segunda-feira, 30 de julho de 2012

A PROVA





Jovem irreverente, sempre que a minha mãe me impedia de concretizar algum projeto, normalmente alguma saída com amigas para a qual não dava o aval, pois o meu pai deixava isso inteiramente ao seu critério, como último argumento eu declarava “sei muito bem que não gosta de mim. Abandonaram-me à  vossa porta e ficaram comigo, porque gostaram do cesto”. A minha mãe ficava exasperada, mas nunca a demovi com a irreverência. Antes pelo contrário; ela tinha a mão pesada e alguns tabefes me foram caindo em cima, sem que eu apreciasse a frequência e o peso da carícia.

A vida foi-se cumprindo obrigando-me a outras irreverências e eu esqueci esta. Não mais repeti aquela afirmação bombástica até ao dia que cheia de tonturas o médico diagnosticou tensão baixa. Já era uma mulher e ao chegar a casa de meus pais, morávamos próximo, interpelei de imediato a minha mãe “ lembra-se da minha desconfiança de terem ficado comigo por gostarem do cesto em que me abandonaram à vossa porta? Para além da prova documental que constitui a fotografia, posso exibir agora uma prova material de que não faço parte da família: tenho a tensão a 100/60 e vós sois todos hipertensos” “a falta de juízo tem é prova; nós somos todos ajuizados” respondeu a minha mãe que deixara há muito de dar importância às minhas tolices e ficara preocupada com a minha saúde.

Os anos passaram e eu fui vivendo muito bem com a situação. O que era a tensão baixa para uma jovem de vinte e sete anos preocupada em criar e educar duas filhas pequenas, uma de cinco, outra ainda sem ter feito dois anos, que o pai deixara inteiramente ao seu cuidado?

Os anos sucederam-se, pontapeando dificuldades, somando os êxitos possíveis, até que um dia, senti uma garra a oprimir-me o peito. “Estarei deprimida?” E, sem saber responder à questão, resolvi consultar o meu amigo Grilo, médico neurologista e antigo colega de Liceu, na tentativa de um bom diagnóstico dado que, conhecendo-me há tantos anos, saberia comparar o meu estado normal, com aquele em que me encontrava.

Naquela tarde eu era a última doente. Quando cheguei, já não estava mais ninguém na sala de espera e a Gracinda, rececionista, pediu-me que aguardasse. O Grilo abriu a porta a doente consultada saiu, olhou-me sem ver e disse “agora é a senhora, faça o favor de entrar” “mau – respondi – então venho cá para me dizeres se estou doida e o maluco és tu?”. Rimo-nos, entrei no consultório e começou a consulta.

Depois de análise cuidada dos dados que ia fornecendo e daqueles que ele, como clínico, ia procurando, o meu amigo Grilo sentenciou: “minha querida, não estás doida, tens a tensão alta” “não pode ser”- exclamei -  “pode, pode”.

A vida rindo-se de mim, vingando as tolices que fizera ouvir a minha mãe!





















Olhando as estrelas, de mão dada com a mãe...


Enternecendo-se com o pai...



Com o dobro da idade. Já "uma senhora".

5 comentários:

  1. Que espanto de fotografias! Adoro fotografias antigas.

    Normalmente, a meio da vida, as mulheres que sempre foram hipotensas passam a ser hipertensas - não sabias? Garanto-te que não é nenhum castigo dos deuses...

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    1. Mas é um aborrecimento, porque tenho de tomar um comprimido amarelo. Não há verdes para o mesmo fim... :)))

      Viste como eu era um esmero de bebé? Modéstia à parte...

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    2. Tens a certeza que é a meio da vida? Vou durar até aos 120 anos? Eu bem dizia às minhas filhas quando elas me arreliavam "querem que eu morra depressa, mas hão de aturar-me até aos 120 anos"

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  2. A falarem aqui de fotos de bébés, ainda que à distância de 60 anos, ah pois, os anos passam a galope ( e quando em cima dum cavalo verde, ainda mais velozes, eles voam...) e eu aqui de plantão, 2 horas, a mão da Zaida (93 anos) no hospital (mas parece que está fina, para outra)...

    Afinal não fui retomar a conversa no post anterior... paciência, sempre deu para reparar em duas gralhas que lá pousaram...nada de grave.

    Abraço

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    1. Olá, António.

      Desejo que a sua sogra se encontre bem.
      As nossas "velhotas" (permita-me - a minha mãe tem 94 anos) são rijas e cheias de vontade de dar e durar. A minha ontem, quando a fui visitar ao Lar, nem para mim olhou durante 45 minutos porque não podia interromper o "bingo" (leia-se loto) que jogava. Depois refilou quando parti. Eu acho graça a esta "tirania" e desejando que vá durando, sinal de que ainda a tenho por cá a ralhar porque o vestido é curto, porque não me alindei como deveria, porque limei as unhas a direito e ficariam melhor amendoadas, porque o decote é grande, porque a blusa é feia, porque... porque... porque... PORQUE ESTÁ VIVA! QUE BOM!

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