quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

ACABARAM-SE AS PAGELAS


Depois de dias a fio em que a chuva teimosamente caiu, o dia amanheceu radioso e eu desci até à margem do rio. A água corria num turbilhão e detive-me a olhá-la junto ao açude, local que tantos passeios mereceu a meu pai, em busca do meu irmão adolescente, com o fim de o desmobilizar dos banhos naquela zona perigosa, onde tantos morreram afogados. “Se um dia te apanho a tomar banho no rio, pego na roupa e, para tua vergonha, atravessas a cidade todo nu, à minha frente” Pois bem, o meu irmão nunca foi apanhado, mas lá que tomava banho no rio com os amigos, era inegável, até há uma foto que confirma o facto.

O humor não era dos melhores. Estava num daqueles dias em que me apeteciam palavras, palavras que me mimassem a alma. Mesmo assim brinquei comigo: “dizes tantas vezes que te apetece atirar ao rio, por que não aproveitas hoje?” “Pois! Agora não me apetece. Amanhã. Pode ser que então conjugue a ocasião com a vontade. Além de que molharia o cabelo e acabaria descabelada no jantar dos Rotários.”

Continuei o passeio, agora considerando-me sem imaginação para me arranjar para o jantar dessa noite, onde teria de representar a associação por impedimento da presidente e estendendo os olhos pelo Marachão, ainda do outro lado da estrada, divisei as apóstolas de Jeová. “Para que nada me falte…”- remoí antipaticamente entre dentes.  

Caminhando em sentidos diferentes, depressa nos cruzámos. “Gosta de ler?” – sem que respondesse concluiu que sim e em vez da pagela ofereceu-me a revista-. “Não é a filha da dona Amélia?”- perguntou a mais velha acercando-se sorridente.  “Sim, esse é o nome de minha mãe”, “não me diga que é a Isabel”, exclamou a outra. Sim, eu era a Isabel, que jurava afincadamente nunca ter visto as duas pessoas que me interpelavam . “Ah! Eu sou a Clara”- e eis-me apertada num abraço daqueles que nos fazem expelir os pulmões pela boca – “Ah, és a Isabel!”- e afrouxou o abraço para me olhar – “ Deixa-me tratar-te por tu” – e vá de me apertar de novo.  Sorri. Teria hipótese de não deixar? Mas isso também não me preocupava, o que era o tratamento por tu depois daquele abraço?! E os neurónios em curto-circuito: Quem eram?

“Não consigo lembrar-me de si, Clara…” “Ah! E da Joaquina lembras-te?”, “Se lembro… Se é que estamos a falar da mesma pessoa. Quantas birras me aturou!” – respondi recordando a primeira empregada doméstica a trabalhar em casa de meus pais, de que tenho memória e mulher incontornável na minha vida, que um aneurisma levara-a cedo. “Eu sou a irmã mais nova. Adorava a tua mãe. Sempre que ia a tua casa ela dava-me de comer e uma moeda.” Como poderia lembrar-me?! Os seis anos que tem a mais que eu, eram à época muito tempo. A vida obrigara-a a trabalhar cedo, enquanto eu passava o tempo a brincar no quintal. Conversámos um bocado e fiquei também a saber que a companheira que com ela apostolava era viúva de um funcionário da CP, dos que compõem a linha.

Voltei a casa, ironizando: “não te apetecia mimo? Pois hoje não te podes queixar que te faltasse…” e ria pensando que a minha amiga T.V. pagaria para ter assistido à cena e até seria útil, para comprovar que  eu não conheço toda a gente, como ela assegura, que, na verdade, o que acontece é que muita gente me conhece, alguns por mérito meu, a maioria por conta de minha mãe, outros por conta da Carma, como haveria de descobrir posteriormente.

Dias depois, numa tarde de sol, voltei ao rio. Elas lá estavam no Marachão, desta vez sentadas num dos muitos bancos distribuidos ao longo do rio. Lanchavam. Beijinhos para aqui, beijinhos para acolá, “A mãe como está?”, “Queres bolachas? Come aqui connosco.” E insistiam. Eu que não, muito obrigada, nem me apetecia, queria andar e depois de dois dedos de conversa, afastei-me.

Caminhava sem conseguir furtar-me à triste conclusão de que aquelas duas criaturas não me tendo perguntado se gostava de ler, não me tendo oferecido a revista, nem sequer a pagela, já me sabiam um caso perdido. Iria para o inferno, irremediavelmente.

“Deixa lá…  - consolei-me - Acabaram-se as pagelas, mas há bolacha Maria. Já só falta o chá.”

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