quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

DECIDIDAMENTE



Ela chegou no dia vinte quatro cerca das dezassete horas e trinta minutos. Bem-disposta nem se deu ao trabalho de abrir a porta. Tocou e esperou que lha abrisse. Voltei em corrida para o tacho do arroz doce que continuava ao lume e precisava de ser mexido constantemente para não pegar.

“Ouvi dizer que hoje, há aqui um jantar muito bom.” Olhei-a sem entender, tinha acabado de me cumprimentar e claro que o jantar seria bom, para além de ser véspera de Natal, dizem que herdei o jeito para a cozinha de minha avó Isabel, o que equivale a veladamente dizerem que cozinho bem, se não tão bem como ela, pelo menos fazendo-a lembrar, o que é muito bom.

“O menu é o que sugeriste” – respondi. “Nada disso: Telefonaram-me a informar de que havia um arranjo da Mata dos Marrazes, que tornará o jantar muito mais apetitoso”.

Ali estava ela, a mais nova, de conluio com a mais velha a rir-se de mim nas minhas bochechas. “Decididamente, estou velha!” – pensei- “Já me apanham assim, sem mais nem menos, na primeira curva da ironia, sem que me aperceba com antecedência, que caminhos trilham. Filhas!”

Ao início da tarde, a mais velha telefonara, no preciso instante em que eu chegava a casa, toda molhada, depois de uma incursão, debaixo de chuva torrencial, pela Mata dos Marrazes com a finalidade de apanhar uma pontas de pinheiro, uns ramos com bolinhas vermelhas e umas folhas de hera para fazer um arranjo de Natal. A isso acrescentara, depois, umas folhas de nespereira que apanhara ainda no quintal de uma casa que visitara, como Pai Natal.

“Já está na mesa” – informei – será que andaram a rir-se de mim nas minhas costas?” “Olha que ideia, lá éramos capazes disso. A hipótese de apanhares uma pneumonia ou de te cair um pinheiro em cima em troca desta obra de arte, foram riscos insignificantes. Leiria não esteve em alerta laranja?” Que sim, que estivera, lá confirmei. “Ah! Vou já mandar a foto à nana. Não quero que lhe caia mal o jantar da sogra, por lhe faltar esta visão magnífica.”

A filha a ralhar comigo! Onde é que já se viu? Trocaram-se os papeis? Estou velha! Decididamente velha... e o mais grave é que ainda nem tinha dado por isso.


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