quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

NÃO RESISTI


UM POUCO DE TERNURA E NADA MAIS

por BAPTISTA-BASTOS - Hoje, 13 de Fevereiro

"No domingo, 27 de Janeiro, às 5 da tarde, fui internado de urgência no Santa Maria. Respirava com extrema dificuldade, era assaltado por terríveis acessos de tosse, não me mantinha equilibrado e estava apossado de funesta sonolência. Andava nesta obstinada teimosia há uma semana, ante os reparos dos filhos e as reprimendas da Isaura, que custodia as minhas disposições com a benevolência e a firmeza que lhe conferem cinquenta anos de vida em comum. Éramos dois miúdos e durante estes anos todos temos enfrentado vendavais sem conta. Continuamos dois miúdos, um pouco mais velhos.
Cheguei, pois, ao hospital num estado deplorável, em razão da minha presunção e soberba. Presumiu-se que uma virose me atacara; depois, talvez fosse vítima de embolia pulmonar. O despiste das doenças não impediu a minha acentuada fraqueza. Fui rodeado imediatamente de atenções e de solicitudes que logo notei serem iguais para todos quantos haviam entrado naquele crisol de sofrimento e de espanto. Pertencia, agora, a esta comunidade na qual o abatimento, a dependência, a fragilidade e a perda do recato pertencem ao mesmo número de resignadas admissões.

Pouco depois fui transferido para o Hospital Pulido Valente. Explicaram-me que, na Unidade de Cuidados Intermédios, dispunha de assistência assídua e especializada, e a minha miséria encontrava resposta na bondade, no carinho, no desvelo de um grupo de raparigas e de rapazes não só atento à medicação, procurando magoar-me o mínimo possível, com o furo nas veias débeis, como me lavavam, me limpavam, me cuidavam com a grandeza de quem não precisa de reciprocidade. A dimensão da humanidade na sua expressão acaso mais nobre. Sou-lhes eterno devedor.

Ao observá-los e à sua compassiva densidade, apreendi que os macacos sem fé e sem sonho, que nos governam, desejam não só dar cabo do Serviço Nacional de Saúde: eles querem, sobretudo, dissolver os laços de benevolência, essa ligação suave, decente e poderosa entre alma e coração, substância e essência que constituem a construção social e o espírito do SNS. O que são alianças de piedade e de solidariedade entre os que sofrem e os que cuidam, ajudam e amparam, eles ambicionam transformar em gélidas demonstrações profissionais, "justificadas" pelo dinheiro.

Estes que tais encontram, porventura, na maldita frase do banqueiro Ulrich ["eles aguentam, aguentam"] o mais sórdido apoio aos seus projectos de demolição social e ética. Estão do outro lado das coisas, ignoram a natureza concêntrica das grandes simpatias humanas. Têm o coração oco. Nada sabem dessa humanidade assustada, desvalida, a quem querem roubar o pouco que lhes resta, que sofre nas ruas, nos hospitais, que envelhece no pasmo de desconhecer o que lhes acontece. E ocorre-me a frase de Raul Brandão: "Apenas anseiam por um pouco de ternura e nada mais."



4 comentários:

  1. Malandros, estes arrogantes governantes, que se julgam detentores da verdade e discernimento absolutos. Em seu favor, exclusivo, claro. Na defesa da sua família política, exclusivamente!
    A resguardarem os seus próprios interesses, a fingirem que fazem justiça contra os malfeitores que tantos MM € têm desviado do erário público, que não "podem" condenar, dada a teia clubística em que todos estão enredados!

    E o buraco que eles criaram, há que o tapar com o sacrifício ilimitado e intemporal do vulgo.

    O homem não pode ter sido concebido para se comportar desta maneira infame e sórdida!

    Com um pouco mais de ternura a vida seria menos dura!

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  2. E nós cá vamos aguentando, aguentando, como diz "o outro" :(

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  3. Já tinha lido esta crónica e fiquei profundamente comovida.Não há dúvida que B.B é um mestre na escrita,sobretudo quando fala de sentimentos.
    Faço minhas as palavras que Jacques Brel cantava "Pour un peu de tendresse".Coisas que este pessoal que nos governa desconhece.Não nos consideram seres humanos que têm direito a uma VIDA DIGNA
    Li hoje,num dos jornais online,que um "senhor"deputado,de que me não lembro o nome,dizia que sofríamos da "peste grisalha"referindo-se ao número de idosos em Portugal e respectivo peso nas finanças.Qualquer dia dão-nos uma injecção atrás da orelha e ficam com o problema resolvido.
    E assim vai este país!!!!!

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  4. Nunca, mesmo para quem "nunca" possa parecer muito tempo, pela minha cabeça passou, que após Abril de 1974, voltaríamos atrás. Há fome, há crianças com fome, falta de habitação, falta de emprego e caminhamos a passos largos para a falta de assistência médica. Voltámos à década de cinquenta do século passado. Um povo a quem faltam as necessidades básicas de subsistência é um povo subjugado, vencido por exaustão. Luto afincadamente para não me deixar abater com o desânimo reinante, mas negá-lo é pura loucura. Muitas vezes me recrimino, pois se levantei a voz, na luta dos professores por melhores condições de trabalho, para chegarmos à situação atual, melhora fora ter estado calada. E apetece-me voltar à luta, apetece-me voltar a esgrimir a palavra, mas sinto-me tão desiludida e honestamente, confesso, tão sem esperança em melhores dias, tão sem fé, que a minha voz não teria força para convencer ninguém. Resta distribuir um pouco de ternura por quem me cerca: a simplicidade de um sorriso, a tolice de um comentário bem-humorado e tempo para ouvir. E as pessoas, por um bocadinho, sentem que alguém se importa.

    Há dias uma amiga, uns anos mais nova que eu, a viver uma situação difícil, garantia-me que iria à manifestação de 2 de Março. "Calço uns ténis e estou disposta ao barulho. Haja a pancada que houver, posso levar, mas também hei de dar alguma. Não tenho nada a perder, vou correr à frente da polícia" E eu, em vez de a demover, ouvi-me a manifestar forte pena por a minha coluna não me permitir a veleidade de pensar acompanhá-la.

    Quando em 2008 se deu o crash americano, indicador que os tempos que se seguiam seriam maus, pensei que os homens teriam a inteligência suficiente para sair da situação. Pura ilusão.

    Neste momento o que mais me apetecia era juntar a família, pegar nas malas e esquecer-me que a Europa existe.

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