terça-feira, 28 de junho de 2011

OS MEUS RELÓGIOS

Meu tio Manuel Leitão, por qualquer motivo que não lembro, até poderia ter sido para “matar saudades”, pois também acontecia, deslocara-se do Ramalhal a Leiria e pernoitara em nossa casa.

De manhã bem cedo levantei-me e em vez de ir direita ao quarto dos meus pais, como era hábito, resolvi aproveitar os mimos do tio. Ele usava um relógio de bolso que me fascinava. “Sabes ver as horas?” Teria seis anos. Não, não sabia e o tio Manuel pacientemente, num bocadinho, ensinou-me. Lembro-me tão bem… “cada bocadinho destes que o ponteiro grande anda são cinco minutos…”, dizia ele apontando para o relógio que eu segurava na mão. E a minha mãe a chamar: ” Não aborreças o teu tio. Ainda é muito cedo, volta para a cama.”

Era fácil contar de cinco em cinco e aprendi num instantinho, além do mais o relógio era lindo, com aquela corrente comprida que se prendia na casa do colete para não se perder o relógio, que vivia aconchegado num bolso pequenino.

Mas, dona e senhora de um relógio, só fui quando concluí a escola primária. A minha avó Isabel, era sempre a minha avó Isabel que se encarregava de me estragar com mimos, como prémio de tanto brilhantismo evidenciado no exame oral, decidira entregar ao meu pai determinada quantia para que ele adquirisse o relógio que ela pretendia oferecer-me. O meu pai, com a visão economicista que sempre o caracterizou, em vez de comprar o relógio de que fora encarregado, comprou um barato e devolveu o troco. Um Cauny, nada bonito que serviria muito bem “para estragar”.

Não sei se à época haveria muito por onde escolher, mas sei que me sentia orgulhosa com a prenda e feliz por ser dona do tempo, mas também achava o relógio feio, porque o sonhara de mostrador quadrangular e bracelete branca e não circular como aquele, que ainda por cima tinha a bracelete preta.

Durou anos a fio, o meu Cauny e ainda repousa no fundo de uma gaveta, que eu não sou de descuidar os meus presentes.

Hoje, tenho relógios de vários feitios, inclusive de bolso, como o do meu tio Manuel. Nada de grande valor, porque o tempo é tão traiçoeiro que não merece mordomias.

Há anos, para entreter o tempo, bordei alguns. Mandei colocar as máquinas e pendurei-os na parede. Calei o de capela que veio de casa de minha avó Isabel, silenciei o de cucu que só canta horas a pedido do André e são estes que marcam o tempo que me apetece.





15 comentários:

  1. Quando fiz a quarta classe também recebi de prenda um relógio Cauny, quadrado e de 17 rubis. Uma máquina!
    Hoje, ao recordá-lo, ainda o vejo a brilhar...

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  2. Sua mãos de fada:)


    E estão todos com a hora certa:)

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  3. Olá M.
    No meu imaginário, as mãos de fada são leves e ternas, só fazem carícias. Obrigada pelo elogio, embora não perceba por que motivo o mereça. :)

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  4. Olá, Rui.
    Tanto rubi faria um anel maravilhoso! :) Não sei quantos teria o meu Cauny, ainda hei-de pesquisar.

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  5. Meu primeiríssimo relógio: oferecido em vida por meu avô, pouco antes da sua morte, tinha eu dois anos.É um Longines, de bolso, que fôra oferta de meu bisavô.Meu primeiro: oferta de meu pai quando fui para a pré-primária - fôra também o seu primeiro relógio, pela mesma ocasião!...é um Zenith. Ambos trabalham e são os mais inestimáveis de uma pequena colecção.Boas memórias!! e, ...Sempre o tempo... sempre sem tempo.

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  6. Olá, Olímpio.
    Isso é que são privilégios...
    Gente "fina" é outra coisa! Mas com certeza não o deixaram usar esses relógios enquanto menino, ou deixaram?

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  7. Absolutamente!-Os privilégios do afecto, do carinho,do amor, da tradição, da memória,da responsabilidade...- Uma riqueza!
    Quanto ao "fina", não amofina nem desatina, muito menos empina - é um puro adjectivo, como tal,puramente subjectivo. Não será? (LOL -que raio
    de sigla!)
    Obs. o relógio de pulso, comecei logo a usá-lo!E nunca mais cheguei atrasado, onde quer que fosse! (Sempre o tempo...)

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  8. Parabéns Isabel.
    Como me vais habituando com a tua escrita bonita e agradabilíssima de ler uma vez mais assunto sério que decerto a todos marcou o 1º relógio.
    A única mas mesmo a única peça pertencente a meu pai. Foi o meu relógio e decerto ninguém quer tanto a um relógio como eu ao meu.
    Meu pai homem que sempre conheci doente (morreu quando eu tinha 5 anos) ainda em vida deixou aos 3 filhos o que ele mais valorizava. Entre isso e como única recordação que tenho dele foi o seu relógio que também repousa desmontado mas acondicionado na gaveta de cabeceira.
    Dizia-me que quando morresse eu herdaria o que ele mais gostava o relógio
    E assim todos os dias lhe perguntava quando morria. Adoro o meu relógio mas queria ter o meu pai. E lhe perguntaria constantemente que horas são para que ele olhasse no meu relógio.

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  9. [...]perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
    a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
    a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são;
    e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,
    hão de vos responder: É hora de se embriagar!
    Para não serdes os martirizados escravos do Tempo,
    embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
    De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha...
    Fernando Pessoa

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  10. Olá, Zozézito:
    Que melhor prenda poderias ter do ter pai do que o afecto que te dedicou? Esse relógio serve para lembrá-lo? Não acredito. Porque se isso fosse verdade só te lembrarias do teu pai quando olhasse o relógio e eu tenho a certeza que olhas o relógio quando te lembras do teu pai. As pessoas que amamos vivem nos nossos corações.

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  11. Olá, euchavi.
    De poesia! Embriaguemo-nos de poesia! Com dois goles de bom vinho para soltar a palavra e uma réstia de virtude para travar a paixão... Depois... esqueçamos tudo e estampemo-nos a "cento e cem" na primeira curva (lol)

    PS. Experimente e diga-me se a receita resulta. :)

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  12. Um dia perguntei ao tempo
    De que tempo eu disponha
    O tempo sábio que é
    Respondeu que era tempo
    Para viver o que sou
    Porque o tempo é constante
    E quem pára no tempo morre
    Quem voa no tempo corre
    Porque o tempo não mudou
    Será que o tempo passou?
    Mas sendo o tempo constante
    Quero dele ser um amante
    Quero amar quem não amou
    E viver tal como sou.
    jluis

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  13. O tempo perguntou ao Tempo
    Quanto tempo o Tempo tem
    O Tempo respondeu ao tempo
    Que o Tempo tem tanto tempo
    Quanto tempo o tempo tem.-

    Pois o tempo tem-no alguém
    Mas o Tempo não é de ninguém.

    (quadra popular adaptada)

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  14. Olá, ESpeCiaLmente GaSPaS. (Uf, custa a escrever!!! :))

    Bem-vinda ao meu sítio. Muito obrigada pelo comentário aos meus relógios. Apareça mais vezes.

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