terça-feira, 28 de dezembro de 2010

REIVINDICAÇÃO


Este ano, as festas de Natal, com a toda família, aconteceram em minha casa. Quem tem filhas casadas com sogros a morar longe, nem todos os Natais tem a sorte de gozar os mimos do neto. Os outros avós também têm esse direito.

O André chegou eufórico. Abraços, beijinhos, muito entusiasmo e, à mistura, uma dose ainda maior de impaciência. De prendas, nem sombras, o Pai Natal, que nunca mais chegava, é que as distribuiria depois de jantar.

Compusemos a seu jeito o presépio das figurinhas de barro que eu fizera na mesa da varanda e, quando caiu a noite, assinalámo-lo com a luminária em forma de casa que indicaria ao Pai Natal onde deveria deixar as prendas do André e fomos cear.

À mesa, ele lembrou-se “avó já tenho a história “A que sabe a Lua?” “já?!” Admirei-me e devo ter deixado transparecer algum desapontamento na voz, porque o pai apressou-se a explicar que tinha havido uma "feira do livro" na escola e prometera deixá-lo escolher dois livros, mas o André ao ver aquele nem quisera escolher mais nenhum. Para ele, tendo em conta a promessa feita, sobrara o papel de pagar.

“A que sabe a Lua?” é uma história infantil escrita em 1993, pelo alemão Michael Grejniec, traduzida para português por Alexandre Honrado e publicada pela editora Kalandraca, no ano de 2002, fazendo parte da colecção “Livros para Sonhar”. Foi nesse ano que adquiri o livro fabuloso no aspecto gráfico, na história que conta, mas sobretudo naquilo que não diz e deixa adivinhar. É difícil, diria mesmo extremamente difícil encontrar no mercado livros infantis que reúnam com a mesma excelência as três características que referi.

O André nasceu em 2005 e logo que a idade o permitiu, começámos a encantar-nos com a história. Quis dar-lhe o livro para que, levando-o para casa, o desfrutasse a seu belo prazer, mas a mãe teve uma ideia melhor “essa história é da avó e sempre que cá vieres ela contar-ta-á de novo, será melhor assim”. E foi! A partir de então, por conta da curiosidade que a Lua suscitara naqueles animais, a que finalmente o rato conseguiu dar uma trinca, vivemos momentos fabulosos de cumplicidade.

E assim, sem mais nem menos lá se foi o nosso momento da história, daquela história!

É claro que nesta visita natalícia não faltaram os momentos de cumplicidade. O poder inventivo das avós, a que os netos dão preciosas ajudas, é prodigioso! Não me estou a gabar, acontece com todas, mas menos assim eu quero reclamar.

Alguém me sabe dizer em que departamento se reivindica a sorte da vida se ir tecendo e de os netos lembrarem as avós no meio de uma panóplia de livros à mistura com centenas de crianças?

PALAVRAS DE OUTROS

RECEITA DE ANO NOVO


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido

(mal vivido talvez ou sem sentido)

para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;

novo

até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior)

novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,

mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?

passa telegramas?)


Não precisa

fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido

pelas besteiras consumidas

nem parvamente acreditar

que por decreto de esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando

pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.





No ano passado, por esta altura, o meu amigo Diomar mandou-me este poema de Carlos Drummond de Andrade, escrito em 1997, acompanhando os votos de Feliz Ano Novo.

Por certo, cheio de vontade de ajudar tê-lo-á enviado a mais amigos.

E para o ano novo dele o que fez, o que pensou? Merecia-o mas esqueceu-se de o programar e a 31 de Janeiro deixou-nos a todos com menos um amigo.

Em sua memória, o poema aqui fica.

Cuidem-se e sejam felizes!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

UMA MANHÃ DE SOL


Segunda-feira, acordei com a alma estrangulada. “Tenho de dar distância ao pensamento”.E feitas as abluções matinais, por amor ao próximo e conforto pessoal enfiei-me no carro. Troquei o CD do Prince pelo do Michael Bublé, cuja faixa “Cry me a river” ameaça gastar-se muito antes das outras e segui.

No céu brilhava um sol radioso e quente que me apetecia comer às colheradas.

Com a pressa não despira o casaco, distracção que me obrigou a uma curta paragem na área de serviço da Nazaré, pois o calor começava a incomodar-me.

“E se em S. Martinho a manhã estiver encoberta?” A pergunta não deixava de me martelar o cérebro e eu tentava consolar-me pensando “não faz mal, também gosto de manhãs nubladas”, mas faria, naquele dia, eu precisava de sol.

Em S. Martinho havia um sol radioso e, como se tivesse encomendado com antecedência, a maré estava a baixar, havendo já uma larga faixa de areia molhada e dura, como só acontece ali, onde se podia passear calçado, sem perigo de molhar os pés.

Havia quatro pessoas na praia: duas amigas que abandonavam o areal quando eu o atravessava em direcção à beira-mar e um jovem casal anglo-saxónico brincando com o cão que me brindou com um “bom dia” tão sorridente como nasalado, que me apressei a retribuir.

Não se sentia qualquer brisa e por isso o mar, com aquela forma arredondada parecia um enorme espelho mágico, não louvando a beleza da Branca de Neve, mas ele próprio fonte de encanto naquele enamoramento com a luz solar.

A distância permitia-me sentir a praia só minha. Fechei os olhos e caminhei, sentindo o calor do Sol “Meu Deus, como precisava disto!” exclamei várias vezes em voz alta.

“A sombra? Estará com pressa, a minha sombra?” Abri os olhos e, embora sabendo que era graças à diferente altura do Sol, nesta época do ano, que ela caminhava ao meu lado, em vez de, como no Verão, correr à minha frente, não deixei de sorrir e pensar ”hoje, nem tu tens pressa de chegar a Salir”.

Continuei a caminhar e fechei de novo os olhos para ouvir melhor o rumorejar das ondas. Faço o mesmo nos concertos. Se aí me distrai a perícia do gesto dos executantes, aqui distrair-me-ia o fino enrolar daquelas ondas pequeninas, que ouvia, primeiro, próximas, depois mais longe e por fim mais longe ainda, desfazendo-se na areia, numa música sempre repetida, sempre nova.

Já em Salir, apanhei uma concha de caracol meio rosada para juntar aquela “família de impossíveis” descendente do meu cavalo verde: a ovelha cor-de-rosa do André e o elefante de estimação que a turma da pré primária acreditou que ele abrigava em casa.

Voltei para trás, de novo a caminho de S. Martinho e sem vontade de deixar a beira-mar.

“Que bela manhã para meditação!” e apetecendo-me sentar na posição de Lotus (em tempos pratiquei yoga), parei e casualmente olhei para trás. Saltou-me aos olhos em letras enormes, que ocupavam quase toda vertente da duna: AMO-TE, e ao lado desenhado um enorme coração.

Sorri. “Também te amo!”

Muito ao longe, também caminhando em direcção a S. Martinho, mas pelo passadiço das dunas, divisava-se um jovem, com um livro na mão, fora ele que escrevera a mensagem?

Fosse quem fosse! Abençoada timidez! Abençoada discrição de quem escreveu! A ausência do nome da pessoa a quem se destinava universalizou a mensagem, tornando de todos que a lessem aquela declaração de amor.

Era o final mágico de uma manhã de sol!

sábado, 11 de dezembro de 2010

NATAL


FELIZ NATAL

Há anos, numa qualquer tarde por alturas do Natal, seguia eu pela rua fora, absorta, como ando sempre, com o cérebro a fervilhar de ideias, quase sempre a sonhar de olhos abertos e pés assentes no chão, quando oiço “Isabel, Isabel, espere aí. Tenho um recado para si.”

Atento na realidade e atravesso a rua ao encontro da Milai.

A Milai é uma Senhora que todos conhecem, mas para quem possa andar distraído eu defino-a sem delongas, numa única palavra: Simpatia.

Beijinhos e os cumprimentos do costume, numa mistura de sorrisos em que a Milai é pródiga.

“Abra a mão” mandou ela. E eu abri, que as ordens são para cumprir!

“O Menino Jesus manda-lhe isto, com votos de Feliz Natal”.

E a Milai depositou na minha mão aberta uma pequenina estrela dourada.

A estrela não se vê nesta foto, mas há mais de dez anos que está pousada na almofada um pouco acima do braço direito deste Menino Jesus, que também um gesto de amizade trouxe para mim.

Às vezes, os anjos descem à terra e tomam a forma física dos nossos amigos só para nos lembrarem que o AMOR existe e a FELICIDADE é um estado de alma.

QUE ESTE SEJA MAIS UM NATAL SOLIDÁRIO PARA TODOS NÓS

NATAL

Desde há cinco anos que voltei a fazer o presépio com as figurinhas de barro.
Tenho um menino jesus, que a modéstia e o bom senso me obrigam a referir com letra minúscula. "Lindo de morrer"(como classifica a minha amiga Paula as coisas de que gosta muito)!
O meu mundo cabe inteirinho no olhar desse menino.
As figurinhas de barro esperam ansiosas que ele venha colocá-las a seu gosto.
Até o cacto de Natal floresce alegremente!

PALAVRAS DE OUTROS

O FEIXE DE CARUMA

O feixe de caruma! Que humildade!
São folhas mortas que o pinheiro enjeita,
Ou que o vento cruel por terra deita,
Que se calam sem dó, nem caridade.

Mas, sendo o sentimento de bondade
Aquele que aos humildes mais se ajeita,
São para os pobres a caminha estreita,
São a vida, o calor, a claridade.

O feixe de caruma! Se Maria
Virgem da Nazaré, Nossa Senhora,
Tivesse tido a estranha fantasia

(Perdão por esta audácia pecadora)
De dar à luz nesta freguesia,
De caruma cobria a manjedoura.

Crésus Perdulário
Acácio de Paiva



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

TEATRO

1.º Acto

Já passaram muitos, muitos anos, eu era uma menina com olhos de mata-borrão, prontos para absorver tudo e no ACS, centro da vida sociocultural da Sismaria da Gândara a que na altura simplesmente chamávamos clube, decorriam os ensaios de uma peça de teatro.

Ao Senhor Franklin, que tinha um armazém na rua D. Carlos I, onde hoje se situa uma loja que compra ouro, pessoa que associo aos pirolitos do Sr. Emídio Xavier, desconhecendo se este na altura ainda produziria pirolitos, por saber que aquele negociava em bebidas, não por gostar de pirolitos, mas pelo misterioso berlinde que as garrafas continham (que magia!), cabia a realização e a encenação. Ensaiava e ainda colaborava como actor. Parece que o estou a ver, um senhor alto (ou seria eu que era tão pequena…), moreno, bem-falante, com um lindo timbre de voz, a sair do armazém onde eu achava que havia um enorme tesouro de pirolitos.

Chegou o grande dia e eu vi, pela primeira vez representada ao vivo, uma peça de teatro. “A Raça”.

Das actrizes lembro-me da D. Julieta, que chegou a ganhar um prémio do SNI, da D. Ernestina, da D. Dinha e da Leodete; dos homens só recordo o senhor Franklin, o Álvaro C. e acho que o Silva Gante também fazia uma pequena entrada em cena. O cenário era uma sala. A parede que ficava em frente aos espectadores tinha uma janela de sacada através da qual se via uma árvore florida e nas dos lados havia portas por onde os actores entravam e saiam.

Sempre que era caso disso o Álvaro dizia “Sra. Condensa” e a minha mãe segredava-me ao ouvido “diz-se condessa” e ria, porque naquela época ela era senhora do tempo e ria-se da vida com a facilidade com que hoje chora, sem confessar que tem medo da morte, porque aquelas lágrimas, nestes noventa e dois anos lúcidos, citam Padre António Vieira, quando disse que o melhor sinal de se haver de durar pouco é haver-se durado muito, e ambas impotentes perante o irremediável, acabamos a “refilar” por conta do andarilho, a fingir que acreditamos que ela durará eternamente.

Lembro-me ainda de haver em cena um sofá sobre o qual, no final, o Álvaro cedendo à emoção, caiu, quase desmaiado e comovido chorou. E como o lenço de assoar lhe fez falta…

Todos batiam palmas premiando o desempenho, a dedicação, a dignidade daquele trabalho de amadores, mas eu nem ouvia, eu estava fascinada, eu queria estar ali, naquele palco, a brincar ao “faz de conta”…

sábado, 27 de novembro de 2010

NATAL

Naquela terça-feira de arrumações, dedicada a rasgar papéis, encontrei muita gente. E, entre pedaços de uns e de outros também encontrei alguns meus.

Quantos dias faltam para o Natal? Que importa? Na escuridão da noite, lá fora, o frio aperta e ainda nem é Inverno!

Escrevi o poema numa noite de 24 de Dezembro de um ano qualquer, que aconteceu há muito tempo!
O mote é de Ary dos Santos "O Natal é quando um homem quiser". A mim apetecia-me que fosse hoje!


Quisera estar contigo este

momento

Desfrutando-te para além

do pensamento


Quisera dar-te a Boa Estrela

de presente

Beijando-te os lábios

levemente


Quisera viver contigo essa

magia

Que torna cálida uma noite muito

fria


Na pequenez do presente

magia

é tudo o que nos resta


Sobra-nos em amor

o que nos falta em tempo


A nossa vida é um momento


Na tal noite

Na tal madrugada

NATAL QUANDO TU QUISERES

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O CHAPÉU DE FELTRO VERMELHO

O chapéu de feltro vermelho faz-me lembrar o Sidónio Muralha: “O HOMEM BOM E JUSTO DO CHAPÉU VERDE”e quase me apetecia começar como ele “Já todos sabem o que é um chapéu, mas talvez nem todos saibam o que é um homem bom e justo… “

Bom, nem eu me posso comparar a Sidónio Muralha, nem pretendo falar de igualdade de direitos, embora o tema seja sempre pertinente, o chapéu de feltro é meu e não de um homem e ainda por cima é vermelho e não verde.

Banidas todas as hipotéticas semelhanças resta-nos o conceito original de chapéu, sobre o qual nem vale a pena dissertar, porque já todos sabem que é um objecto, mais ou menos rígido, que serve para proteger a cabeça.

Pois, há anos, comprei um chapéu. Um lindo chapéu de feltro vermelho! Foi “amor à primeira vista”; entrei na loja com outra intenção, olhei para ele, experimentei-o e decidi de imediato que seria meu.

Fiz a aquisição para nunca me esquecer de que a vida vive-se todos os dias. Usualmente, quando o “folgo” abranda, abro o roupeiro, retiro-o da prateleira onde o guardo e coloco-o na cabeça.

O espelho onde me miro é uma composição rectangular de quadrados que colei no interior da porta desse mesmo roupeiro e então, por muito triste que esteja (as tristezas em mim não duram muito) é impossível não rir da garridice da imagem daquele puzzle de quadrados que os anos tiveram um trabalhão a ajeitar.

O meu chapéu de feltro vermelho é o símbolo da coragem com que tento vencer as vicissitudes da vida. Felizmente, ao longo dos anos, tenho-o colocado poucas vezes na cabeça porque não desanimo facilmente.

O chapéu de feltro vermelho preservado numa redoma de vidro, merecia um lugar de destaque na decoração da minha casa.

No dia em que festejar o octogésimo aniversário, colocá-lo-ei na cabeça e, pela primeira vez, assim enfeitada, irei passear pela rua. Nesse dia, o chapéu de feltro vermelho simbolizará a alegria de ter atingido mais um objectivo na vida.

Para já, para que neste Inverno não me falte o estímulo, comprei uma boina vermelha. Com essa ver-me-ão andar por aí.

ARRUMAÇÕES

Numa passada terça-feira, deu-me para as arrumações.

Não há ninguém, a não ser o Pacheco Pereira que junte tanta papelada como eu. Não que ele me tenha convidado para ir tomar uma copo lá a casa e eu visse alguma coisa fora do lugar. Nada disso! Acontece que, numa qualquer revista, vi publicada uma foto do dito senhor na biblioteca e reparei que aquilo era um susto muito maior que o quarto azul, que foi como a minha filha mais nova apelidou a divisão onde divago, martelando no teclado do computador, local a que em tempos idos se chamaria escritório. Bom, o senhor citado é um intelectual ao pé de quem eu mal sei ler e escrever, o que justifica o amontoado de papéis; eu não tenho desculpa e vai daí e de vez em quando, lá trato de rasgar alguns.

Acresce confessar que gosto de ler de lápis na mão e que vou fazendo anotações das passagens mais interessantes dos livros que vou lendo, por vezes sabe-se lá onde!

Hoje, ao abrir um caderninho de capa dourada e lombada preta salta-me à vista Manuel Alegre

“Meu amor é marinheiro

quando as suas mãos me despem

é como se o vento abrisse

as janelas do meu corpo”

Esta é a quadra de que mais gosto do poema: Trova de Amor Lusitano e a sua leitura deu-me uma vontade quase irreprimível de ouvir Adriano Correia de Oliveira. E o disco? Bom, à falta de gira-discos, que há muito já não possuo, está com todos os outros arrumado numa estante que possuo na garagem. Ainda pensei, vou à Net e delicio-me, mas fiquei num vou, não vou, que nem sequer chegou a merecer honras de talvez, por me lembrar que Adriano não cantava esta quadra.

Abril de setenta e quatro deu som à palavra liberdade, que antes não passava de um suave murmúrio, mais adivinhado que ouvido por cada um de nós e a partir de então vá de gritá-la ou cantá-la pelos anos em que a desejámos em silêncio.

Por isso, se bem me lembro, esta magnífica quadra, que tanta sensualidade transmite, não é cantada no disco. Ele canta, se a memória não me atraiçoa,

Meu amor disse que eu tinha

na boca um gosto a saudade

e uns cabelos onde nascem

os ventos e a liberdade

E sabem o que vejo sempre que lembro esta quadra? Aquele magnífico trabalho de Augusto Mota que estava no café Colipo, colocado na parede em frente à porta, “A Lenda do Lis e do Lena”. Não me perguntem porquê, pois não saberei responder; o quadro não terá nada a ver com a quadra, ou talvez tenha, mas não me vou pôr à procura de razões. O que posso garantir é que quem alguma vez o contemplou ficou bem mais rico de sensações pois é nuns cabelos assim que “nascem os ventos e a liberdade”.

E neste contraste de rasgar papéis e compor divagações, com a imaginação a levantar voo sem plano ou vento a favor, deu-me uma fome terrível. Eram dezasseis horas e ainda não tinha almoçado.

Largo papéis e poemas, avanço para a cozinha, atiro-me aos tachos e afins e dou comigo a almoçar pataniscas de bacalhau.

O que Freud não diria disto?!

domingo, 7 de novembro de 2010

UMA VIAGEM AO CONTRÁRIO

TEIAS DA VIOLÊNCIA

Teve lugar hoje, dia 6 de Novembro o Seminário Teias de Violência , no Hotel Eurosol, em Leiria, promovido por MULHER SÉCULO XXI - Associação de Apoio às Mulheres, sita na Av. Marquês de Pombal , Lote 25 -1.º A.

Com muita pena não consigo publicar aqui o magnífico cartaz.

Para uma sala cuja lotação era de cento e setenta e quatro pessoas houve duzentas inscrições. Estive presente em representação da Junta de Freguesia de Marrazes e pude comprovar que, num magnífico Sábado de sol, o público era maioritariamente jovem. As intervenções que versaram a igualdade de género, a violência doméstica, a violência no namoro e a violência contra os idosos foram interessantíssimas.

Se os números de que ouvi falar me constrangeram, tal como a tomada de consciência de que também para mim chegará a velhice, coisa em nunca tinha pensado tão seriamente, alegrou-me o facto de ouvir que muito já se faz em defesa de quem precisa de ajuda e encantou-me sobretudo o entusiasmo com que as equipas presentes defenderam os seus projectos. Fico sempre fascinada quando oiço alguém falar com amor do trabalho a que se dedica.

Está de parabéns a Dra. Maria Isabel Gonçalves, Presidente da Mulher Século XXI, pela extraordinária forma como decorreram os trabalhos.

Não posso deixar de felicitar também a jurista Dra. Filomena Baptista que, de forma brilhante, coligiu as conclusões dos trabalhos do dia.

sábado, 6 de novembro de 2010

MOLESKINE

Ontem, comprei o meu Moleskine para 2011.
Tenho a mania dos cadernos de capa preta. O preto resulta da ausência de cor e eu acredito que assim vou colorindo os dias a meu belo prazer. Anos atrás costumava mesmo usar dossiers de arquivo negros, em que fazia colagens de frases, gravuras e recortes vários de jornais e revistas. Depois cobria tudo com papel autocolante transparente e, modéstia à parte, o produto final era muito interessante.
Mas ontem eu ia com a ideia fixa “o Moleskine tinha de ser diferente”, receava era que a Arquivo me traísse. Entrei e, atrás do balcão estava uma menina estilo bolinho de coco, daqueles com muitas gemas, que não vão ao forno e levam muito açúcar, disse ao que ia e antes da pequena ter tempo de abrir a boca dirigi-me ao expositor e servi-me “é mesmo isto que quero”. Entretanto ela já estava atrás de mim, possivelmente receosa de que com tanta genica eu fugisse com a livraria às costas, “também temos outros, depende do tamanho que deseja”, disse-me ela, “é mesmo isto que quero, cor, tamanho e modelo”. Ela condescendeu e premiou-me com o seu sorriso mais simpático, digo eu que nunca lhe vi outro, e desandou para trás do balcão, para que ultimassemos o contrato de compra e venda.
E assim me tornei proprietária de um lindo Moleskin de capa vermelha, em que os dias não estão divididos por horas, mas onde não me faltam folhas para escrever. Que me importam as horas! Desde que me reformei que os relógios cá em casa não atinam, mais cinco ou dez minutos, tanto faz, mas este ano, com a entrada na Junta de Freguesia o stress voltou a apoderar-se do meu dia-a-dia. Isso vai mudar. Não volto a correr à frente das horas! Contudo, 2011 ainda não pode chegar, primeiro porque estão por cumprir muitos dias de 2010, e depois porque ainda não personalizei o meu novo Moleskine, ainda não fiz o meu 2011.
O meu Moleskine de 2010 abre com Pessoa (Ricardo Reis, Odes)”Cada dia sem gozo não foi teu/Foi só durares nele. …Feliz a quem, por ter em coisa mínimas /Seu prazer posto, nenhum dia nega/ A natural ventura!”
Para o Moleskine de 2011 balanço entre Saramago “É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já…… é preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e parar traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre” e Manuel Alegre “O que é preciso é poesia dia a dia”.
E para o dia dos meus anos o que vou escolher? Não conheço nada que quadre tão bem comigo como Pessoa, Tabacaria “Não sou nada/Nunca serei nada/Não posso querer ser nada./ À parte isso, /Tenho em mim/todos os sonhos do mundo”. Foi o que escolhi para Março passado. Depois, pelo que de bom me foi acontecendo ao longo do dia, passado sobretudo a brincar com o André por conta da varicela, não resisti a acrescentar “Qui vit sans folie n’est pas si sage qu’on croit (La Roche Foucauld), (Quem vive sem loucura não é assim tão sábio como se julga).
Bom tenho de parar para pensar, ir até S. Martinho do Porto, sentar-me no “Pato Bravo” ou na esplanada do “Bohemia”, conforme o tempo, mergulhar numa chávena de chá, e dar duas braçadas porque continuo a “andar espantada de existir”.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

CRUZEIRO À ILHA DA MADEIRA



Setembro desfolhou-se numa agonia lenta...
Acabaram-se as férias de Verão.
Para o ano haverá mais - cruzeiros NÃO!!!!!! (Estou fornecida de forte ondulação de noroeste por uns tempos largos...)

VILA NOVA DE SANTO ANDRÉ



Rabiscando uma notas sobre Vila Nova de Santo André

LONDRES




A "tia" Elisabete emprestou-me o automóvel e foi assim que me passeei por Londres

S. MARTINHO DO PORTO



Finalmente descobri como dar um novo colorido ao blog. E, claro está, teria de começar por publicar uma foto de S. Martinho do Porto.
Quem adivinha de onde foi tirada a foto?

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

NATAL DE 2004 OU 2005?

Ela aproximou-se da mesa onde eu jantava e no melhor dos seus sorrisos sentenciou “este ano não tens direito a prenda"”homessa!“ reclamei de imediato “obriguei cerca de cem velhinhas a atravessar a rua, mudei as fraldas ao Menino Jesus, escrevi atempadamente ao Pai Natal e vens tu agora com essa de que não tenho direito aquela malga jeitosa que o João Pedro anda aí a distribuir?! Como é que vou viver sem aquilo?"

Permitam-me um parêntesis - Acho que foi até por ter ouvido esta minha reivindicação que o publicitário (nem sei qual) inventou aquela “eu vivia sem isso, mas não seria a mesma coisa”.

Ela continuou a rir desenfreadamente voltou as costas e eu continuei a jantar e claro, tive direito à malga e ainda escolhi uma oval que achei mas original que a circular que me calhara em sorte, embora entre uma e outra bem pudesse ser o diabo a escolher. Convém acrescentar em abono da verdade que a beleza das prendas, a utilidade, ou o seu valor material é absolutamente irrelevante, importante é o Conselho Directivo do Agrupamento da Escola se lembrar dos colegas e por isso se dar ao trabalho de adquirir uma lembrança, de a embrulhar e enfeitar com um lacinho. A malga, oval ou circular, bonita ou feia simbolizava gentileza, simpatia, dedicação, entrega, disponibilidade, sentido do outro. Isso sim é relevante, isso sim é louvável.

Mas no fim do jantar ela voltou à carga “larga a malga, que não a mereces” e eu, “pois, queres duas é para poupares nos presentes deste ano” e ela ria e eu nem achei o riso desproporcionado à piada, porque os professores quando confraternizam brincam como se fossem adolescentes.

“Foste má para o Diomar e ele não merecia.” E continuava rindo.

“Má?! “ Eu cada vez percebia menos e a Piedade explicou que quando eu chegara e cumprimentara o Diomar, este gentilmente dissera “estás um pão, Isabel”, ao que eu respondera prontamente, para notória decepção dele “duro!”.

Reconheço que qualquer outra senhora teria agradecido com um sorriso simpático. Era o que eu deveria ter feito, mas eu sou neta da minha avó Joaquina Joana que adorava rir-se dela e ainda herdei o humor cáustico do meu pai e depois se eu tivesse dito “que gentileza, muito obrigada” de que se teria rido a Piedade durante dias e dias a fio? De que estaria eu escrevendo agora? E o Hotel Cristal, da Marinha Grande teria para mim algum significado especial?

É com este sorriso alegre que a minha resposta intempestiva pôs na face da Piedade que eu vou guardar a sua imagem.

Até sempre amiga!

O Diomar era um bom amigo que mesmo depois de deixarmos de trabalhar juntos arranjava tempo, todos os dias, para me enviar e-mails. Certa manhã de Domingo, tinha acabado de lhe enviar algumas piadas, quando recebo um e-mail da Cila “ O Diomar está mal. Disseram-me que deu entrada no hospital” e ainda eu não tinha acabado de redigir a resposta a tentar saber mais alguma coisa, quando recebi outro “ O Diomar morreu”. E assim abruptamente fiquei com menos um amigo.

Que descanses em paz!

domingo, 31 de outubro de 2010

E VÃO DOIS ANOS...

Não sei em que curva do caminho, aboli do meu vocabulário a palavra saudade. Não é por isso que gosto menos das pessoas que passaram na minha vida ou dos lugares que serviram de cenário à forma como me fui tecendo, mas o sentimento de saudade é um contra-senso que a minha paixão pelo existencialismo não consegue aceitar. A vida, quanto a mim, toca-se para a frente, de acordo as circunstâncias sociais, políticas, económicas e culturais de cada um e ninguém pode ter a veleidade de trazer ao momento presente o que aconteceu no passado, porque as circunstâncias por muito próximas que sejam, na verdade, nunca se repetem.

Quando dos anos que o meu bilhete de identidade diz que tenho e que eu não há meio de acreditar possuir, olho para trás não me sinto mal porque acredito que em cada momento eu decidi o melhor que sabia, o melhor que podia, da melhor maneira que poderia decidir, que aquela era, nas minhas circunstâncias a melhor escolha e que agi sempre em liberdade, com responsabilidade, com amor, com dedicação e com empenhamento.

Ah! Mas aquilo que não depende de mim, aquilo que não posso ser eu a decidir, aquilo em que não posso interferir…. Que dor! Que raiva! Que frustração!

Há dois anos, mesmo no fim de Agosto, a Piedade suicidou-se. Como não poderia deixar de ser, eu estava em S. Martinho do Porto, onde era hábito juntarmo-nos, com mais algumas colegas para saborearmos uns gelados “este ano, sou eu que pago os gelados” dissera-me ela num encontro rápido no estacionamento do Continente num dia em que vim a Leiria visitar a minha mãe. Não a voltei a ver. Eu não gostava dos gelados, mas gostava de conviver e gostava sobretudo do sorriso afável da Piedade.

E no dia do seu funeral, a que me recusei assistir, instalou-se na minha alma um sentimento de solidão de uma grandeza tal que ainda não me consegui libertar dele.

Que dor! Que raiva! Que frustração!

A Piedade nasceu livre. A Piedade era livre. A Piedade tinha o direito de fazer da vida o que quisesse, mas eu também tinha o direito de continuar a usufruir da sua amizade.

Dois meses depois, no dia dois de Novembro, suicidou-se a Esmeraldina.

A Esmeraldina era uma mulher com quem se poderia falar sem “rede”. Com ela podíamos falar de tudo sem receio de que nos repetisse ou criticasse. Era uma sonhadora. Muitas vezes lhe disse que se pintasse o seu retrato lhe enfiaria cabeça numa nuvem e lhe deixaria os pés acima do chão. Acho que adivinhava o seu anseio pelo voo, sem contudo saber exprimir a tristeza que sinto por sabê-la par’Além naquele salto temerário do sétimo andar. Até nisto tinha de ser diferente.

Também ela era livre de fazer da vida o que quisesse, mas também eu era livre de continuar a usufruir da sua amizade.

E vão dois anos de dor, de raiva, de frustração, de não ter podido evitar o inevitável, de não poder continuar a usufruir o sorriso de uma, a amizade de ambas e de não possuir a certeza de lhes ter transmitido o carinho que ambas me mereceram.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

S. MARTINHO DO PORTO

Aconteceu-me S. Martinho num longínquo Setembro, tinha então seis meses de idade e vai-me acontecendo em cada Verão, por períodos mais ou menos longos de acordo com as circunstâncias da vida.

S. Martinho do Porto é um sítio onde o mar me cabe todo no olhar com a promessa de que o Mundo fica do outro lado das dunas.

A areia fina, dura quando molhada, permite-me óptimos passeios pela praia, na baixa-mar, que gosto de fazer de manhã bem cedo, quer debaixo de um sol a adivinhar-se quente, quer na luz difusa das manhãs encobertas.

Caminho até Salir, pela areia ou pelo passadiço das dunas. Quando há sol, a sombra apressada caminha à minha frente. Talvez por em Salir estar sempre mais quente, tem pressa de chegar e, quando retomo o caminho de regresso, teima em ficar para trás para, só passado o farol, já percorrido grande parte do percurso, caminhar ao meu lado até ao cais.

Tantos são já os passos caminhados de um mesmo percurso que as palavras são escassas para as nuances dos estados de alma com que aconteceram.

Naquele dia de Junho, a tarde adivinhava-se chuvosa e foi prevenida com os habituais apetrechos para a chuva que cheguei a S. Martinho. Surpresa! A tarde estava linda!

Ultimado o assunto que ali me levara retomei ao carro disposta a regressar. A vontade era pouca! Porque não usufruir do espaço se era dona do tempo?

Em vez de virar à esquerda continuei em frente, na direcção de Salir. E, inopinadamente, ele, as tias, o tio, o primo e eu… quarenta e cinco anos atrás, num pequeno pinhal que a humanização da paisagem tornou ainda menor. Lembrar-se-á desse piquenique? O que mais vivamente tenho gravado na memória é a simpatia de uma das tias, o discurso da outra, a magreza do tio e a minha atrofiante timidez... o meu sentimento de menoridade perante a facilidade com que ele expunha, decidia, agia. Recordo ainda o banho que os três tomámos no rio, naquela manhã de maré cheia. E foi com o sorriso de beatitude, que a lembrança me colocou nos lábios que continuei o passeio até perto da água. Não estávamos lá, a maré estava a descer...

No regresso, não resisti à tentação de parar o carro na rotunda à saída de Salir, e passear a pé pelo passadiço que serpenteia sobre as pequenas dunas. A paisagem fervilhava de vida, graças à chuva da manhã. Das dunas, numa mistura de verdes com flores amarelas e cor-de-rosa, emanava um cheiro a quente fecundo. Ouvia-se o canto de um ou outro pássaro e um cão ladrou lá para o lado de Salir. As ondas pequeninas, pequeninas, desfaziam-se na areia bem devagarinho, quase em silêncio, não fossem quebrar o encanto e a baía era um imenso espelho emoldurado pelos cambiantes de castanho e verde a que algumas nuvens, aqui e ali, davam um tom mais escuro. O casario branco, que a distância apequenava, resultava ainda mais branco naquela luz de meia tarde.

A fina brisa que acariciava os meus braços nus trouxe-me à memória um poema que escrevera na adolescência: "Quero amar! / Quero possuir! / Quero dar! / Quero perscrutar ao pôr-do-sol o teu olhar/ e ver-me nele como o reflexo do sol sobre o mar/..."

Na beatitude da paisagem, com o pensamento mergulhado no tempo, o sol presenteou-me com o reflexo e estivemos lá. Mesmo sabendo que nunca houve aquele olhar vim para casa com a alma lavada.

Como duas horas de lembranças me deixaram feliz!

domingo, 5 de setembro de 2010

O MUSEU ESCOLAR DE MARRAZES

Texto publicado em Jornal de Leiria - 19-08-2010


Fui hoje ao Museu Escolar de Marrazes, não para visitar o acervo, mas por imperativos da minha actividade na Junta de Freguesia.

Franqueei a porta e avancei disposta “ao que ia”, sem delongas. De passagem, uma menina-de-cinco-olhos pousada em cima de uma mesa prendeu-me o olhar e fez-me sorrir. Absolutamente desprevenida tinha acabado de esbarrar na memória.

Vivi oito meses no Minho, tendo concluído a primeira classe na escola de Quintiães. A professora, Helena de seu nome, possuía um instrumento semelhante àquela menina-de-cinco-olhos, com que desancava quase só o irmão, seu aluno da quarta classe, cujo defeito, único por sinal, era ser irmão da professora, o que tinha inerente a obrigação de ser o melhor aluno e o mais bem comportado.

A escola era um edifício de primeiro andar, no rés-do-chão do qual havia um estábulo, possivelmente para que o calor dos animais aquecesse a sala de aula situada em cima. Na verdade nunca ali vi as vacas; fui para o Minho em Março e talvez à hora da escola as vacas estivessem no pasto, mas espreitei o estábulo através do alçapão que se situava por baixo da secretária da professora e mesmo por cima de uma lareira que havia no andar de baixo. Daí, já nem lembro como, vi-me integrada no grupo que teve a brilhante ideia de atirar a menina-de-cinco-olhos para a lareira na esperança de que ardesse. Mas não ardeu! Para nossa decepção, apareceu de novo na secretária da professora. “A menina-de-cinco-olhos caiu na lareira do Sr. Manuel” comentou a D. Helena. Silêncio absoluto na sala de aula. Ninguém se atrevia a levantar os olhos dos cadernos, receava-se o que viria a seguir. Nada! A professora deixou esquecer o assunto, certa de que o silêncio, nomeadamente aquele a que não faltariam as palavras, reconheço hoje, é muitas vezes mais eficaz do que tudo o que poderia ser dito.

Porque vos conto isto? Porque hoje, por uns momentos, mesmo conhecendo bem aquele espaço esqueci ao que ia, esqueci a pressa e fui de novo criança graças ao poder de um espaço, o MUSEU ESCOLAR DE MARRAZES, menina-dos-olhos da Freguesia e um legítimo motivo de orgulho para todos nós leirienses que, tendo-o aqui tão perto, poderemos desfrutá-lo a nosso belo prazer.

Poderemos, como aquele emigrante que o visitava na companhia dos amigos, procurar a terra natal no mapa, poderemos fazer a pesquisa que antecede um estudo científico específico ou poderemos, como aconteceu comigo, deixarmo-nos arrastar e mergulhar no tempo, para ser de novo meninos de escola.

Não quero falar-vos da exiguidade deste espaço face ao espólio que possui, nem da necessidade de um outro, que sonhamos polivalente e que há-de chamar-se “O Centro Cultural de Marrazes”.

Mas, porque a educação é o repositório das experiências mais marcantes do homem; porque (parafraseando António Lobo) possuímos uma memória colectiva que através do tempo vamos construindo, sujeitos intencionalmente a solicitações “de pura validade ou dignidade”; porque somos uma sociedade com história, quero desafiar-vos:

. Visitem o Museu Escolar de Marrazes e reconheçam a sua dignidade, inscrevendo-se na Liga de Amigos.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

OS SAPATOS AZUIS

Quando era adolescente, às voltas com incríveis dúvidas existenciais próprias da idade, e lendo Sartre (o primeiro livro escolhido foi O Muro - já se pode ver que presidia à escolha o critério de ler tudo o que apanhasse), atacada de pseudo intelectualidade e “sabedoria”, suspirava por mais uns centímetros de altura.

Uns míseros dez centímetros, acrescentados ao meu metro e sessenta e cinco, teriam feito então a minha felicidade. “Gostava tanto de ser alta e magra como as inglesas…” lamuriava-me vezes sem conta, ao longo do dia.

Não sei o que me terá convencido da elegância britânica, pois o reconhecimento público da Princesa Diana como ícone do bom gosto e elegância só viria a acontecer muitos, mesmo muitos anos mais tarde, mas eu ia tecendo os dias numa mistura de Sartre e suspiros sem vislumbrar uma solução para aquele terrível problema da falta de altura.

O meu pai que possuía um humor cáustico absolutamente exasperante, qualidade ou defeito, nem sei bem, que transmitiu aos descendentes, entre os quais me incluo, não perdia a oportunidade de contrapor, para meu desespero e irritação, “pois é minha filha, tu saíste uma inglesa curta”.


Este Agosto aconteceu…

Entrei e passeei os olhos naquela calma de que só as mulheres são capazes quando querem avaliar tudo com um só olhar. Num canto, entre tantos outros ele destacou-se e “sorriu”. Desdenhosa voltei as costas, fazendo-me desinteressada, mas aquela “piscadela de olho” inflamara-me o coração. Voltei três vezes, estar na praia sem nada que fazer tem destas vicissitudes e, finalmente, pedi o par e rendi-me.

Os lindos sapatos de camurça azul petróleo da prateleira do meio, daquela estante da ponta esquerda da Sapataria Nova 3 são meus.

Com eles nos pés eu fico alta e apessoada como a mais elegante inglesa, daquelas que estariam de férias no estrangeiro e que por isso as não encontrei quando em Junho estive em Londres.

Resolvi finalmente o meu problema de altura. Numa etapa da vida em que já me sentia a encolher fiquei alta, bem mais alta do que alguma vez sonhei.

Agora que resolvi o problema da altura, alguém me saberá dizer como se anda com estes sapatos?!

Resolve-se um problema e surge logo outro! Esta vida é mesmo ingrata!

Não querem lá ver que em vez de sapatos para passear comprei umas pantufas para dormir?!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A OVELHA COR-DE-ROSA

S. Martinho do Porto, 25 de Agosto de 2010

De uma cortina de banheira adquirida numa loja chinesa, para ser utilizada com fim diferente daquele para que fora concebida, sobraram as doze argolas com que o André brincava.

“Sabes o que é isto avó?” Ele abre o “a” tornando a palavra tão sonora que eu ao ouvi-la sinto na alma o som vibrante de um campanário em paisagem idílica. Nesse breve instante sou a única avó do mundo na ternura deste neto igualmente único. A modéstia aliada ao bom senso faz-me acrescentar ao “mundo” os arredores e reconhecer que tudo se situa sobretudo aí, nos arredores, na latitude exacta do meu mundo de afectos. Todas as avós são assim e se alguma me ler saberá que falo verdade. O mundo de uma avó cabe inteirinho no olhar do neto.

Olhei para as suas mãos que seguravam as argolas da cortina entrelaçadas e respondi “uma corrente” “e sabes o que tenho aqui na corrente?” A alegria de ter acertado na resposta à primeira questão esvaiu-se. Acabado de acordar, ele vestia ainda o pijama cuja camisola simbolizava um enorme cão com a língua de fora. “Na ponta da corrente está este cão preso” retorqui puxando a língua vermelha pendurada na camisola do pijama e fazendo-lhe cócegas na barriga. “Não avó, na ponta está uma ovelha”. “Uma ovelha?”. Admirei-me. “Tu tens uma ovelha?” “Tenho uma ovelha cor-de-rosa”.

Sem achar graça ao devaneio, a mãe questionou-se de onde viria a ideia da cor porque a da ovelha teria sido importada da visita a uma quinta pedagógica, lá para os lados da capital, realizada poucos dias antes.

“Ora, se a avó tem um cavalo verde cavalgando mundo fora, porque é que o neto não poderá ter uma ovelha cor-de-rosa e de preferência presa nas argolas de uma cortina de casa de banho?!”

Naquela manhã a minha filha mais velha não estava para devaneios e a conversa morreu. O facto não impediu o André de continuar a brincar com a ovelha cor-de-rosa e o meu cavalo verde de continuar a cavalgar ”sabe Deus por onde”.

Hoje, no passeio matinal que a baixa-mar vem tornando possível, num canto da memória, vislumbrei a ovelha cor-de-rosa “olha a ovelha do André?!” exclamei à laia de cumprimento. Não, aquela passeava-se por um prado azul, perto de um moinho de velas coloridas…

Quando era criança, teria cinco anos, quase seis, adoeci com sarampo e logo de seguida com escarlatina o que fez com que estivesse doente muito tempo, obrigatoriamente enfiada na cama devido à febre muito alta.

Recordo desse tempo os horrores das zaragatoas que o enfermeiro me ia fazer ao fim da tarde, os protestos sem qualquer resultado com que o recebia e mais do que tudo, a forma como o meu irmão conseguia fazer-me esquecer a doença.

Entre os brinquedos espalhados pela cama havia uma boneca de que já não vislumbro as feições e um fio de lã cor-de-rosa.

O meu irmão, doze anos mais velho, teria então dezassete anos e muita paciência à mistura com o amor que me dedicava. A minha mãe para seu alívio, na terrível tarefa de me entreter, ensinara-lhe a enfiar cinco malhas numa agulha e a tecer em ponto mousse, até ao fim, aquele fio de lã cor-de-rosa transformando-o numa tirinha de cerca de três centímetros que eu de imediato desfazia para ele voltar a tecer, sem beliscar a sua masculinidade.

Num qualquer dia, farto talvez de fazer malha, cortou um trapo e coseu na saia azul da boneca um lindo moinho de velas coloridas.

A morte do meu irmão é uma mágoa que transporto no peito há catorze anos e que ainda não consegui chorar de vez.

Aquele fiozinho de lã estava perdido num canto da minha memória. E o fio de lã cor-de-rosa só pode ser feito do pelo da ovelha igualmente cor-de-rosa que pasta junto ao moinho na saia azul da minha boneca.

Foi preciso o André ensinar-me que as ovelhas cor-de-rosas são gestos de amor-perfeito (porque desinteressado e incondicional) para eu reparar como tenho descuidado o meu rebanho!

A partir de hoje, não vou chorar mais o meu irmão. Com as lágrimas temperarei as azeitonas daquele enorme alguidar em que me fez cair. O amor do meu irmão foi um privilégio. É disso que quero alegrar-me.