domingo, 1 de agosto de 2010

A ESCOLA

Uns meses depois de fazer seis anos ela foi para a escola. O processo foi complicado. A lei exigia que se completassem os sete anos até trinta e um de Dezembro e ela só os completaria em meados de Março do ano seguinte. Requerimentos, consultas médicas, atestados daqui e dali, um sem fim de andar cá e lá pela mão da mãe a tratar de papelada e a ser entrevistada por este e por aquele, a ver se teria ou não capacidade para aprender que justificasse a antecipação. E lá aconteceu!

Quando começou os outros já levavam algum tempo de aulas e a professora, D. Maria de seu nome, sentou-a ao lado da O. uma menina mais velha, que já andava na quarta classe. A O. tinha uma caneta de tinta permanente e como ela só tinha direito a um ponteiro para escrever na ardósia e um lápis para escrever nas folhas da sebenta, pegou na caneta da companheira e fez um rabisco; “minha senhora” ouviu-se em tom choroso “não a quero ao pé de mim. Ela mexeu na minha caneta. Tire-a daqui”. A professora ralhou-lhe e, deferindo o pedido, mandou-a sentar-se ao lado da Elvira. Ela era tímida, não disse nada, nem sequer percebeu porque estava a ser castigada, a caneta era parecida com a do pai… pousou o olhar na O., depois na professora, e foi para o novo lugar que lhe fora destinado, perguntando-se qual das duas seria a mais parva.

A Elvira, que estava sentada sozinha na última carteira da fila junto à janela, acolheu-a com afabilidade, disponibilizando de imediato a pena de pau com um aparo, que se molhava no tinteiro cheiinho de tinta pendurado num buraco da carteira, quando queria escrever. Ela não tocou na caneta, acabara de aprender que, ali, o que era dos outros chamava-se “não se mexe”, mas agradeceu e conversa puxa conversa a Elvira acabou a mostrar-lhe um dente já cariado. Quando ela perscrutava a boca da Elvira, esquecida da escola e da professora, esta interveio “pára com isso, não és veterinária” e voltou a mudá-la de lugar. Admirada por a professora chamar “bicho” à Elvira, ela levantou-se, mais uma vez com os pertences na mão e mudou de carteira decidindo que não gostava da D. Maria.

Nem da D. Maria nem da escola, uma sala fechada cheia de meninos e meninas, cada um preocupado em dar menos erros que o outro, como o Rafael que até acrescentara o “e” que faltava no fim de uma palavra do ditado, depois de ver o erro marcado noutro caderno e a D. Maria lá no alto, sentada atrás da secretária enorme com muitos meninos acotovelando-se à volta, a colocar o dedo mindinho da mão direita, meio torcido, em cima do “e” esborratando tudo, só para ele ver que ela era a mais esperta.

Ela sentia-se um peixe fora de água enquanto, sentada sozinha na última carteira da segunda fila, ia observando tudo o que se passava em volta. Nunca gostou de apertos, por isso deixava-se estar quieta e calada no seu lugar e só ia até à secretária quando a D. Maria se lembrava dela, o que, no meio daquela confusão, não acontecia muitas vezes.

O corpo estava ali aprisionado, mas o pensamento continuava livre. Foi nos primeiros dias de escola que começou a trocar as circunstâncias adversas e inalteráveis pelo sonho, aprendendo a proteger a alma do que a impedia de ser feliz. Muito, mesmo muitos anos mais tarde haveria de ler Eduardo T. Hall e perceber como armadilhara o ego.

As aprendizagens sucediam-se no tempo e depressa se chegou à lição do “t”. Na gravura do livro, uns meninos vestidos com a farda da Mocidade Portuguesa tocavam corneta. Eles tocavam e ela deveria “cantar” tudo o que estava escrito naquela página: as vogais, os “ t”, maiúsculos e minúsculos, em letra impressa e manuscrita, as sílabas escritas de todas as maneiras possíveis, dispersas pela página. Tudo aquilo bailava em frente dos seus olhos e ela só pensava no Tó. O Tó estava nesse dia em casa da avó e ela ali, sem poder brincar com ele, a olhar para a D. Maria que dizia… nem ouvia o quê. “T” e um “a“… e ela Tó, “t” e um “i”… e ela Tó, “t” e um “a” e ela Tó. E quanto mais a D. Maria se exasperava mais ela sussurrava Tó… Tó… Tó… A D. Maria perdeu a paciência e a bofetada estalou. Envergonhada sentiu vontade de chorar, mas não chorou, pousou os olhos no rosto furioso da D. Maria, fechou o livro e voltando ostensivamente as costas à professora, achando que não merecera tal castigo, sentou-se muito direita na carteira, engolindo a vergonha e a dor.

“Não quero ir à escola” lamuriou-se em casa e, o pai condoeu-se “deixa-a faltar, é tão novinha” dizia à mãe, mas a mãe não se comovia “era o que faltava, uma menina deste tamanho não aprender a ler e a fazer contas”.

Não era nada bom ser grande…

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