domingo, 10 de dezembro de 2017

VICISSITUDES DE ME CHAMAR ISABEL SOARES


Para que serve o nome? Consagrado como um Direito Fundamental do individuo, o nome civil, assim se chama, identifica-nos desde o nascimento até para além da morte. É eterno. Citam-no enquanto nos lembrarem, depois fica esquecido, mas não deixa de ser nosso, mesmo depois de sermos pó e nada.

Já muitas vezes contei que herdei o meu de minha avó materna, tendo os meus pais, como única originalidade, intercalado Maria, o que fez de mim mais uma entre tantas e, no fim, acrescentado Soares para que constasse que eu era filha daquele homem e não de qualquer outro e pertencia a determinada família. Pena foi não ter herdado também todas as qualidades da avó, senhora doce, calma e sofrida sem queixume, até na morte. Se alguma coisa herdei dela foi a paciência que misturada com o otimismo e a raiva pelo incontrolável herdados de meu pai, fizeram de mim mais teimosa que o burro que o meu pai nunca teve. Dizia ele…

Que não se pense que o meu pai era uma pessoa violenta. Nada disso! A maior violência de que me lembro foi a de, num momento aziago, ter acertado com um tabefe, que me era destinado, na bochecha do meu amigo C-----tinho. Eu, ainda hoje estou profundamente agradecida ao C-----tinho por me ter feito esse favor, que a mão de meu pai era pesada… e embora eu classificasse o momento de aziago, na verdade, ao C-----tinho não fez mal nenhum levar a dita bofetada. Ele continua de perfeita saúde e, convenhamos, foi uma experiência nova, dado que em casa, só a mãe lhe acariciava o traseiro com o chinelo, enquanto o pai se entretinha a gerir o negócio. O pior foi mesmo a senhora sua mãe. A ela é que doeu… as mães têm destas aflições pelas bochechas dos filhos e não só… e eu estava a ver que por causa do tabefe mal entregue ainda se zangava toda a gente. Estava, com tal receio de não poder continuar a patinar por mais tempo no corredor encerado da casa do C-----tinho, com os chinelos de trapo que a mãe nos obrigava a calçar quando deixávamos os sapatos à porta, que até quis que ele me devolvesse o controverso tabefe. Tudo se resolveu em bem. As desculpas foram aceites e eu e o C-----tinho continuámos por muitos anos, mesmo até quando a idade dizia que já não o deveríamos fazer, a patinar no corredor, no espaço entre a passadeira e a parede, eu de um lado e ele do outro, levando à frente o bengaleiro e poupando o esforço à empregada doméstica de puxar o lustro ao chão.

Permito-me acrescentar que a mãe do C-----tinho me adorava, vendo em mim a filha que não tivera e eu retribuía essa estima. Recordo-a muitas vezes, tal como a todas as amigas de minha mãe, que nunca me regatearam afeto (há gostos para tudo...) e confesso que chego a gargalhar com a memória das coisas desses tempos em que fui tão feliz e nem sabia.

Voltando ao meu nome…

Eu já sabia, mas a Net confirmou que havia mais mulheres com  o nome de Isabel Soares. Descobri-o quando um dia recebo um email da Z---- queixando-se que estava com graves problemas com o patrão. E eu não percebia nada daquele desabafo apelando à lei, em que Z---- se dizia com problemas. Mas qual patrão? Eu conhecia muito bem a Z----. Ela era funcionária pública… depois abri os anexos e percebi. A Z----era outra e a Isabel Soares também. Apressei-me a devolver o email, pedindo desculpa por ter aberto os anexos e explicando que eu era outra e não aquela que se pretendia, sugerindo à tal Z---- que verificasse o endereço eletrónico com cuidado. De então para cá, nem queiram saber a correspondência que fui recebendo destinada a essa Isabel Soares, advogada lá por terras do norte do país.

Mais tarde apareceram uns mails diferentes, eram destinados a uma professora, também do Norte (para aquelas bandas deve haver muita mulher chamada Isabel Soares). Descobri isso ao abrir o anexo do primeiro email desta nova série. Deparei-me com uma planificação e… não resisti. Explicando que era especializada em Supervisão Educativa, pedi desculpa e confessando esperar ser útil, emendei o documento. Depois, tomei a mesma atitude, devolvê-lo e aos seguintes, à pessoa que os remetia explicando sempre que havia mais Marias na terra.

Pois hoje voltou a acontecer. Um senhor, AA de seu nome, enviou-me um mail, com duas fotos que diz serem suas e uma melodia “para me deliciar”, “não com as fotos” acrescentou, mas com a melodia, referindo a nossa amizade recente. Como não conheço ninguém chamado AA, embora o nome até seja bonito e o senhor apessoado, lá me vi na obrigação de explicar ao sr. AA que eu não seria a tal a quem pretendia deliciar, embora me tivesse abusivamente deleitado com a melodia à outra destinada.

“Isabel Soares?” – até aquele senhor se admirou (mais tarde seria Presidente da República). “Sim, contudo, o meu pai não se chama Mário, mas Luís”. “Pois não! Quando chegar a Lisboa vou contar a minha filha que encontrei, em Leiria, uma Isabel Soares como ela.”

Chamar-me Pancrácia ou qualquer outra coisa fora do comum não me obrigaria a devolver mail atrás de mail, mas ter-me-ia privado da oportunidade de conhecer o sr. Januário eletricista que tem um cão, grande, e é casado com uma linda jovem (mandou-me a foto de família não fosse eu pensar que estaria a ser vítima de uma abordagem duvidosa), nem tinha a melodia do sr. AA para me deleitar enquanto estou aqui, fechadinha em casa, à espera que a Sra. D. “Ana” Tempestade (suaviza o efeito darem nomes às tormentas) vá pregar para outra freguesia.  



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