quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O CÚMULO DO OPTIMISMO

Depois de passar o dia inteiro, em "amena cavaqueira" com a Rita que ainda não tem dois meses de idade, o cúmulo do optimismo consiste em pensar que, ao fim da tarde, se ganha a luta dos Gormitis, apesar de ter escolhido encarnar um que tem sete vidas.

domingo, 25 de setembro de 2011

DOMINGO

Passeei-me por aí.Era um sítio aprazível,
verde, muito verde...
um regalo para os olhos, um bálsamo para a alma.

Havia flores.
Os patos nadavam no lago,
em convívio ameno com as tartarugas.
Mas de repente... um encontro estranho... Que susto!
Outro susto!
E mais outro!
Basta! "As árvores morrem de pé!"
Saí porta fora.
Não sem antes pendurar a roupa...
Subi as escadas e vim embora.
Ah! Mas ainda arranjei tempo para escolher a toilette para a próxima soirè.

Quem adivinha por onde passeei?

sábado, 24 de setembro de 2011

COMO UM CARRO SEM TRAVÕES

O meu pai dizia tantas vezes “pareces um carro sem travões por uma ladeira abaixo”.

Mudava a entoação e a expressão servia para tudo: elogiava-me na celeridade da acção; incentivava-me à persistência, perante alguma situação difícil e criticava-me o excesso de verborreia em que tantas vezes me mostrava pródiga, nos momentos de “refilisse”.

Desde cedo, ensinaram-me a ter opinião e eu treinei-me bem no exercício desse direito; inconscientemente no seguimento da velha máxima “mandaram-me vir, agora aturem-me” e nem o receio de que me caísse em cima um tabefe, alguma vez me deteve.

A vida cumpre-se e o “carro” vai andando. Todas as “panes” têm tido arranjo, não houve avaria que o detivesse, porque herdei, sei lá de quem, aquela característica que me impede de, perante a adversidade, em vez de me lastimar “ai, ai, ai, aconteceu-me esta desgraça!” questionar de imediato “ como é que vou sair desta?

Mas a gasolina… a gasolina, às vezes, já parece que tem menos octanas…

As amigas e os amigos já vos ofereceram todas as compotas possíveis, marmeladas fabulosas e sei lá que outros doces. Resta-me convidar-vos para um BRINDE À VIDA, que milagrosamente acontece todos os dias, seja qual fora a "velocidade". Tendes à escolha: Zabelinha, Zabelinha Borrachona e Zabelinha Princesa, os mais finos licores feitos no Laboratório Zabeleiria SA. Qualquer dos três, um óptimo Elixir da Longa Vida, que tira pregas do peito e rugas do colarinho.

GRACIAS A LA VIDA! VIVA!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O VESTIDO COR-DE-ROSA

A Z. ficara mergulhada numa chávena de chá preto, envolta numa nuvem de leite, na companhia de meia torrada. Eu optara por dar uma volta a pé pelas proximidades. Não fui longe. Voltei depressa. “Preciso da tua ajuda para comprar um vestido” “não és capaz de o comprar sozinha?” “com a fluência do meu inglês ainda acabo comprando a loja, a pensar que adquiri um lenço de assoar”. Lanchámos e fomos às compras, na tal loja londrina.

Ele tinha-se “rido” para mim, da montra. Vesti-o. A empregada simpaticamente emprestou uns sapatos para que avaliasse melhor a peça e curiosa perguntou qual era a ocasião especial “porque o compra?” “Porque me apetece”- respondi sorrindo. Paguei ultimando o contrato de compra e venda e fiquei proprietária de um bonito e garrido vestido cor-de-rosa.

Usei-o poucas vezes, uma delas num dos jantares comemorativos do Centenário da República. Então, Zé A., com o à vontade que a amizade permite, comentou “não gosto do teu vestido. É muito colorido.” “Que não seja isso a fazer-te infeliz. Dispo-o já”, mas aí intervieram a Nini, cuja toilette em tons de cinza fora eleita a mais bonita pelo mesmo “júri” e a Paula, vestida em cores neutras, a impedirem-me o gesto, com receio de se sentirem ofuscadas pela minha voluntária sessão de striptease, naquele glamouroso jantar.

E lá ficaria todo o Verão, pendurado e esquecido num dos roupeiros, não fora o comentário da minha amiga “carol” postado a propósito do texto: As avós.

Hoje, segunda feira, saltei da cama às sete horas. Passei a ferro a roupa que ficara desde sexta a aguardar que a vontade me chegasse, enquanto no forno do fogão se assava o coelho e as castanhas que, com a couve lombarda já estufada, iria comer ao almoço. Depois cuidei-me: banho, creme, perfume de alfazema e o vestido cor-de-rosa. Optei pelos óculos de sol “Carrera” de aros brancos que costumo usar na praia, completei a toilette com um sorriso alegre e saí para a rua.

Ah! Nesta manhã pré-outonal, em que o Sol brilhou, eu fui a Primavera em flor.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

MANHÃ DE DOMINGO


Às vezes o telefone toca às oito horas: “bom dia, com alegria” – desejam-me, com entusiasmo, mal levanto o auscultador - “bom dia, também para ti” e rio-me contagiada pela força que aquela voz me transmite.

Domingo de manhã, acordei mais tarde. Vagueei pela casa, ou melhor “reginei”. “Reginar” é um verbo familiar, inventado em “honra” de uma amiga das minhas filhas que passava o tempo em “fralda de camisa”.

Após o pequeno-almoço lembrei-me que há muito não sabia do meu amigo J. M. e liguei eu, plagiando a saudação.

Nem sei como, a não ser estabelecendo aquela velha analogia das palavras com as cerejas, que mal nós puxamos uma vem logo outra agarrada, acabei falando de um assunto recente que não estaria bem resolvido. Eu! Que gosto de tudo bem maduro! Que só gosto de falar dos puzzles depois de saber onde se encaixam as peças! Fiquei de vidro! Mesmo em ponto de rachadura!

Saí porta fora e fui andar. Aliás a ideia já era essa, mas até fui mais ligeira, porque quando não estou bem sinto uma necessidade enorme de dar distância ao pensamento. É assim que desato os nós. Se o meu amigo e colega de liceu P.C.S., que chegou a ser meu médico, ainda fosse vivo, não deixaria de comentar ”que sorte a tua, há quem fique em casa a curtir a telha!”

Cheia de pena de mim apetecia-me chorar; nem sabia se conseguiria ir dar almoço à minha mãe, que lê em mim melhor que num livro aberto (aí o tamanho das letras pode dificultar); mas achava que numa manhã tão bonita em que soprava um vento outonal sibilando uns decibéis acima do habitual, fazendo rodopiar as folhas muitas delas já vestidas de tons avermelhados, isso seria um desperdício. “Há-de aparecer alguém com quem me apeteça rir!”

Então, aparece um casal amigo com quem me costumo cruzar, só que a minha amiga comprou há muito tempo o catálogo das doenças…

Cumprimentámo-nos. “Nem te via” diz-me ela “venho sempre a olhar para o chão” “Isso é para ver se encontras a nota de quinhentos euros que acabei de perder” brinco ”não, as minhas cataratas fazem-me ver as caras das pessoas assim” e mimoseou-me com um esgar “Ah! Mas isso é divertidíssimo!”

Despedimo-nos e continuámos em direcções opostas, mas a minha manhã estava salva. A partir daquele encontro fui imaginando como a minha amiga veria as caras das pessoas com quem me cruzei.

A quem interessar: fui dar o almoço à minha mãe e tudo correu às mil maravilhas. 

sábado, 17 de setembro de 2011

AS AVÓS

Quando eu era menina, as avós eram umas senhoras muito doces, com um sorriso nos lábios, e braços abertos sempre prontas para amar toda a gente. Que saudades tenho da pele fina e macia do rosto da minha avó Isabel! “Avó deixa-me brincar com a tua pele” e ela sentava-se comigo ao colo deixando-me afagar-lhe as rugas da cara e do pescoço. Que saudades tenho da voz pausada com que a minha avó Joaquina Joana mandava em toda a gente e mais alguém, parecendo sempre pedir licença para falar, mais conferindo a execução das tarefas do dia do que ordenando que se fizessem.

Vestiam de preto ad aeternum, após o falecimento dos maridos e, em casa, teciam calmamente os dias preocupadas com a família, bebericando chá e comendo torradas.


Ela aceitou o convite para jantar. Mais um! Os convivas estavam distribuídos por várias mesas. Escolheu o que desejava comer e discutiu a escolha do vinho numa mesa de oito pessoas em que cinco eram homens. Gosta de um vinho subtil, encorpado que se beba suavemente. “Olho de Mocho Rosé nem pensar! Esse bebe-se fresco. Ainda se fosse “Olho de Mocho” branco, ia bem com o polvo à lagareiro…” “Vale da Mata, porque é da região” alvitraram os cavalheiros. “Não, é melhor o Rocim tinto, tem mais alma. Não é da região, mas é do mesmo produtor. Fica tudo em casa”. E foi mesmo esse que se bebeu! Onde já se viu tamanho desaforo?! As avós em jantares políticos a contestarem as decisões dos cavalheiros, no concernente a vinhos?!

Antes das vinte e quatro horas retirou-se. Só excepcionalmente se deita tarde.

E em cada lado da noite, o “polvo à lagareiro”! Malvado bicho!

A manhã aconteceu cedo. Apetecia-lhe vestir uma roupa alegre, mas não podia. Esperavam-na as exéquias do pai de um amigo. O carro precisava de gasolina e ela de comprar flores e “voar” pela A8, para chegar, pelo menos, com uma hora de antecedência para mimar o amigo.

Carregando no acelerador, olhava o marcador do consumo de gasolina que indicava um terço a mais que o habitual. Na sua cabeça ecoava “cortes” “cortes” e ela já nem sabia se o eco se referia ao local do jantar da noite anterior se às contenções propaladas pelo ministro, que o consumo excessivo de combustível fazia lembrar… mas continuava com o André Rieu laboriosamente agarrado ao violino, tocando quase só as três primeiras faixas do CD, por serem as que mais gosta de ouvir. Nem havia tempo para escolher outro…

Uma avó… sozinha em plena auto-estrada, conduzindo feita louca…

E voltou à mesma velocidade. Tinha o almoço marcado: balanço da actividade política da Junta de Freguesia. Mas onde se viu as avós mandarem noutra coisa que não em tachos e panelas, limpezas de casa, rendas e bordados?

Já não se fazem mais avós como antigamente!

Ah! Mas eu garanto que mantêm o mesmo sorriso de beatitude quando olham os netos, a mesma amplitude do abraço e a mesma certeza de que cada neto é único no seu mundo de afectos. Sentem o mesmo amor imensurável e possuem a mesma infinidade de beijos para distribuir.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A MULHER-BOMBA

Segunda-feira, cumprindo um preceito anual, consultou o cardiologista.

“Tem um pequeno bloqueio cardíaco” “não quero saber nada disso” “só estou a avisá-la””diz-me o mesmo todos os anos. Não vou preocupar-me com isso. Venho cá para que o senhor se preocupe””só posso vigiar”



Ela vestia umas calças brancas e uma blusa vermelha com bolinhas, feita possivelmente de um pedaço de trapo subtraído ao vestido da Minnie. Tinha um ar estival que se enquadrava bem naquele dia de sol.

Pelo decote da blusa, prodigamente cortado em V divisavam-se uns círculos esbranquiçados seguros com adesivo anti-alérgico e de entre os seios nasciam em ondulações irregulares dois fios pretos que se ligavam aos dísticos superiores.

Ao nível do estômago notavam-se saliências irregulares; do lado esquerdo um molho de fios atado também com adesivo e do direito uma caixa, um paralelepípedo rectangular, que bem poderia ser a carga de explosivos.

“Chegou a mulher-bomba.” Avisava quando se aproximava dos amigos. “E vai explodir?””Ao menor toque” e riam todos.


As vinte e quatro horas em que carreguei o Holter foram divertidas.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

DOCES

Eu mergulhara em açúcar. Primeiro misturara-me com as cerejas, logo depois com as ginjas e surgiram os néctares.

Passada essa primeira fase apareceram os figos. Colhera-os a Carma da figueira do quintal da tia. E cá em casa há figos em calda e doce que resultou dos mais maduros.

A Carma também trouxe marmelos. Fiz marmelada.

E no meio de tanto doce chegou o poema, enviou-mo a Amélia Pais http://barcosflores.blogspot.com

Fazer compota em julho



Uma mulher a fazer compota em julho
revela-se resignada a viver com o marido.
Não vai fugir às escondidas com o amante.
Se assim não fosse, de que serviria cozer fruta com açúcar?
E vejam como ela o faz de boa vontade,
como um trabalho feito com amor,
mesmo que o espaço tenha um valor excessivo
e não haja sítio para armazenar os boiões.

Uma mulher a fazer compota em julho
está a preparar-se para ficar por aqui durante uns tempos.
Pretende aquartelar-se e hibernar
para atravessar os desconfortos do inverno.
Se assim não fosse, por que razão - e, notem,
sem que haja nisso qualquer dever -
gastaria ela o verão tão breve
a limpar restos de compota.

Uma mulher a fazer compota em julho
no meio do caos de uma cozinha cheia de vapor
não se está a preparar para fugir para o Ocidente
ou para comprar um bilhete para os EUA.
Essa mulher há-de escapar aos desmoronamentos da neve
salva pelo sabor da fruta.
Na Rússia quem faz compotas
sabe que não há saída.

Inna Kabish

DE Luís Parrado a partir da tradução inglesa de Fay Marshall e Alex Marshall reproduzida em An anthology of contemporary russian womem poets, selecção de Valentina Polukhina e Daniel Weissbort, University of Iowa Press, Iowa City, 2005, p. 69).

Cá para mim, quem, sem marido, faz compota em Setembro, vive no Ocidente, num país onde a neve não constitui um perigo e não pensa emigrar para os “States”, vai “obrigar” os amigos a comer tudo o que andou a confeccionar.

Sim, falta espaço para armazenar os boiões e o doce de abóbora ainda nem está feito…

terça-feira, 13 de setembro de 2011

SILÊNCIO

Fechos os olhos e esqueço-me de mim. Plano alheada do mundo, inebriada dos sons que me rodeiam. O silêncio não é absoluto, mas a quietude é um estado de graça.

“Como podes viver nesta casa onde nada se ouve?” – perguntou tanta vez a minha mãe. É precisamente por nada se ouvir que vivo nela. Oiço-me melhor a mim, se estou calada. Oiço melhor o pensamento.

Os sons encantam-me. Oiço-os em conjunto e separo-os na mente para voltar a reconstruir as partituras com que a natureza me brindou. “Será que vou ouvir outra vez?” e fico expectante. Espero que o som se repita... O exercício distrai-me.

Gosto de brincar com os sons, como quem joga ao agarra-e-foge.



“Sonhar é um modo de mentir à vida, uma vingança contra um destino que é sempre tardio e pouco” Mia Couto , Venenos de Deus, Remédios do Diabo, Maio de 2008


Será?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

AINDA

Falava-lhe do tempo. Queixava-me. Implacável não se compadecia com o meu ritmo. Não esperava por mim. Passava. Ia sem que sentisse.

O amigo olhou-me, com aquela ternura de que só os amigos são capazes e comentou “ainda és capaz de fazer perder a cabeça a um santo”.

“Quando encontrar um santo, verei se tens razão”. E ri-me, ri-me com vontade. A gentileza do amigo nem repara que a advérbio “ainda” confirmava o meu discurso.



E agora ó Deuses que vos direi de mim?

Tardes inertes morrem no jardim.

Esqueci-me de vós e sem memória

Caminho nos caminhos onde o tempo

Como um monstro a si próprio se devora.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

ROTINAS

Recomecei, Segunda-feira, as minhas caminhadas pela beira-rio, no diálogo ameno das manhãs que as férias haviam feito esquecer: o chilrear dos pássaros, o grasnar dos patos nadando no rio, o vento a sibilar de mansinho por entre a folhagem das árvores e o ronronar mais ou menos apressado dos carros, a que os bons-dias daqueles com quem me cruzo dão o toque de humanidade por que a minha alma anseia.

Começam a instalar-se as rotinas.

Nem o par de velhotas, Testemunhas de Jeová, faltou ao encontro, caminhando em passos lentos, irregulares, num para-arranca-conversa, que os joanetes não permitem pressas “posso dar-lhe este papel que a ensina a ser feliz?” Estendo a mão para um pequeno desdobrável. “Se gostar de ler, dou-lhe esta revista”. Recuso com o melhor sorriso “para não levar na mão” adianto como desculpa esfarrapada metendo o desdobrável no bolso das calças e continuo em passos largos a minha caminhada, depositando o desdobrável, longe da vista das velhotas, num recipiente de lixo.

Sorrio irónica: “Como queres ser feliz se desprezas os ensinamentos?”


E, Terça-feira, no Diário de Leiria, por Vera Xavier, o horóscopo: “Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias” (Fernando Pessoa) Hoje é dia de sentir, de ouvir e de falar com o seu coração.

Terça-feira e todos os dias. As previsões são válidas ad aeternum. Como o óbvio pode ser original! Vou passar a ler o horóscopo todos os dias (que me lembre).


E Quarta-feira, a amiga tão doente, a garra a apertar-me o peito e a noite sem lado para me virar… sem mão para agarrar a minha.

sábado, 3 de setembro de 2011

O TIO PATINHAS

A manhã de Sexta-feira era de chuva e eu saí, com destino à cabeleireira. Levava guarda-chuva aberto e óculos escuros protegendo o olhar. Os acessórios poderão parecer contraditórios, mas ninguém compra um raio de sol, ele simplesmente surge em cada manhã e, ou se vislumbra no céu, ou se sente na alma e, quer num caso quer noutro, é nos olhos que a luz se reflecte.

Como vestira um vestido azul-escuro, optara por calçar uns sapatos vermelhos, fechados, de salto fino que, arrumado o carro no parque de estacionamento do “meu amigo droguinhas”, me fizeram caminhar pela rua fora evitando enfiar os saltos no pobre arremedo de calçada portuguesa de que é feito o passeio.

Contrastando com o escuro do alcatrão ela brilhou coberta de água: pequenina, circular, perfeita, e eu baixei-me…

Quando a unha do meu indicador direito, impecavelmente pintada com verniz Clarins (Paris), adquirido numa loja Balvera, por preço pouco apetecível, mesmo tendo em conta a promoção de trinta por cento, tocou o chão, explodi numa gargalhada: um único cêntimo despertara o Tio Patinha latente em mim!

Deste gesto incontido, aos mergulhos numa piscina cheia moedas, já não faltava tudo…

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

ACABARAM-SE AS FÉRIAS

Cá estou eu, metida por Setembro fora, se me é permitido plagiar Eugénio de Andrade e só não digo “a caminho do fulgor das maçãs” porque o engenho humano ávido de sensações, ansioso de vivências, sem paciência ou tempo para esperas, alongou por todo o ano os cheiros e sabores de cada época, sem questionar o valor dos referentes do tempo e do lugar, ignorando o facto de pouco a pouco ir perdendo a própria identidade.

Depois de uma semana em S. Martinho do Porto, imersa em nevoeiro, sem conseguir comprovar o Princípio de Arquimedes e gritar "eureka", não ao emergir da banheira, mas da neblina matinal, dos chuviscos, do mau tempo, e gozar o Sol; sem vislumbrar D. Sebastião, nem tão pouco acalentar a esperança de ver surgir o meu "cavalo verde", rumei a Lisboa.

A Rita nasceria dia dois de Agosto e a minha mãe em simultâneo decide adoecer. A minha mãe! Só ela, fragilizada por uma pneumonia nos seus noventa e três anos a pedir que não me informassem de que estava internada no hospital de Leiria, pois era mais necessária em Lisboa que junto dela. Seguiram-se uns dias a acelerar na A8, partilhados com a filha mais nova, a meias com a tarefa de velar pelo André, que aguardava impaciente o regresso a casa, da mãe, do pai e da irmã recém-nascida.

Dispensada de trabalhos pelas melhoras da mãe e depois de fazer o que todas as avós fazem aos netos, nomeadamente aos acabadinhos de nascer: mexer, pegar, dar beijinhos, enternecer-se, ver se “funcionam”, fiquei “no desemprego”.

Com uns dias ainda para gozar, avisei as amigas que iria até S. Martinho do Porto e levaria quem me quisesse acompanhar. Elas aceitaram e divertimo-nos imenso.

Foram-se as férias. À excepção da última semana de Julho, passei-as na A8, num vai e vem que o carro quase fez de cor. Os dias de Sol foram muito escassos, mas boa disposição houve em abundância e esquecida a preocupação da doença da minha mãe e a ansiedade do nascimento da Rita, confesso que não me lembro de alguma vez me ter rido tanto como neste mês de Agosto.

Uma “bolachinha” com meia dúzia de cabelos ruivos predispôs de tal forma o meu coração para a vida que nem dei pela falta do Sol. Os netos são a oitava maravilha do mundo!