sexta-feira, 3 de setembro de 2010

OS SAPATOS AZUIS

Quando era adolescente, às voltas com incríveis dúvidas existenciais próprias da idade, e lendo Sartre (o primeiro livro escolhido foi O Muro - já se pode ver que presidia à escolha o critério de ler tudo o que apanhasse), atacada de pseudo intelectualidade e “sabedoria”, suspirava por mais uns centímetros de altura.

Uns míseros dez centímetros, acrescentados ao meu metro e sessenta e cinco, teriam feito então a minha felicidade. “Gostava tanto de ser alta e magra como as inglesas…” lamuriava-me vezes sem conta, ao longo do dia.

Não sei o que me terá convencido da elegância britânica, pois o reconhecimento público da Princesa Diana como ícone do bom gosto e elegância só viria a acontecer muitos, mesmo muitos anos mais tarde, mas eu ia tecendo os dias numa mistura de Sartre e suspiros sem vislumbrar uma solução para aquele terrível problema da falta de altura.

O meu pai que possuía um humor cáustico absolutamente exasperante, qualidade ou defeito, nem sei bem, que transmitiu aos descendentes, entre os quais me incluo, não perdia a oportunidade de contrapor, para meu desespero e irritação, “pois é minha filha, tu saíste uma inglesa curta”.


Este Agosto aconteceu…

Entrei e passeei os olhos naquela calma de que só as mulheres são capazes quando querem avaliar tudo com um só olhar. Num canto, entre tantos outros ele destacou-se e “sorriu”. Desdenhosa voltei as costas, fazendo-me desinteressada, mas aquela “piscadela de olho” inflamara-me o coração. Voltei três vezes, estar na praia sem nada que fazer tem destas vicissitudes e, finalmente, pedi o par e rendi-me.

Os lindos sapatos de camurça azul petróleo da prateleira do meio, daquela estante da ponta esquerda da Sapataria Nova 3 são meus.

Com eles nos pés eu fico alta e apessoada como a mais elegante inglesa, daquelas que estariam de férias no estrangeiro e que por isso as não encontrei quando em Junho estive em Londres.

Resolvi finalmente o meu problema de altura. Numa etapa da vida em que já me sentia a encolher fiquei alta, bem mais alta do que alguma vez sonhei.

Agora que resolvi o problema da altura, alguém me saberá dizer como se anda com estes sapatos?!

Resolve-se um problema e surge logo outro! Esta vida é mesmo ingrata!

Não querem lá ver que em vez de sapatos para passear comprei umas pantufas para dormir?!

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