segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

TEATRO

1.º Acto

Já passaram muitos, muitos anos, eu era uma menina com olhos de mata-borrão, prontos para absorver tudo e no ACS, centro da vida sociocultural da Sismaria da Gândara a que na altura simplesmente chamávamos clube, decorriam os ensaios de uma peça de teatro.

Ao Senhor Franklin, que tinha um armazém na rua D. Carlos I, onde hoje se situa uma loja que compra ouro, pessoa que associo aos pirolitos do Sr. Emídio Xavier, desconhecendo se este na altura ainda produziria pirolitos, por saber que aquele negociava em bebidas, não por gostar de pirolitos, mas pelo misterioso berlinde que as garrafas continham (que magia!), cabia a realização e a encenação. Ensaiava e ainda colaborava como actor. Parece que o estou a ver, um senhor alto (ou seria eu que era tão pequena…), moreno, bem-falante, com um lindo timbre de voz, a sair do armazém onde eu achava que havia um enorme tesouro de pirolitos.

Chegou o grande dia e eu vi, pela primeira vez representada ao vivo, uma peça de teatro. “A Raça”.

Das actrizes lembro-me da D. Julieta, que chegou a ganhar um prémio do SNI, da D. Ernestina, da D. Dinha e da Leodete; dos homens só recordo o senhor Franklin, o Álvaro C. e acho que o Silva Gante também fazia uma pequena entrada em cena. O cenário era uma sala. A parede que ficava em frente aos espectadores tinha uma janela de sacada através da qual se via uma árvore florida e nas dos lados havia portas por onde os actores entravam e saiam.

Sempre que era caso disso o Álvaro dizia “Sra. Condensa” e a minha mãe segredava-me ao ouvido “diz-se condessa” e ria, porque naquela época ela era senhora do tempo e ria-se da vida com a facilidade com que hoje chora, sem confessar que tem medo da morte, porque aquelas lágrimas, nestes noventa e dois anos lúcidos, citam Padre António Vieira, quando disse que o melhor sinal de se haver de durar pouco é haver-se durado muito, e ambas impotentes perante o irremediável, acabamos a “refilar” por conta do andarilho, a fingir que acreditamos que ela durará eternamente.

Lembro-me ainda de haver em cena um sofá sobre o qual, no final, o Álvaro cedendo à emoção, caiu, quase desmaiado e comovido chorou. E como o lenço de assoar lhe fez falta…

Todos batiam palmas premiando o desempenho, a dedicação, a dignidade daquele trabalho de amadores, mas eu nem ouvia, eu estava fascinada, eu queria estar ali, naquele palco, a brincar ao “faz de conta”…

1 comentário:

  1. Porque é que será que eu já conhecia esta história?!... e já a ouvi tantas vezes...
    Mas é giro saber estas coisas e saber que vocês, mais ganapos, se divertiam imenso!

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