quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

DESDE A AURORA

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago: vais surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro.

Sou eu, desde a aurora,
eu — a terra — que te procuro.

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"

3 comentários:

  1. E que bela ela está,
    como vai linda a tarde.
    Calma e doce,
    a eternidade...


    E o Manuel Alegre a Eugénio de Andrade

    Há em Eugénio de Andrade
    uma tensão extrema
    substantivos e verbos trazem elementos
    respiração da terra no poema
    a vida intensa a breve eternidade
    e as sílabas do sul entre o verão e os ventos

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  2. Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"
    Procuro-te
    Procuro a ternura súbita,
    os olhos ou o sol por nascer
    do tamanho do mundo,
    o sangue que nenhuma espada viu,
    o ar onde a respiração é doce,
    um pássaro no bosque
    com a forma de um grito de alegria.

    Oh, a carícia da terra,
    a juventude suspensa,
    a fugidia voz da água entre o azul
    do prado e de um corpo estendido.

    Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
    Chamo por ti, e o teu nome ilumina
    as coisas mais simples:
    o pão e a água,
    a cama e a mesa,
    os pequenos e dóceis animais,
    onde também quero que chegue
    o meu canto e a manhã de maio.

    Um pássaro e um navio são a mesma coisa
    quando te procuro de rosto cravado na luz.
    Eu sei que há diferenças,
    mas não quando se ama,
    não quando apertamos contra o peito
    uma flor ávida de orvalho.

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