sexta-feira, 1 de março de 2013

FOI HOJE


Há muito que me apetecia sol e mar, cumprir a lonjura no marulhar fininho das ondas, caminhando pela areia, desafiando-lhes a espuma, que se desfaria a meus pés.

Não aconteceu terça-feira, por conta da Rita. Foi hoje. Ainda pensei convidar uma amiga, mas desisti. A amiga atravessa uma fase diferente da vida e é daquelas pessoas que enquanto não se adaptam, hostilizam quem as rodeia. Compreendo-a e aceito isso, pacientemente. Espero que lhe passe. Ela há de descobrir o ponto de equilíbrio. Eu hoje queria harmonia, precisava da harmonia daquela forma arredondada, tão recetiva da baía, qual útero materno, capaz de abrigar, para depois parir para as incertezas da vida todos que a ela se acolham, por aquela cloaca enorme que a barra, lá longe, onde ruge o mar, nos sugere, falando de incerteza, de desconhecido.

Conduzindo pela autoestrada, pareceu-me que a orla marítima estaria enublada mas, em vez de desanimar, mantive-me expectante. Galgava a distância em busca da luz, apetecia-me o reflexo do sol sobre o mar, tal como naquele poema que a adolescência escrevera: “Quero perscrutar o teu olhar e ver-me nele como o reflexo do sol sobre o mar”. Sonho de menina que se alongou no possível: este mar espelhado, vestido de prata, numa tarde de sol.

Desde Leiria, percorri os cerca de cinquenta quilómetros na companhia de Rodrigo Leão. Ah, aquela faixa dez! E eu imagino-me a abrir essa "Janela", estendendo os olhos por uma seara de trigo salpicada de papoulas e malmequeres. Deixo a janela aberta ao sol e saio, embrenhando-me campo fora. Ao que vou, não sei, talvez apanhar malmequeres e papoulas para florir a espiga dos Maios da minha infância. E a faixa tocou uma e outra vez e a seara ondulava ao sopro da minha imaginação…

Eis S. Martinho ensolarado, numa tarde magnífica. Arrumei o carro na marginal e dei a mão a Praxágora. As duas fizemo-nos à areia, caminhando pela borda da concha, naquele diálogo inventado quatro séculos antes da contagem dos que vivemos e ainda assim tão atual. “Ah! – desabafei – se conseguir cumprir-te nos dez ensaios de que disponho, considero-me a maior atriz da minha rua.” Praxágora riu-se: “Não há lá mais nenhuma…” “Por isso mesmo. Não pretenderias que insultasse, fosse quem fosse, com a minha fragilidade cénica e a ausência da professora”.

Sentei-me depois na esplanada do Bohémia e merendei. “Tenho de ir embora” – pensava – “mas tenho de ir embora porquê? Tenho algum compromisso, para além das rotinas inconsequentes com que entretenho o tempo?” Não, não tinha.

E deixei-me ficar até que o vento frio me mandou embora.


5 comentários:

  1. Adoro a praia mas há-de ser no verão!...

    Beijinhos com sabor a maresia.

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    1. Eu adoro praia, todo o ano,com chuva, com sol, com vento, com nevoeiro... pois em cada época tem um cariz diferente.

      A praia deserta materializa a minha distância pessoal, na perspetiva de Eduard T. Wall. E crê que S. Martinho na tarde de hoje estava inexcedível.

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  2. A mim, foi hoje, que me deu para ir ver o mar. Metemo-nos no carro, eu e a Zaida, umas compras no LIDL, antes de mais nada, e lá fomos a caminho do mar. Dou comigo a guiar com a intenção de encarrilar pela A8.
    No último instante decidi que não ia pela autoestrada. De modo que segui pela estrada que vai da Azoia para Pataias, daí à estrada da Nazaré, virei para a estrada das matas, antes de chegar às Paredes, apanhámos umas pinhas para poupar nas acendalhas (quer dizer, talvez não tenha sido por isso, apeteceu-nos tomar um pouco de ar do pinhal, um misto de ar marítimo, de mimosas, de musgo, de pinhas, de caminhos florestais em terra batida, de carradas de caruma, de miríades de flores pequeninas, azuis, a despontarem nesta primavera que aí vem, ...).

    E aí estava o Mar!
    Paredes e os seus miradouros! E o mar e infinitas perspetivas fotográficas!...
    A tarde estava a cair sobre o Atlântico!
    Há tanto tempo que não via o mar! Como é possível?!

    Registei muitas e repetidas - sem serem as mesmas - vistas panorâmicas sobre este mar inigualável desta Costa Oeste, deste Pinhal Litoral.

    Foram duas horas que passaram num instante...

    Acabámos por não ir ao Pedrógão!...

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    1. Olá, António.
      Pedrógão ou Paredes?! E o mar é o mesmo. Que bom terem passado essas horas fabulosas em que o tempo se esqueceu de vos lembrar que passava. :)) E que bela a forma como descreve essas horas!
      Muito obrigada pelo comentário.

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  3. Olá, Isabel.

    É que a minha ideia inicial era ir ao Pedrógão. Mas...e a Zaida que deu em embirrar, agora, com o Pedrógão; que já não lhe diz nada...

    O Pedrógão da sua memória não é este...

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