sábado, 9 de fevereiro de 2013

A MINHA AMIGA G.


Conhecemo-nos em casa da Albertina, num desses domingo em que nos juntávamos para dois dedos de conversa agarradas às agulhas do tricote ou do croché. Trazias três filhos pela mão, o outro nasceria anos depois, e um sorriso triste, cansado de vida.

“Há quanto tempo?!”- pasmou a Albertina, tua colega de escola. Que tinhas encontrado seu pai e que te lembraras de aparecer. Naquela tarde foste mais uma a partilhar as conversas inconsequentes, os risos, o chá e as torradas da merenda.

Depois partiste. “Era tão linda! E é tão infeliz no casamento!” – comentou a Albertina “Linda, ainda é. A infelicidade adivinha-se” – retorqui.

Não sei como, tornámo-nos amigas. Talvez a mania de proteção, a minha, despertada pela tua infelicidade, nos tivesse unido. Ironias da vida! Como se eu esbanjasse venturas… mas possuía dois ombros para encostares a cabeça e dois ouvidos para ouvir-te. Tu estavas dotada dos mesmos atributos e também me protegeste. Adotámo-nos uma à outra. Partilhámos tristezas e alegrias. O crescimento dos filhos, o nascimento do teu mais novo. Os passeios à praia, a garotada atrás. O teu incontornável Capri vermelho, com a alavanca de mudanças “amovível”, e nós a rir e o teu marido sem achar graça. Partilhámos ainda as tardes de Natal a cozinhar bolo-rei no forno da aldeia e os passeios pelo campo.

“Anda, vem daí”- dizias tu quando respondendo ao toque da campainha te abria a porta, nas manhãs de sábado – “A minha mãe vai cozinhar pato para o almoço.” E como eu gostava daquela canja, com aromas diferentes que tua mãe cozinhava: um ramo de salsa, alho e louro, massa pevide e carne desfiada. E a garotada, primeiro cinco, depois seis a chilrear à mesa, na sala de teus pais.

“Vem um homem regar os feijões. Vamos lá, que é perto, para que as tuas filhas vejam como se faz” – e a minha intuição a correr feita louca e a apanhar a Íris pelos folhos do vestido, no momento exato em que caía naquela presa de água, coberta de “não-me-esqueças”. “Que bonito!” – dizia ela ainda, quando lhe faltou o chão para pôr os pés e se sentiu suspensa pelo vestido, molhada, meio mergulhada no susto daquela água. E eu cheia de vontade de ralhar-te, a sorrir para não a assustar ainda mais: “tomaste banho, teremos de voltar, já não veremos regar os feijões”. E tu: “nunca pensei, Isabel…” “Pois devias. Somos “saloias” da cidade”.

E quando apareciam doentes e o teu marido não estava: “então de que se queixa?” Ah! Já sei o que lhe faz bem. Vou ver se há ali alguma amostra, no consultório… “ E eu a brincar: se não houver, passa a receita…” E tu rias: “Se pudesse, até passava…”
    
Depois o teu divórcio. A raiva, a angústia, a dor… e a vida a passar e a cumprir-se passando, como diz o poeta. Por fim o equilíbrio, mais tarde um novo amor.

Acabámos vizinhas. Na vivenda ficaram só os cães. E eu gostava de te saber no primeiro andar. Depois, desististe da nova vivenda para a qual já compraras o terreno e adquiriste novo apartamento: “tens dinheiro a mais” – comentei, cheia de pena de te ver partir, mas continuámos perto.

Agora estamos irremediavelmente longe.

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento 
digo-te adeus 
e como um adolescente 
tropeço de ternura 
por ti

                      Alexandre O’Neill, Adeus Português

Sei que escolheste vestir branco. Comprei-te o  bouquet de rosas cor-de-rosa.

É sábado, vou a Casal dos Claros.

Até sempre, amiga.

2 comentários:

  1. Como custa a partida daqueles de quem gostamos!
    Beijos desta outra G.

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  2. Doi. Quando regressava, após a cerimónia fúnebre, só pensava nas pequenas coisas que não voltaremos a fazer juntas: apanhar maçãs no pomar, colher flores no jardim da tia,os passeios a Casal dos Claros, os chás em minha casa e na dela... Não pelos atos em si, nem tão pouco pelo que resultou deles, mas pela cumplicidade, pela alegria com que fizemos aquelas coisas sem importância, às vezes até tolas, de que se faz uma amizade e pelo prazer que sentíamos a fazê-las.
    Durante muitos anos passámos o Carnaval juntas. Este, infelizmente, também.
    E senti-me pobre, mais pobre de afetos.

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