RECORDAÇÕES
Naquela manhã de setembro, viajando no navio Funchal a
caminho da Ilha da Madeira, fui à proa do navio. Questionava-me sobre o que
sentiriam os marinheiros portugueses nos tempos das descobertas.
O varandim da proa antecedia a cabine do piloto e ali, no
local mais avançado, era eu e a imensidão do mar, na grandiosidade do céu.
“Evidentemente!”
Eu, de pé, no centro daquele universo esmagador que a manhã
luminosa revelava para mim, navegando, porque sabia que o navio se movia, numa
vasta extensão de água, apontando a linha do horizonte que, a cada metro
percorrido, continuava equidistante. “Evidentemente!” Num tempo sem idade,
Tales de Mileto (624 a. C. – 546 a. C.) e Ptolomeu (70 ou 90 – 168) seguiam
comigo de mãos dadas, nessa manhã de setembro. “Evidentemente!”
E eu ali, ser insignificante mergulhado em infinito,
prisioneira do “evidente” que “mente” aos órgãos dos sentidos, justificando o
geocentrismo de Ptolomeu, sabia-me liberta pela “mente”, porque mente não é só
uma forma verbal, é também substantivo. E amparada pela mente esclarecida de
séculos de interrogações, estudo, ciência e pensamento filosófico, dei graças
pela sabedoria alcançada com o experimentalismo de milhões de anónimos e com a
persistente e corajosa clarividência de outros, cujo nome, como o de Galileu
Galilei (1564, Pisa – 1642) ecoarão no tempo, até à eternidade, enquanto, espantada, vivia uma epifania.