domingo, 18 de julho de 2010

O RIO

O rio corria perto e exercia sobre ela um fascínio igual ao dos comboios.

Ir, ir sem olhar para trás… Só que, após breve ausência, os comboios voltavam sempre, só mudavam as pessoas, como se a linha férrea se estendesse à volta de uma laranja. Sim, porque se fosse preciso que o comboio marchasse em sentido contrário, conduzia-se a máquina até ao troço de linha, por cima do fosso que ela via do quintal e um homem rodava um grande volante até a voltar para o outro lado, depois atrelava-a ao último vagão que passava assim a ser o primeiro e o comboio seguia percorrendo o sentido de onde tinha vindo. E os comboios não chocavam porque os agulheiros juntavam os carris antes de eles entrarem na estação, de acordo com a gare em que deveriam parar.

No rio, a água corria e estava sempre ali, ia e permanecia cantarolando sempre. E o rio não parecia correr à volta da laranja, nem voltava para trás. Disseram-lhe que corria porque tinha pressa de chegar ao mar. E ela não entendia porque é que aquela corrida não tinha fim, mas achava bonito porque também gostava de correr.

Nos poucos tempos livres, o pai levava-a a passear até ao rio. Seguiam pelo carreiro que bordeava a linha, apanhando pedrinhas brancas, mas só as redondinhas que aqui e além sobressaíam na terra negra. Outras vezes seguia saltando de chulipa em chulipa, como se do trajecto não se adivinhasse o fim, ou caminhava a passos pequeninos fazendo equilíbrio no carril do comboio. O pai ajudava, dava-lhe a mão para que não caísse.

Chegados à ponte de ferro, que continuava a linha ligando as duas margens do rio, desciam por um carreiro apertado e íngreme. E de seguida era preciso saltar o colector de rega, que corria paralelo ao rio. O colector era largo e ia tão cheio… O pai saltava primeiro “vá, não tenhas medo, eu agarro-te” e ela tinha medo, mas saltava. Do outro lado aqueles braços abertos garantiam o êxito da façanha.

“O que ouves?” Prestava atenção. Primeiro só o rio, depois o vento assobiava entre as folhas das árvores e falava em voz alta no canavial “o príncipe tem orelhas de burro” ouvia como na história e os pássaros cantavam empoleirados nos arbustos e alguns insectos e batráquios completavam o coro.

No canavial, colhiam as folhas e nas silvas os picos, com que faziam os barcos que punham a vogar no colector. O rio era muito abaixo, não podia ser lá, mas não era isso que impedia a imaginação de partir à desfilada naqueles barcos-folhas que vogavam de mansinho. “Oh! Virou-se!” Era como na vida, aprendeu mais tarde: há coisas que parecem seguir muito direitinhas e tombam antes de se adivinhar o fim que pretendem alcançar. E na vida, tal como ali, não vale desesperar, temos é que fazer de novo. E lá ia outro barco pela água de rega, oceano improvisado no sonho da menina.

Por baixo da ponte na parte cimentada descalçava os sapatos e descia em correria louca a encosta íngreme, o pai travava-a na parte plana, mesmo na bordinha da margem, não fosse ela cair ao rio e ela voltava a subir e voltava a descer, até se cansar. E, se acaso passasse algum comboio, quando estavam debaixo da ponte, era uma emoção vê-lo ao contrário, a correr mesmo por cima da cabeça. Que susto! Que emoção! Que barulheira! Ela fugia sempre com os dedos espetados nos ouvidos, rindo e gritando “o comboio caiu-me em cima”.

E cumprido o ritual de subir à varandinha da cabine de onde se controlava a água de rega, depois de se esgravatar um ou outro buraco onde, no Inverno, se suspeitavam cobras em hibernação, iniciava-se o regresso. E voltam as brincadeiras no quintal.

Voltou mais tarde ao rio, em piquenique com as amigas.

E mais tarde ainda para ensinar às filhas o seu amor ao rio.

E volta sempre, pelo prazer do movimento em que a alma feita barco deixa vogar o pensamento.

2 comentários:

  1. O texto é muito bonito. Só tenho pena de não poder comentar as brincadeiras da "menina" porque, de facto, não fazem parte do meu imaginário infantil. Toda essa realidade, que estão tão bem descrita, é completamente estranha para mim, "pobre menina" de cidade, nada e criada no andar de um prédio...

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  2. Olá, amiga,
    As meninas, que como tu, viveram num andar de uma "casa de rua" (como diria Erico Veríssimo), mesmo não tendo espaço largo para brincar, não deixaram de o fazer. Tiveram outras experiências (porque os espaços eram outros) com que atingiram o mesmo objectivo: CRESCER.
    Muito obrigada pelo teu comentário

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