segunda-feira, 23 de abril de 2012

AINDA NÃO FOI DESTA

Eu teria cinco, seis anos, não mais. Uma curva apertada feita em louca correria ocasionou o acidente… Bati com a face na vedação compacta de toros de eucalipto, mais ou menos da minha altura, espetados no chão lado a lado, com que meu pai ordenara ao Coquelimoque que salvaguardasse a pequena horta, das minhas pisadelas às couves e do assalto aos nabos bola de neve. Ainda hoje gosto de nabos crus, nomeadamente daquela qualidade.

Já não recordo a dor, mas lembro-me bem da enorme choradeira, coisa em mim desusada. A dor deveria ter sido tão intensa!

A minha mãe desceu as escadas desde o primeiro andar, num ápice e levou-me para cima. O médico, o Dr. Francisco Dias, que se encontrava presente em visita domiciliária por meu irmão estar doente, pegou-me ao colo, atravessou toda a casa e sentou-me em cima da mesa da cozinha, a mais alta de todas. Desta vez não foi para eu ficar crescida “num instantinho” mas para me examinar mais facilmente. Eu ainda não parara de chorar.

“Não há sangue” disse a minha mãe, “mas dói-lhe muito” retorquiu o médico. Eu acabara de ganhar um desvio no septo nasal e da mazela da face, ficaria para a vida com uma covinha quando sorrisse, pois rompera a bochecha sem rasgar a epiderme.

“Não vai ser atleta” sentenciou o Dr. Dias acerca do meu futuro “o desvio do septo não é grave e quanto à covinha até lhe dará graça ao sorriso” e para aliviar receitou de imediato pachos de água fria e logo que possível gelo, coisa de que não dispúnhamos, à época, com a facilidade que dispomos hoje.

Muitos anos passaram e com eles muitas mais covinhas foi ganhando o meu sorriso…

De facto não fui atleta, mas o que não nasceu torto e por qualquer motivo se entorta, algum dia terá de endireitar-se. Chegou no sábado, dia vinte e um, a vez de o meu nariz ser submetido a uma septoplastia, sentenciada desde o tempo em que o meu otorrino era um jovem de farta e saudosa cabeleira negra…

“Tenho medo de acordar morta” chalaçava eu, adiando a operação com medo da anestesia. “Garanto-lhe que morta não acorda, de certeza” respondeu o clínico invariavelmente, anos a fio.

Ainda não foi desta que acordei morta, mas para já tenho um nariz igualzinho ao da Miss Piggy.

Agora, em vez de sonhar com o Cavalo Verde, passo as horas a suspirar pelo Sapo Cocas…

2 comentários:

  1. A minha cara-metade também tem "o nariz empinado", desde criança. Quem sabe se ela agora ganha coragem?
    Convença-a!
    :)

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    1. Olá, Rui.

      Quem me dera ter "o nariz empinado"! Garanto que não me teria metido em apertos... A mim, estava a "faltar o ar para respirar"... e antes que me faltasse o "espaço para pôr os pés"... tentei resolver o problema, pois embora já me sugerissem que me pusesse a andar daqui p'ra fora... eu não tenho troikos para comprar a "valise de carton", nem engenho e arte para escrever, nem tampouco há feitos que mereçam um poema épico.
      E depois desta manifestação originalíssima de modéstia (looooollllllllll), por aqui me fico, a ver a chuva através da vidraça...

      VIVAM OS VALORES DE ABRIL!
      VIVAM OS VALORES DE ABRIL!

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