sábado, 6 de novembro de 2010

MOLESKINE

Ontem, comprei o meu Moleskine para 2011.
Tenho a mania dos cadernos de capa preta. O preto resulta da ausência de cor e eu acredito que assim vou colorindo os dias a meu belo prazer. Anos atrás costumava mesmo usar dossiers de arquivo negros, em que fazia colagens de frases, gravuras e recortes vários de jornais e revistas. Depois cobria tudo com papel autocolante transparente e, modéstia à parte, o produto final era muito interessante.
Mas ontem eu ia com a ideia fixa “o Moleskine tinha de ser diferente”, receava era que a Arquivo me traísse. Entrei e, atrás do balcão estava uma menina estilo bolinho de coco, daqueles com muitas gemas, que não vão ao forno e levam muito açúcar, disse ao que ia e antes da pequena ter tempo de abrir a boca dirigi-me ao expositor e servi-me “é mesmo isto que quero”. Entretanto ela já estava atrás de mim, possivelmente receosa de que com tanta genica eu fugisse com a livraria às costas, “também temos outros, depende do tamanho que deseja”, disse-me ela, “é mesmo isto que quero, cor, tamanho e modelo”. Ela condescendeu e premiou-me com o seu sorriso mais simpático, digo eu que nunca lhe vi outro, e desandou para trás do balcão, para que ultimassemos o contrato de compra e venda.
E assim me tornei proprietária de um lindo Moleskin de capa vermelha, em que os dias não estão divididos por horas, mas onde não me faltam folhas para escrever. Que me importam as horas! Desde que me reformei que os relógios cá em casa não atinam, mais cinco ou dez minutos, tanto faz, mas este ano, com a entrada na Junta de Freguesia o stress voltou a apoderar-se do meu dia-a-dia. Isso vai mudar. Não volto a correr à frente das horas! Contudo, 2011 ainda não pode chegar, primeiro porque estão por cumprir muitos dias de 2010, e depois porque ainda não personalizei o meu novo Moleskine, ainda não fiz o meu 2011.
O meu Moleskine de 2010 abre com Pessoa (Ricardo Reis, Odes)”Cada dia sem gozo não foi teu/Foi só durares nele. …Feliz a quem, por ter em coisa mínimas /Seu prazer posto, nenhum dia nega/ A natural ventura!”
Para o Moleskine de 2011 balanço entre Saramago “É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já…… é preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e parar traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre” e Manuel Alegre “O que é preciso é poesia dia a dia”.
E para o dia dos meus anos o que vou escolher? Não conheço nada que quadre tão bem comigo como Pessoa, Tabacaria “Não sou nada/Nunca serei nada/Não posso querer ser nada./ À parte isso, /Tenho em mim/todos os sonhos do mundo”. Foi o que escolhi para Março passado. Depois, pelo que de bom me foi acontecendo ao longo do dia, passado sobretudo a brincar com o André por conta da varicela, não resisti a acrescentar “Qui vit sans folie n’est pas si sage qu’on croit (La Roche Foucauld), (Quem vive sem loucura não é assim tão sábio como se julga).
Bom tenho de parar para pensar, ir até S. Martinho do Porto, sentar-me no “Pato Bravo” ou na esplanada do “Bohemia”, conforme o tempo, mergulhar numa chávena de chá, e dar duas braçadas porque continuo a “andar espantada de existir”.

6 comentários:

  1. Ainda bem que aqui vim para ficar a saber o que é um "Moleskine"... Oh balha-me deus! o que eles inventam! E eu aqui, tão sossegadinha, na Estação de Leiria (que é um sítio onde eu moro sem gostar nada e que fica atrás-do.sol-posto, como costumo dizer), sem saber o que é um Moleskine... Pronto, já sei e fico contente. Sabe-se lá se não irei oferecer Moleskines ao pessoal agora pelo Natal!
    Vou lá e peço à tal menina-estilo-bolinho-de-coco
    com muitas gemas.... Grrrr! Não gosto nada de gemas...
    És tão má! Coitadinha da menina que até é bem simpática! És tão má! Eu, não! Sou boazinha, mas não gosto de gemas de ovos mal cozidas...
    Fico por aqui, senão, nunca mais me calo...
    Beijinhos!

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  2. Ora, mas não deverias calar-te. Eu adoro os teus comentários de menina boazinha, claro!
    Vê tu que acreditando eu no Pai Natal nem me lembrei de lhe pedir um "MolesKine". Se soubesse antes daquela produção de azeitonas tinha-te escrito a carta da Natal a ti...
    Já começaste a exportar azeite?
    Beijinhos avó babada

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  3. (Peço desculpa pela intromissão)

    Quem escreve assim tão bem, com Moleskine ou sem ele, não devia parar.

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  4. Amigo Rui,
    Posso tratá-lo assim? Eu não parei de escrever. Tenho andado numa "roda viva" e como preciso de algumas horas para dormir, alguma coisa vai ficando para trás. Nem queira saber o que foi abrir hoje o e-mail pessoal...
    Muito obrigada pela intromissão, que não foi intromissão nenhuma. O seu comentário deixa implícito que gosta do que escrevo e isso é uma gentileza que eu agradeço do fundo do coração.
    Continuo à espera dos seus comentários ao que escrevo e uma vez mais obrigada pelo incentivo.

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  5. Cara Isabel:
    Imagino-a a escrever no seu "Moleskine" no dia do seu aniversário a frase que não é minha e que adaptei:
    " O Sol está para as flores como o meu sorriso pode estar para os meus amigos"
    Será que nasceu na Primavera ou próximo dela?

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  6. Meu caro "euchavi":
    A sua gentileza é imensurável e não há palavras para lhe agradecer. Só com um solo de violino alusivo à Primavera conseguiria retribuir tanta simpatia. Infelizmente não sei tocar.
    De qualquer modo acho que exagera e embora tenha escrito no dia do meu aniversário a frase de Pablo Picasso "Leva muitos anos a tornarmo-nos jovens" atendendo à sua sugestão prometo que não me vou esquecer de sorrir sempre.
    Bem-haja!

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