quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

SER QUE NUNCA FUI

 Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava


Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gesto que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

Mia Couto, Raiz de Orvalho e Outros Poemas

4 comentários:

  1. O maior e mais profícuo neologista que conheço e muito admiro.
    O ser que vive a vida que nunca nasceu e está onde nunca esteve.

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  2. Eu acho que Mia Couto inventou um português "imperfeito" maravilhosamente poético que não só coabita pacificamente como enriquece a linguagem erudita que o novo acordo ortográfico se está a encarregar de destruir. Não é o caso deste poema. Aqui ele joga com as ideias. É muito interessante a forma como fala de conformismo e desassossego. Também o admiro muito.

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  3. Quando o sangue é feito de massa desta qualidade bem podemos dizer que a palavra lusófona tem em Mia Couto um delta ramificadíssimo no grande rio que é tudo quanto escreve em português com cheirinho à terra quente e vermelha que eu também vi em Moçambique... Sente-se aquela terra, a imensidão do espaço, o tempo que passa, o que já passou e o que veio depois ..

    Estou-me a ver a chorar... eu e o Zé Rocio, um avião a partir de Nampula, daquela imensa planura, o desassossego instalou-se dentro de mim, dias a ver o impossível...
    O tempo que não passava!...
    E as cruzinhas no calendário já fora do tempo!...

    Belo poema!

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    1. Bonito texto, o que escreveu como comentário. Bem haja pelo seu testemunho comovido!

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