sábado, 20 de agosto de 2011

O DOCE E A BOLACHINHA

Primeiro vieram as filhas. Duas bonecas ruivas, que fizeram de mim uma mãe ditosa.

Acontece o mesmo a todas as mães: sentem-se únicas. Acham que só elas têm filhos, as mais bonitas crianças do “mundo e arredores”. Do mundo dos afectos de cada uma de nós e sobretudo dos arredores de todos os mundos passados, presentes e futuros, versos únicos de um mesmo poema: tempo, a que vulgarmente chamamos vida. A nossa vida!

Nada mais é igual. A multiplicidade do Eu, que os filósofos apregoam, ganha uma dimensão inusitada. Começa a tecer-se uma teia de afectos, como intrincado ponto de tricote: aqui ponto de meia, ali ponto de liga, aumenta uma, passa outra, dá uma laça, torce duas e por aí fora fazendo crescer em humanidade e cidadania, corrigindo equívocos, voltando atrás para poder continuar seguramente em frente.

Ah! Mas depois, sim, depois de termos transformado a fragilidade que aconchegávamos nos braços embrulhadinha em mantas coloridas, num cidadão ou cidadã de plenos direitos, temos a melhor das recompensas: os netos.

Há cinco anos nasceu o André. Um sorriso lindo e quente que me enche a alma de ternura e pronuncia a palavra avó abrindo o “a”, num jeito especial que soa como música aos meus ouvidos.

“Quem é o doce da avó Belita?” “o Andé” foi a resposta que antecedeu o uso dos pronomes. “Mamã, ao pé desse rapaz, pareces tolinha” reclamou um dia a filha a quem não estava a ser dada a atenção devida. “Não pareço, sou. Apresenta a reclamação à tua mãe. Aqui só está a avó do André. O balcão das reclamações abre no horário da sesta do petiz.”

Um dia o André reclamou: “Não quero mais beijinhos, nem abracinhos. Ó tia!” E veio a tia qual D. Quixote afrontando os moinhos de vento: “Cansas a criança. Deixa-o.” E logo o André “Avó, brincas comigo às lutas?”. O afecto também passa por encarnarmos o papel do monstro mau com três vidas que é vencido pelo forte que tem cinco. A nossa cultura no âmbito da Banda Desenhada, cromos e afins é que às vezes nos deixaria ficar mal vistos, não fora a benevolência daqueles com quem brincamos…

Ao fim de cinco anos de “Doce”, veio finalmente a “Bolachinha”.

Contrariando a tradição familiar que faz com que os recém-nascidos se apresentem ao mundo com uma farta cabeleira (que nunca chega a cair, como acontece com a maioria dos bebés) e obriga a que entre os sete e os nove meses de idade se tenha de recorrer ao serviço de alguma especialista da tesoura para que corte decentemente tanto cabelo, “a Bolachinha da avó Belita”, cidadã do mundo, a que foi dado o nome de Rita, nasceu careca. O pai garante que vai ser loira, mas, aqui para nós, a tal avó Belita, mal a viu desfez-se perante os encantos de mais uma ruiva.

“E os dedos?” - perguntam todos – “A quem sairá ela com uns dedos tão compridos?” e a avó Belita quando levanta os olhos do PC, pousa-os na imagem do bisavô Joaquim “Quelimanas”, o tal “marinheiro dos sete mares andarilho” cujo retrato, enlaçando ao colo a neta Isabel, lhe sorri da parede do escritório e retribuindo ternamente o sorriso, mentalmente pergunta: “A quem será?”


“E cravam-se no Tempo como farpas

As mãos que vês nas coisa transformadas.

Folhas que vão no vento: verdes harpas.”

O Canto e as Armas, Manuel Alegre, 1967

17 comentários:

  1. Parabéns aos familiares da "Bolachinha"(em especial à avó Belita) e tudo de bom para o novo membro da família, são os votos que formulo aqui de Dubrovnik.

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  2. "O melhor do mundo são as crianças!".........
    E o pior?
    O tempo. Aquele a que muitos chamam de relativo.

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  3. Virtualmente,passeio à noite. Hoje, ultrapassei
    a linha do horizonte e fiquei enternecida com
    tamanha ternura.Ainda não tenho "doce", nem "bolachinha", mesmo sendo mãe ditosa de um belo
    mancebo. Mas, mais dias, menos dias, virão os
    netos, ansiosamente aguardados...
    Cliquei seu retrato, em uma "casa" amiga, Belita.
    Permita-me, seguí-la...
    Um abraço
    Lúcia'

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  4. Olá, Lúcia.
    Muito obrigada pela gentileza das suas palavras.
    É um prazer tê-la aqui como amiga.
    Seja bem-vinda.

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  5. Viva, Rui.
    Tão longe e tão perto! Espero que os banhos no Mar Adriático estejam mais quentinhos que em S. Martinho do Porto.
    Muito obrigada pelas suas palavras e... boas férias.

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  6. Meu caro amigo Olímpio:
    Há já algum tempo que não nos "alfinetamos". Tenho andado sem TEMPO... Contudo o meu amigo não perde tempo...
    Obrigada pelo comentário.
    Quanto ao tempo... É RELATIVO! (Cá fico à espera da sua contestação em prol do absoluto...)
    Só para lhe dar o mote: Acho que o tempo não existe. Foi uma preocupação (invenção) do Homem para de algum justificar a sua curta passagem pelo Mundo. Como diz o publicitário: Tempo é o que se faz com ele (tradução duvidosa da "língua de sua majestade")

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  7. O TEMPO É ABSOLUTO!(Teoria da Relatividade, como já disse, é outra coisa). Dizem que o tempo é relativo, por um certo efeito de cópia, por deslumbramento, do que postulou Einstein. Melhor seria chamarem-lhe tempo virtual (agora é moda)...
    O Tempo só existe para Deus... e..."à défaut" no pensamento do Homem.

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  8. Olá, Olímpio. Já tinha saudades dessa postura categórica com que costuma aparecer por aqui.

    Newton (séc.XVII) acreditava que o tempo era absoluto, tal como o meu caro amigo. Assim como uma espécie de tempo universal, proporcionando a todos as mesmas experiências em todos os lugares. Tudo igual, para todos na Terra ou em Marte.
    Depois Albert Einstein introduziu a Teoria da Relatividade (início do séc. XX) defendendo que tempo e espaço se interligavam formando aquilo a que se chama espaço-tempo. Todos passam a medir as suas experiências à velocidade luz (300 000 Km/s) que, sendo a mesma para todos, impossibilita que o tempo seguido de cada objecto em direcção ao observador seja igual. Disse ainda que espaço-tempo era distorcido pela matéria e pela energia e não era plano, mas curvo. Falou também da distorção temporal e do paradoxo dos gémeos, fenómenos que ajudam a comprovar a relatividade do tempo.

    Pelo meio, Kant (séc. XVIII) defensor da realidade do tempo, dizia que este era uma forma real de intuição interna, ou seja, era como que uma característica humana de receber informação através dos órgãos dos sentidos.
    Quanto a Mctaggart (séc. XIX) diz que o tempo é uma ilusão.

    Eu, continuo a achar que a percepção de tempo é relativa. Senão vejamos: Como lhe parece uma hora nos braços da sua amada? Curta, não?! E uma hora a realizar uma tarefa enfadonha da qual não se pode dispensar? Longa, Mesmo muito longa...

    Quanto a Deus, sendo omnipotente, para que precisaria de relógio?

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  9. Se Deus é omnipotente, não sei! Deus é uma coisa, religiões são outra...e religião, ainda outra...
    No princípio, não era o verbo, era o pensamento. O pensamento, a consciência de si,e a angústia.A angústia do próprio conhecimento, do vazio e do cheio,do zero e do infinito, do... Porquê? Tudo o resto, é nada!

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  10. Só há três palavras Mágicas:

    A primeira é Mãe.
    ...
    A terceira é... Porquê?

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  11. Olá, Olímpio.
    Eu acredito. Acredito em Deus. Não sei se será o Deus que a minha religião me ensinou a venerar, mas acredito numa Forma de Energia Superior, aglutinadora que me dá força.
    As teorias do átomo parecem-me fascinantes. A que se deve a coesão? Porquê assim e não de outro modo? Preciso de ler...
    Chamemos-lhe Mãe, Natureza, ou qualquer outro nome, para mim, Deus existe.
    Porquê? A tentativa de resposta à questão é o caminho mais directo para o conhecimento...
    Abraço.

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  12. Amigo Olímpio:
    Embora ainda sem saber quem assassinou o tio de Berequias (estou a ler "O Último Cabalista de Lisboa)e com muitos outros livros em lista de espera, a curiosidade levou-me de livraria em livraria na busca inglória do título que me recomendou. Nada, RIEN! Não sabem o que é, não existe. Diga-me, por favor, o autor e se puder a editora.
    Abraço.

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  13. Não é título de livro. São as quatro forças físicas fundamentais - é pura física teórica, mas muito interessante, a internet refere muita coisa, obras e generalidades - só é preciso ter cuidado com as referências, traduções, etc. por vezes escritas sem cuidado ou com incorrecções.

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  14. Ora, pois! Andei a fazer de tolinha por sua conta... O que vale é que o papel me assenta bem!

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  15. Peço desculpa!... Deixei-me levar pelo mistério das forças da Natureza... e não sugeri bem o assunto. No entanto, ele é empolgante, e muito desafiador em relação aos últimos recônditos do tempo, da matéria, da filosofia e... do Pensamento.

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