama.

À bordinha da estrada, nos curtos momentos em que podia brincar na rua, jogava à pedrada com o Carlitos e ao berlinde com o Aniceto, para desespero da Maria, a lavadeira, mulher bem-disposta mas muito refilona, que só com muita esfrega e cloreto conseguia manter brancas as rendas dos saiotes e as bainhas dos vestidos, que varriam o chão nestas brincadeiras. A culpa era da mãe que lhe vestia aqueles vestidinhos franzidos com florinhas. Só a cor das flores é que variava, cor-de-rosa, amarelo, lilás, azul, sobretudo azul… num fundo invariavelmente branco. Ela ainda se lembra de um vestido cheio de florinhas bordadas à mão, em ponto cruz. Por cima dos vestidos, usava uns lindos bibes bordados a arte aplicada e até teve um com o Giroflé “cantado” a ponto pé de flor. Mas isto era lá coisa que se vestisse a quem gostava de mexer na terra?! Também fazia desenhos com o Clementinho, nas folhas de embrulhar os papo-secos que o pai dele vendia na padaria situava mesmo ao lado da casa onde morava.

A entrada do prédio era um patamar fechado que dava acesso ao escritório da fábrica, por uma porta sem préstimo que os funcionários não podiam utilizar, para conforto de quem morava em cima, pois o patamar dava também acesso ao primeiro andar do edifício, concebido para moradia dos donos da fábrica, mas arrendado por estes se terem fixado na cidade. Aqui ela brincava às casinhas com a Isabel, a Cecília e a Amália que só apareciam com a mãe, a senhora Adelina, quando esta vinha limpar a casa.

Mesmo com as idas à escola e tantos amigos, as férias eram longas. Ainda lhe sobravam muitas horas para brincar sozinha…

Por vezes ficava horas a fio, observando os trabalhadores da fábrica picando a pedra em pancadas ritmadas, tum… tum… tum. Tal e qual o pêndulo do relógio da avó! Todos, ao mesmo tempo, iam sulcando a pedra em riscos direitinhos, como pintores sentados em frente do cavalete. A mãe não deixava abrir a janela por causa do pó e ela olhava através da vidraça aquele trabalho que se repetia hora após hora, dia após dia.

Noutras alturas, descia e sentava-se no primeiro degrau ao fundo das escadas desse primeiro andar, fechada a porta da rua e junto da outra, de acesso à fábrica.

Uma caixa de sapatos, trapinhos de várias cores, agulhas, linhas, a mãe emprestava-lhe a tesoura e lá estava ela, sem sujar nada, confeccionando as roupas e cuidando com os desvelos de mãe, de três minúsculas bonecas de plástico, que possivelmente nem dez centímetros mediriam. Duas utilizavam a mobília de quarto para cuja cama a D. Lucila fizera um adereço bordado a ponto de cruz, com desenhos em cor-de-rosa e azul e ajour nas bainhas, a outra era deitada numa cama-caixa de charutos em lençóis menos cuidados e para que não houvesse amuos ela deitava-as à vez, ora num lado ora noutro.

Ela tinha muitos brinquedos e livros também. O irmão e a avó Isabel mimavam-na muito. Mas aquelas três minúsculas bonecas e a caixa de charutos eram o seu encanto. Ela lembra-se particularmente de duas. Uma parecia uma senhorita em miniatura e a outra tinha as pernas tortas como um bebé, o que muito a aborrecia por desfigurar as peças cheias de estilo que ia confeccionando. E, proporcionada àquele tamanho, a caixa de charutos…

Uma tarde, ele espreitou…

Um rato minúsculo, bem menor do que qualquer das bonecas, olhou-a com os olhos pequeninos, de um (também pequenino) buraco situado no rodapé, junto à porta do escritório da fábrica. Confiaram um no outro e foram-se acompanhando nas tardes de solitária brincadeira com a caixa de sapatos, onde ela guardava os mais preciosos haveres: as três bonecas, os trapos, a caixa de charutos e, o maior de todos os pertences, a sua imaginação de menina sem meninos para brincar.

Um dia, talvez estivesse a merendar, resolveu dar de comer ao rato e pôs uma migalha em frente do rodapé, continuando a observar pelo “rabinho do olho”, fingindo-se desinteressada, para ver o que acontecia. O rato veio, passeou junto da migalha, recolheu-a e voltou ao buraco, perto do qual a ficava olhando agradecido.

A partir de então o ritual repetiu-se mas, ela foi alterando os procedimentos, por último punha a caixa de charutos ao alto, colocava a migalhinha em frente, já pitéu melhorado (aprendera nas histórias que os ratos gostavam de azeite e ensopava a migalha no galheteiro da cozinha) e o rato vinha… Ela tombava a caixa, esperava que o rato comesse e voltava a levantá-la. E lá ia ele saltitando de volta ao buraco.

Dias a fio, o rato e ela, dois amigos estranhos, em encontros feitos de rituais: uma migalha de pão com azeite e uma caixa de charutos que, antes de ser abrigo de rato em repasto privilegiado, fora cama de boneca. Mais tarde, muito mais tarde aprendeu que teria havido um Pavlov, que só teria vindo ao mundo para tirar poesia a esta amizade, mas também muito, muito tempo antes do estudo da Psicologia lhe alargar os horizontes, confessou à mãe que tinha este amigo e uma tarde, quando desceu feliz saboreando antecipadamente o encontro, o buraco estava tapado.

Correu escada acima ”mãe, o buraco do rato está tapado. Ele não vai poder sair” “pois não, o senhor do escritório disse ao teu pai que ele roía os papéis e não podia viver ali”.

Fora-se e nem dissera adeus…

Aquela ausência apanhara-a de surpresa. Uma garra apertou-lhe o peito! O coração quase saltou pela boca!

Como a solidão dói, quando o silêncio não nos apetece!

Nesse dia começou a compor uma oração diferente das que aprendia na catequese. Mais tarde, em A Leitora, de Raymond Jean, encontrou a síntese daquele estado de alma: “Na vida somos sempre livres e estamos sempre sós”.

Desde então, agradece a Deus a protecção, os dias de vida que lhe tem proporcionado e os que lhe virá a proporcionar, pedindo que envolva os silêncios que não lhe apetecem em palavras ternas e gestos de carinho.

domingo, 1 de agosto de 2010

A ESCOLA

Uns meses depois de fazer seis anos ela foi para a escola. O processo foi complicado. A lei exigia que se completassem os sete anos até trinta e um de Dezembro e ela só os completaria em meados de Março do ano seguinte. Requerimentos, consultas médicas, atestados daqui e dali, um sem fim de andar cá e lá pela mão da mãe a tratar de papelada e a ser entrevistada por este e por aquele, a ver se teria ou não capacidade para aprender que justificasse a antecipação. E lá aconteceu!

Quando começou os outros já levavam algum tempo de aulas e a professora, D. Maria de seu nome, sentou-a ao lado da O. uma menina mais velha, que já andava na quarta classe. A O. tinha uma caneta de tinta permanente e como ela só tinha direito a um ponteiro para escrever na ardósia e um lápis para escrever nas folhas da sebenta, pegou na caneta da companheira e fez um rabisco; “minha senhora” ouviu-se em tom choroso “não a quero ao pé de mim. Ela mexeu na minha caneta. Tire-a daqui”. A professora ralhou-lhe e, deferindo o pedido, mandou-a sentar-se ao lado da Elvira. Ela era tímida, não disse nada, nem sequer percebeu porque estava a ser castigada, a caneta era parecida com a do pai… pousou o olhar na O., depois na professora, e foi para o novo lugar que lhe fora destinado, perguntando-se qual das duas seria a mais parva.

A Elvira, que estava sentada sozinha na última carteira da fila junto à janela, acolheu-a com afabilidade, disponibilizando de imediato a pena de pau com um aparo, que se molhava no tinteiro cheiinho de tinta pendurado num buraco da carteira, quando queria escrever. Ela não tocou na caneta, acabara de aprender que, ali, o que era dos outros chamava-se “não se mexe”, mas agradeceu e conversa puxa conversa a Elvira acabou a mostrar-lhe um dente já cariado. Quando ela perscrutava a boca da Elvira, esquecida da escola e da professora, esta interveio “pára com isso, não és veterinária” e voltou a mudá-la de lugar. Admirada por a professora chamar “bicho” à Elvira, ela levantou-se, mais uma vez com os pertences na mão e mudou de carteira decidindo que não gostava da D. Maria.

Nem da D. Maria nem da escola, uma sala fechada cheia de meninos e meninas, cada um preocupado em dar menos erros que o outro, como o Rafael que até acrescentara o “e” que faltava no fim de uma palavra do ditado, depois de ver o erro marcado noutro caderno e a D. Maria lá no alto, sentada atrás da secretária enorme com muitos meninos acotovelando-se à volta, a colocar o dedo mindinho da mão direita, meio torcido, em cima do “e” esborratando tudo, só para ele ver que ela era a mais esperta.

Ela sentia-se um peixe fora de água enquanto, sentada sozinha na última carteira da segunda fila, ia observando tudo o que se passava em volta. Nunca gostou de apertos, por isso deixava-se estar quieta e calada no seu lugar e só ia até à secretária quando a D. Maria se lembrava dela, o que, no meio daquela confusão, não acontecia muitas vezes.

O corpo estava ali aprisionado, mas o pensamento continuava livre. Foi nos primeiros dias de escola que começou a trocar as circunstâncias adversas e inalteráveis pelo sonho, aprendendo a proteger a alma do que a impedia de ser feliz. Muito, mesmo muitos anos mais tarde haveria de ler Eduardo T. Hall e perceber como armadilhara o ego.

As aprendizagens sucediam-se no tempo e depressa se chegou à lição do “t”. Na gravura do livro, uns meninos vestidos com a farda da Mocidade Portuguesa tocavam corneta. Eles tocavam e ela deveria “cantar” tudo o que estava escrito naquela página: as vogais, os “ t”, maiúsculos e minúsculos, em letra impressa e manuscrita, as sílabas escritas de todas as maneiras possíveis, dispersas pela página. Tudo aquilo bailava em frente dos seus olhos e ela só pensava no Tó. O Tó estava nesse dia em casa da avó e ela ali, sem poder brincar com ele, a olhar para a D. Maria que dizia… nem ouvia o quê. “T” e um “a“… e ela Tó, “t” e um “i”… e ela Tó, “t” e um “a” e ela Tó. E quanto mais a D. Maria se exasperava mais ela sussurrava Tó… Tó… Tó… A D. Maria perdeu a paciência e a bofetada estalou. Envergonhada sentiu vontade de chorar, mas não chorou, pousou os olhos no rosto furioso da D. Maria, fechou o livro e voltando ostensivamente as costas à professora, achando que não merecera tal castigo, sentou-se muito direita na carteira, engolindo a vergonha e a dor.

“Não quero ir à escola” lamuriou-se em casa e, o pai condoeu-se “deixa-a faltar, é tão novinha” dizia à mãe, mas a mãe não se comovia “era o que faltava, uma menina deste tamanho não aprender a ler e a fazer contas”.

Não era nada bom ser grande…