terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

SERÁ?

Manhã de sábado, 4 de Fevereiro

Eu deixara-me possuir pela sensação de bem estar e de olhos fechados gozava o conforto que a cadeira de massagens e a lavagem da cabeça proporcionavam, naquela manhã, em que dedicara algum tempo aos cuidados da cabeleireira. A música de um qualquer canal, em que estaria sintonizado o aparelho de TV, dava uma preciosa ajuda.

Entretanto, na calha ao lado, outra cabeleireira reclamou “Tem o couro cabeludo muito vermelho. Está desidratado. Não costuma usar creme? Já lavou a cabeça hoje?" – E se ela se calasse? – Questionei-me, saindo daquele torpor em que me encontrava, abruptamente para a realidade, mas continuei de olhos fechados. “Lavei-a esta manhã, no banho e não pus creme” justificou uma voz masculina que soou muito jovem. E eu, que detesto a partilha do espaço do salão de estética com o sexo oposto, lembrei-me da conclusão da anedota daquele marido que, encontrando a esposa na cama com outro homem, terá exclamado: Ah, Maria! Com tanta modernice, qualquer dia apanho-te a fumar! Mas continuei de olhos fechados…

Pouco depois, outra voz soou, pretendendo saber como estaria o couro cabeludo, por causa daquela zona ali no alto “está a ver?” tinham-se acabado as ampolas anti-queda… Nesta altura da conversa, a curiosidade já me abrira uma nesga do olho direito para o corpo de uma senhora debruçado sobre o jovem a quem lavavam a cabeça. “Imagine, quando perguntei pelo creme, tinha-o deixado em Lisboa! Ele sai à mãe, tem a pele muito sensível…” “À mãe não sairá – e aqui adivinhei o sorriso da cabeleireira – a mãe tem o cabelo liso…”

Entretanto chegara ao fim a lavagem da minha cabeça e pude ver, na calha à minha direita, um querubim, talvez aluno universitário, dada a referência anterior à capital, de fartos caracois e luvas de lã calçadas – como era possível ter frio naquele ambiente aquecido? – que cuidavam na calha ao lado.

Até aquele momento eu pensara que a virilidade masculina era uma qualidade inata, que seria uma característica do cromossoma y e acabara de descobrir que afinal se aprende em casa, no seio da família. Será que em função da incursão dos sexos pelos diferentes papeis sociais, de carinhos e cuidados excessivos de mães super protetoras ela corre o risco de mudar de mãos?

3 comentários:

  1. Por mais cremes ou ampolas que apliquem haverá sempre cabeças "sujas" por dentro.
    Virilidade?
    Eu cá sou muito macho!
    :)

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    1. Não me atreveria a pôr tal coisa em dúvida, mas também não pretendia que pessoalizasse.
      :)

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  2. Pois..., estou a ver cena toda...e imagino o resto da conversa...
    Mas por vezes também creio que é isso mesmo, Isabel. Protecção e influência desmesuradas, talvez, num campo já predestinado.

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