segunda-feira, 2 de agosto de 2010

SERÁ A SOLIDÃO UM FADO?

Viveram oito meses no Minho e voltaram, indo morar para aquela “casa de rua” (como diria Erico Veríssimo), um primeiro andar situado perto do Largo da Estação, à entrada da Rua D. Carlos I, por cima da Fábrica da Pedra: “Mármores Sil” (seria assim que se chamava?).

Aquela casa, à borda da estrada, não tinha jardim, nem quintal, mas possuía umas divisões enormes. Espaço não faltava e até havia um quarto interior, sem janelas, situado entre o quarto dos pais e o do irmão, que a mãe convertera numa espécie de roupeiro onde guardava a roupa que, de uma estação do ano para a outra, não se vestia: o sobretudo do pai, a samarra do irmão, os casacos compridos e no verão, os cobertores fofos que os aqueciam no inverno.

Nesse quarto vivia um escuro amedrontado que se escondia mal a menina acendia a luz. Ela achou que o escuro era tão envergonhado como ela e muitas vezes, ia até ao quarto e ficava lá sem acender a luz, para não o assustar. Imaginava-se um caranguejo escondido na areia, só com os olhos de fora e brincavam os dois. Então, quem se assustava era a mãe, que nunca compreendeu muito bem aquela brincadeira. Desta prática ficou-lhe o hábito, que ainda hoje tem, de deambular de noite pela casa sem acender a luz.

Todos os meninos deveriam ter um quarto escuro como o dela para perceberem que o escuro não faz mal a ninguém. É até muito assustadiço. Foge da luz a sete pés e esconde-se debaixo da cama.

À bordinha da estrada, nos curtos momentos em que podia brincar na rua, jogava à pedrada com o Carlitos e ao berlinde com o Aniceto, para desespero da Maria, a lavadeira, mulher bem-disposta mas muito refilona, que só com muita esfrega e cloreto conseguia manter brancas as rendas dos saiotes e as bainhas dos vestidos, que varriam o chão nestas brincadeiras. A culpa era da mãe que lhe vestia aqueles vestidinhos franzidos com florinhas. Só a cor das flores é que variava, cor-de-rosa, amarelo, lilás, azul, sobretudo azul… num fundo invariavelmente branco. Ela ainda se lembra de um vestido cheio de florinhas bordadas à mão, em ponto cruz. Por cima dos vestidos, usava uns lindos bibes bordados a arte aplicada e até teve um com o Giroflé “cantado” a ponto pé de flor. Mas isto era lá coisa que se vestisse a quem gostava de mexer na terra?! Também fazia desenhos com o Clementinho, nas folhas de embrulhar os papo-secos que o pai dele vendia na padaria situava mesmo ao lado da casa onde morava.

A entrada do prédio era um patamar fechado que dava acesso ao escritório da fábrica, por uma porta sem préstimo que os funcionários não podiam utilizar, para conforto de quem morava em cima, pois o patamar dava também acesso ao primeiro andar do edifício, concebido para moradia dos donos da fábrica, mas arrendado por estes se terem fixado na cidade. Aqui ela brincava às casinhas com a Isabel, a Cecília e a Amália que só apareciam com a mãe, a senhora Adelina, quando esta vinha limpar a casa.

Mesmo com as idas à escola e tantos amigos, as férias eram longas. Ainda lhe sobravam muitas horas para brincar sozinha…

Por vezes ficava horas a fio, observando os trabalhadores da fábrica picando a pedra em pancadas ritmadas, tum… tum… tum. Tal e qual o pêndulo do relógio da avó! Todos, ao mesmo tempo, iam sulcando a pedra em riscos direitinhos, como pintores sentados em frente do cavalete. A mãe não deixava abrir a janela por causa do pó e ela olhava através da vidraça aquele trabalho que se repetia hora após hora, dia após dia.

Noutras alturas, descia e sentava-se no primeiro degrau ao fundo das escadas desse primeiro andar, fechada a porta da rua e junto da outra, de acesso à fábrica.

Uma caixa de sapatos, trapinhos de várias cores, agulhas, linhas, a mãe emprestava-lhe a tesoura e lá estava ela, sem sujar nada, confeccionando as roupas e cuidando com os desvelos de mãe, de três minúsculas bonecas de plástico, que possivelmente nem dez centímetros mediriam. Duas utilizavam a mobília de quarto para cuja cama a D. Lucila fizera um adereço bordado a ponto de cruz, com desenhos em cor-de-rosa e azul e ajour nas bainhas, a outra era deitada numa cama-caixa de charutos em lençóis menos cuidados e para que não houvesse amuos ela deitava-as à vez, ora num lado ora noutro.

Ela tinha muitos brinquedos e livros também. O irmão e a avó Isabel mimavam-na muito. Mas aquelas três minúsculas bonecas e a caixa de charutos eram o seu encanto. Ela lembra-se particularmente de duas. Uma parecia uma senhorita em miniatura e a outra tinha as pernas tortas como um bebé, o que muito a aborrecia por desfigurar as peças cheias de estilo que ia confeccionando. E, proporcionada àquele tamanho, a caixa de charutos…

Uma tarde, ele espreitou…

Um rato minúsculo, bem menor do que qualquer das bonecas, olhou-a com os olhos pequeninos, de um (também pequenino) buraco situado no rodapé, junto à porta do escritório da fábrica. Confiaram um no outro e foram-se acompanhando nas tardes de solitária brincadeira com a caixa de sapatos, onde ela guardava os mais preciosos haveres: as três bonecas, os trapos, a caixa de charutos e, o maior de todos os pertences, a sua imaginação de menina sem meninos para brincar.

Um dia, talvez estivesse a merendar, resolveu dar de comer ao rato e pôs uma migalha em frente do rodapé, continuando a observar pelo “rabinho do olho”, fingindo-se desinteressada, para ver o que acontecia. O rato veio, passeou junto da migalha, recolheu-a e voltou ao buraco, perto do qual a ficava olhando agradecido.

A partir de então o ritual repetiu-se mas, ela foi alterando os procedimentos, por último punha a caixa de charutos ao alto, colocava a migalhinha em frente, já pitéu melhorado (aprendera nas histórias que os ratos gostavam de azeite e ensopava a migalha no galheteiro da cozinha) e o rato vinha… Ela tombava a caixa, esperava que o rato comesse e voltava a levantá-la. E lá ia ele saltitando de volta ao buraco.

Dias a fio, o rato e ela, dois amigos estranhos, em encontros feitos de rituais: uma migalha de pão com azeite e uma caixa de charutos que, antes de ser abrigo de rato em repasto privilegiado, fora cama de boneca. Mais tarde, muito mais tarde aprendeu que teria havido um Pavlov, que só teria vindo ao mundo para tirar poesia a esta amizade, mas também muito, muito tempo antes do estudo da Psicologia lhe alargar os horizontes, confessou à mãe que tinha este amigo e uma tarde, quando desceu feliz saboreando antecipadamente o encontro, o buraco estava tapado.

Correu escada acima ”mãe, o buraco do rato está tapado. Ele não vai poder sair” “pois não, o senhor do escritório disse ao teu pai que ele roía os papéis e não podia viver ali”.

Fora-se e nem dissera adeus…

Aquela ausência apanhara-a de surpresa. Uma garra apertou-lhe o peito! O coração quase saltou pela boca!

Como a solidão dói, quando o silêncio não nos apetece!

Nesse dia começou a compor uma oração diferente das que aprendia na catequese. Mais tarde, em A Leitora, de Raymond Jean, encontrou a síntese daquele estado de alma: “Na vida somos sempre livres e estamos sempre sós”.

Desde então, agradece a Deus a protecção, os dias de vida que lhe tem proporcionado e os que lhe virá a proporcionar, pedindo que envolva os silêncios que não lhe apetecem em palavras ternas e gestos de carinho.

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