quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O QUE AS AVÓS FAZEM

O André será o Feiticeiro Verde, na Festa de Natal. “Só poderia ser o Verde” – pensou esta avó e abismou-se em divagações sem ouvir que a filha pretendia ideias para o fato. Pela NET poder-se-iam encomendar fatos de todas as cores, menos verde. E a avó achou natural. As preocupações da filha eram mais palpáveis. Que modelo confeccionar? Que tecido comprar?

A avó desceu das nuvens. O neto explicou que o Feiticeiro Verde, no fim, roubava o ouro todo. A avó achou a história duvidosa e pensou que isso só poderia aconteceu por uma boa causa, mas não insistiu e sugeriu uma capa de cetim verde com luas e estrelas amarelas e, completando o conjunto, um chapéu bicudo, igualmente verde, decorado com os mesmos motivos.

A filha acalmou. O neto foi para o colégio. Os dias dessa semana cumpriram-se tão iguais como se vêm cumprindo desde Setembro.

No fim-de-semana, quando reparou no número de chamadas da filha que não atendera, apercebeu-se que haveria pânico. Já equipada para apagar o fogo, ligou. A filha pretendia saber que porção de tecido deveria adquirir, mas já havia feito a compra.

Foi assim que, na semana passada, me confrontei com cetim verde e amarelo em quantidade suficiente para uma capa para o neto e um tailleur para a avó. Armei-me de tesoura, cortei a capa, alinhavei a lua e as estrelas depois de coladas em entretela e deixei tudo pronto para entregar à costureira que faria o resto. Por resto entenda-se coser as estrelas e as luas a ponto ziguezague, debruar a capa a amarelo e colocar uma tira no pescoço com tamanho suficiente para dar um laço, que deveria ainda levar uma estrela em cada ponta.

Novo fim-de-semana. Novo pânico. Mais telefonemas. “A senhora do atelier do Continente, não faz a capa, porque dá muito trabalho. Se eu pedir a máquina emprestada à F., tu fazes a capa do André?” “Eu?!” – balbuciei – “Nunca cosi numa máquina dessas.” Em minha casa existe uma máquina de costura de marca Singer que pertenceu à minha avó Isabel, peça antigamente obrigatória no enxoval das noivas e que perfaz actualmente mais de cem anos, único objecto onde, tirando as bicicletas, alguma vez pedalei. “Se a F. é capaz, tu também és”.

E acrescida a tarefa de costureira, não prevista, ao meu actual “contrato de trabalho”, apresentei-me esta Segunda-feira ao serviço.

Estes dias, não só me tenho passeado com a Rita entre a montra de brinquedos, que são as prateleiras da estante do quarto do André e a paisagem da janela da cozinha, de onde se avista um ou outro Bob, como confeccionei a capa do feiticeiro verde mais bonito do mundo, do meu mundo de afectos.

Eu nem sabia que era tão habilidosa!

Ainda falta o chapéu (SOCORRO!!!!!!)

Nota de autor: Bob (plural: Bobs) é a designação pela qual, em léxico familiar, são conhecidos os trabalhadores da construção civil. A autoria do vocábulo é da responsabilidade do André, por analogia com a Banda Desenhada que, em tempos, fez os seus encantos. Para mais informações consultar o próprio, que a cultura da avó não passa de uma amálgama de saberes aglutinados uns com saliva, outros com cola de sapateiro. O assunto em questão pertence ao primeiro grupo.

4 comentários:

  1. Se pelos filhos somos capazes de tudo, pelos netos... não posso falar.
    Parabéns à prendada costureirinha!
    :)

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  2. Fiz coisas assim, para meu único filho. Com certeza farei o mesmo para os netos.

    Tornamo-nos habilidosas, pela mágica do amor...porcerto!

    Um beijo, Isabel

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  3. Olá, Rui.

    Que bom lê-lo aqui!
    Filhas e netos?! Não amo mais uns que outros. Amo de maneira diferente. O amor às filhas foi a minha prioridade na vida. O amor aos netos é um bónus que não precisa de ser gerido. Há quem se preocupe (os pais) em gerir os afectos, em educar. Eu posso ser criança e brincar, posso substituir a mãe e acalentar, posso ser cúmplice sem deseducar.
    Ainda esta manhã, estava deitada e ouvi a mãe ordenar ao André que se vestisse depressa para ir para o colégio. Saltei da cama e fui ao quarto perguntar-lhe se queria ajuda: "vamos vestir depressa para a mãe não ralhar". Quando acabámos, deslizava sorrateiramente para o meu quarto quando ouvi a minha filha: "escusas de ir a fugir que eu bem te vi". O amor aos netos é feito destas e de outras tontarias semelhantes que nos aquecem o peito. Já imaginou ficar feliz porque "alguém" lhe pede para lhe lavar os dentes?

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  4. Olá, Lúcia.

    Bem-vinda seja!

    Tenho a certeza que fará coisas lindas para os seus netos quando chegar a altura.

    Os netos possuem todos uma varinha de condão com a qual descobrem em nós potencialidades que desconhecíamos. É um amor que nos dá asas.

    Um beijo.

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