quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

LEITURAS

Abandonado “Teatro de Sabbath”, de Philip Roth, ou pelo menos em largo repouso, para além de mais de meio lido, não por ser demasiado escabroso, mas sim catastroficamente libidinoso e muito próximo do limiar da loucura e da extinção, aventurei-me por outras leituras.

Carlos Ruiz Zafon foi-me apresentado por “A Sombra do Vento” onde, embora me parecendo faltar ritmo ao suspense, desabrochou a minha curiosidade. Por isso não hesitei perante a reedição (Setembro de 2011) de “O Príncipe da Neblina” (prémio Edebé 1993).

Li todo o livro à espera de me deparar com o romance, para chegar ao fim e concluir que teria gostado muito da obra quando tinha doze anos. Talvez então me tivesse identificado com Alicia e lastimasse a perda de Roland, mas, de momento, o meu espírito sentiu a trama tão pouco elaborada e ficou tão sedento de qualidade, que só a poesia, forma privilegiada da expressão, me poderia lavar a alma.

A Demora

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto, in " idades cidades divindades"

3 comentários:

  1. E eu já com saudades e a sentir falta de ter tempo e paciência para ler, devagar, com vagar, a pensar no que leio, os livros por ler a amontoarem-se, que nem registados estão, os dos últimos 2 meses, talvez...

    É caso para parafrasear:
    "Tanto livro, tão pouco tempo!"
    (Será só (in)disposição momentânea?)

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  2. Olá, António.
    Como pode ter tempo para ler quem anda sempre a espreitar a vida pela objectiva?
    Os livros, em minha casa também se amontoam. Os que estão na mesa de cabeceira ameaçam chegar ao teto...
    Depois há os novos e os que me apetecia reler e as fichas de citações que gostaria de fazer e há tantas coisa a ficar só pelas intenções...
    É preciso é ir vivendo a vida.
    Tudo de bom para si, neste novo ano.

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  3. Fui Sabendo de Mim

    Fui sabendo de mim
    por aquilo que perdia

    pedaços que saíram de mim
    com o mistério de serem poucos
    e valerem só quando os perdia

    fui ficando
    por umbrais
    aquém do passo
    que nunca ousei

    Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas

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