quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A OVELHA COR-DE-ROSA

S. Martinho do Porto, 25 de Agosto de 2010

De uma cortina de banheira adquirida numa loja chinesa, para ser utilizada com fim diferente daquele para que fora concebida, sobraram as doze argolas com que o André brincava.

“Sabes o que é isto avó?” Ele abre o “a” tornando a palavra tão sonora que eu ao ouvi-la sinto na alma o som vibrante de um campanário em paisagem idílica. Nesse breve instante sou a única avó do mundo na ternura deste neto igualmente único. A modéstia aliada ao bom senso faz-me acrescentar ao “mundo” os arredores e reconhecer que tudo se situa sobretudo aí, nos arredores, na latitude exacta do meu mundo de afectos. Todas as avós são assim e se alguma me ler saberá que falo verdade. O mundo de uma avó cabe inteirinho no olhar do neto.

Olhei para as suas mãos que seguravam as argolas da cortina entrelaçadas e respondi “uma corrente” “e sabes o que tenho aqui na corrente?” A alegria de ter acertado na resposta à primeira questão esvaiu-se. Acabado de acordar, ele vestia ainda o pijama cuja camisola simbolizava um enorme cão com a língua de fora. “Na ponta da corrente está este cão preso” retorqui puxando a língua vermelha pendurada na camisola do pijama e fazendo-lhe cócegas na barriga. “Não avó, na ponta está uma ovelha”. “Uma ovelha?”. Admirei-me. “Tu tens uma ovelha?” “Tenho uma ovelha cor-de-rosa”.

Sem achar graça ao devaneio, a mãe questionou-se de onde viria a ideia da cor porque a da ovelha teria sido importada da visita a uma quinta pedagógica, lá para os lados da capital, realizada poucos dias antes.

“Ora, se a avó tem um cavalo verde cavalgando mundo fora, porque é que o neto não poderá ter uma ovelha cor-de-rosa e de preferência presa nas argolas de uma cortina de casa de banho?!”

Naquela manhã a minha filha mais velha não estava para devaneios e a conversa morreu. O facto não impediu o André de continuar a brincar com a ovelha cor-de-rosa e o meu cavalo verde de continuar a cavalgar ”sabe Deus por onde”.

Hoje, no passeio matinal que a baixa-mar vem tornando possível, num canto da memória, vislumbrei a ovelha cor-de-rosa “olha a ovelha do André?!” exclamei à laia de cumprimento. Não, aquela passeava-se por um prado azul, perto de um moinho de velas coloridas…

Quando era criança, teria cinco anos, quase seis, adoeci com sarampo e logo de seguida com escarlatina o que fez com que estivesse doente muito tempo, obrigatoriamente enfiada na cama devido à febre muito alta.

Recordo desse tempo os horrores das zaragatoas que o enfermeiro me ia fazer ao fim da tarde, os protestos sem qualquer resultado com que o recebia e mais do que tudo, a forma como o meu irmão conseguia fazer-me esquecer a doença.

Entre os brinquedos espalhados pela cama havia uma boneca de que já não vislumbro as feições e um fio de lã cor-de-rosa.

O meu irmão, doze anos mais velho, teria então dezassete anos e muita paciência à mistura com o amor que me dedicava. A minha mãe para seu alívio, na terrível tarefa de me entreter, ensinara-lhe a enfiar cinco malhas numa agulha e a tecer em ponto mousse, até ao fim, aquele fio de lã cor-de-rosa transformando-o numa tirinha de cerca de três centímetros que eu de imediato desfazia para ele voltar a tecer, sem beliscar a sua masculinidade.

Num qualquer dia, farto talvez de fazer malha, cortou um trapo e coseu na saia azul da boneca um lindo moinho de velas coloridas.

A morte do meu irmão é uma mágoa que transporto no peito há catorze anos e que ainda não consegui chorar de vez.

Aquele fiozinho de lã estava perdido num canto da minha memória. E o fio de lã cor-de-rosa só pode ser feito do pelo da ovelha igualmente cor-de-rosa que pasta junto ao moinho na saia azul da minha boneca.

Foi preciso o André ensinar-me que as ovelhas cor-de-rosas são gestos de amor-perfeito (porque desinteressado e incondicional) para eu reparar como tenho descuidado o meu rebanho!

A partir de hoje, não vou chorar mais o meu irmão. Com as lágrimas temperarei as azeitonas daquele enorme alguidar em que me fez cair. O amor do meu irmão foi um privilégio. É disso que quero alegrar-me.

2 comentários:

  1. Meu deus! Porque é que as avós são tão "galinhas" - cor-de-rosa, naturalmente, como a ovelha do André? Ainda bem que há "Andrés" e outros quejandos que nos fazem esquecer aqueles que já foram e por quem não chegámos a chorar o suficiente...
    Beijinhos, ó avó do André!

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  2. Obrigada, ó avó da Elisinha (imperdoavelmente esqueci o nome do outro "bichaninho")

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