quinta-feira, 23 de junho de 2011

O DIA DOS PRODÍGIOS

A Isabel regressara de férias e com o seu regresso findara a minha obrigação de presidir interinamente à Junta de Freguesia.

Entregue a “pasta”, na manhã de terça-feira, rumei a S. Martinho do Porto. Foram quinze dias tão “entretidos”, tão trabalhosos, que nem sequer me apetecia “entreter o tempo” como sugere Mário de Sá-Carneiro ao relatar o amor louco de Raul Vilar por Marcela. Quem leu A Loucura lembrar-se-á deste binómio entreter-se/entreter o tempo? Que pormenores me prendem a atenção! Bom, eu precisava de parar o mundo e sair um bocadinho (a quem pertence a ideia? A um dramaturgo francês de que não me lembro o nome), repousando os olhos na vida, absorvendo-a devagarinho, gota a gota, que os últimos tempos foram excessivos. Muito movimento para quem, como eu, gosta de saborear a vida gole a gole, cheirar, adivinhar aromas, apalpar texturas, como quem se regala com um bom vinho. A preocupação não é quanto, mas o quê!

Estava baixa-mar. Já sabia quando saí de casa. Tinha consultado o horário das marés na NET, na semana anterior – sonho antecipado – portanto a alteração não seria grande em relação ao horário conhecido. Confirmou-se.

Passeei-me pela praia, de ponta a ponta, com a despreocupação de quem se equilibra na borda da concha onde guarda a vida que sabe que é sua, como um tesouro aberto à vista de todos que sabe que ninguém vê. Estava sol, mas havia vento. Em S. Martinho sopra quase sempre um vento bom para me desatar os nós do pensamento e me restituir a sensação de liberdade, que a cadência das horas tantas vezes me rouba.

Alma liberta, regressei ao mundo. A esfera voltou a girar.

Foi a meio da tarde, através do telemóvel: “estamos aqui, queremos ver-te”. “Aqui, onde?”. “À tua porta”. E fui de imediato.

Um encontro rápido, vertiginoso, apetecido, conversa louca e num instante quantos anos tínhamos? O tempo a andar sem tino em qualquer direcção…

“Trazemos a tua prenda de anos.” “Onde vão os meus anos…” – contrapus. “Não nos vimos na altura, veio hoje” “Qualquer tempo é bom para mimos… (como se de mimos não tivesse havido já fartura)” e abri o presente.

Da caixa saiu um relógio. Um relógio daqueles que me arrancam sempre um sorriso, daqueles que por brincadeira classifico como “próprios para pessoas inteligentes”: um mostrador negro e dois ponteiros, sem pontinhos que indicassem as horas. Basta um leve conflito com a amplitude, um olhar de lado, uma distracção enviesada e o tempo será o nosso tempo…

“Como tal prenda me assenta bem!” – ri-me – “Nem sei ver as horas neste relógio! Que boa desculpa para não chegar a horas a lado nenhum!”

Quando me aposentei, farta de correr à frente das horas, pus em cada relógio um tempo diferente. Que importavam as horas? Mais minuto, menos minuto tanto faria. Haviam cessado as obrigações e com elas os horários rígidos.

Partiram e voltei à Junta. O Tó Lis, um dos vogais, fazia cinquenta e cinco anos, quis juntar a minha voz ao coro das felicitações.

Quando entrei, uma das funcionárias reparou: “Que lindo CK traz no pulso!” “Bonito será, mas não tem horas” – respondi e ri-me, inexplicavelmente é o único relógio que possuo a marcar o tempo certo.

O tempo certo dos afectos.

Terça-feira, foi o dia dos prodígios.

8 comentários:

  1. Gosto dessa "sua praia" de S. Martinho... muito mais que qualquer relógio.
    :)

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  2. Os relógios, marcando o tempo, marcam a vida.Uns fazem-no em discreto,outros em contínuo - curiosamente,à semelhança da própria vida - cheia de infinitos momentos discretos,transforma-se num contínuo que termina discreto.

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  3. S. Martinho é e será sempre um estado de alma. Só quem sentiu o vento gelado das manhãs frias de Inverno, nas férias do Natal ou molhou os pés quando, no equinócio de Dezembro, na estrada do cais as águas da praia do Túnel e as da Baía se abraçam, é capaz de sentir essa magia.
    S, Martinho sem gente na praia, com o areal todo só para nós, para despirmos a mente e gritar ao vento...

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  4. Olímpio:"Que seja infinito enquanto dure"

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  5. Se não for imortal, posto que é chama
    Que seja imortal pelo calor que emana.

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  6. Se não usares o relógio preto se números, dá-mo que eu gosto...
    Que ingrata foste para quem te presenteou...

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  7. Carol: Eu gosto do relógio. As horas são irrelevantes!

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