sábado, 15 de outubro de 2011

O TICO E O TECO

As minhas bonecas nunca tiveram nome. Foram simplesmente as minhas bonecas. Com a maior de que me lembro, comprada pelo meu pai, porque muitas outras tive antes e depois, usava a meias a linda touca cor-de-rosa que a madrinha Elisa me confeccionou em tricote. Finou-se a boneca, que pelo desenho do cabelo até seria um boneco, com o primeiro banho que lhe dei. Era em cartão, como grande parte das outras e do que aconteceu à touca nem tenho memória.

Só muitos anos mais tarde, já adulta e mãe, cuidando do afecto e do imaginário de duas criancinhas, senti necessidade de dar nome às coisas. O canário que celebrava a nossa entrada em casa, cantando enquanto subíamos as escadas do rés-do-chão até ao primeiro andar, chamava-se Chiquinho Pirilau. O relógio impiedoso que nos punha fora da cama todas as manhãs foi carinhosamente apelidado de Joquinha, era lindo, cor de laranja, com duas enormes campânulas. A Soneca e Tonico formaram o casal de piriquitos de quem estoicamente limpei o lixo anos a fio. Esqueci o nome dos peixes e de tudo o mais.

As crianças cresceram, mas o hábito mantém-se.

O GPS é o “Jaquinzinho”. Passeamos juntos muitas vezes, mas não são raras as alturas, lá pela capital, em que me diz que vire à direita e tenho de voltar à esquerda, no sítio indicado… Homens!

E até os dois únicos neurónios que possuo estão personalizados: o Tico e o Teco.




O Tico e o Teco são dois amigos inseparáveis. Moram porta com porta e não vivem um sem o outro.

Nasceram para pensar. As mãos, os ouvidos, o nariz, a boca e os olhos estão sempre a fazer perguntas, muitas, muitas perguntas e nem se apercebem que as fazem, porque o Tico e o Teco são muito, muito rápidos a responder.

As pessoas quando falam connosco também exigem respostas mesmo que não façam perguntas. O senhor passou e disse: “Bom dia” E o Tico e o Teco disseram à boca que a resposta seria “Bom dia” e não outra coisa qualquer.

É isto que é pensar. Encontrar as respostas para as perguntas que a vida nos está sempre a colocar mesmo quando se esquece do ponto de interrogação.

Ah! Mas não se pense que isto de encontrar respostas é assim tão fácil como parece. Às vezes, mesmo muitas vezes, custa mais entender as perguntas do que dar as respostas.

Pois o Tico e o Teco, quando se viam atrapalhados quer com as perguntas quer com as respostas, ordenavam imediatamente aos cantos da boca que se levantassem para que esta sorrisse, pois mal por mal chegaria eles andarem “às aranhas” sem saberem resolver a situação, não era preciso a cara… ficar com cara de pau.

E, entre um riso e outro, a cara convencia-se que estava contente e o Tico e o Teco arranjavam um tempinho extra para entender as perguntas, consultar as enciclopédias da cabeça, remendar o coração e dar respostas acertadas às questões.

Mas outro dia… Sabem o que aconteceu outro dia?

A vida ameaçou com um pinote, coisa pequena, de somenos, mas o Tico e o Teco estavam em dia não.

É que nem todos os dias são iguais. Há dias em que estamos de seda, muito frágeis, muito sensíveis, com o coração à flor da pele e mal se carrega dói logo. É tal e qual como quando se espeta o indicador numa nódoa negra: ”Dói-te aqui?” E dói que se farta!

O Tico e o Teco estavam num desses dias. O Tico encolheu-se muito dorido, ficou pequenino, pequenino, quase sumiu, só lhe apetecia chorar e o Teco só refilava, refilava “que não podia ser” “que estava farto” “não faltava mais nada”. Um perfeito desatino.

Assim o Tico e o Teco ficaram em curto-circuito, de tão amigos e certinhos, deram em desafinar. Cada um a puxar para seu lado, faziam lembrar aquela história dos burros teimosos presos num ponto equidistante de dois fardos de palha diametralmente opostos. Até que a dona da cabeça, farta de tanta confusão num copo de água, resolveu acabar com a barulheira: “mas afinal o que é isso comparado com o RAIO da terra?”

O Tico e o Teco quando ouviram a palavra raio pronunciada daquela maneira puseram-se logo em sentido com medo que estivesse prestes a ribombar um trovão.

“Quero juízo na cabeça!” – disse a dona da cabeça que já tinha os miolos a ferver.

O Tico e o Teco olharam um para o outro e sorriram. “É mais fácil sorrir do que andar zangado” disse o Teco “e até é mais bonito” disse o Tico.

A Isabel, que era a dona da cabeça, foi comer marmelada sem pão.

E acabou a confusão.

14 comentários:

  1. lol

    Até a modéstia fica bem em ti:)

    Tens aqui uma belo texto de vida. Uma vida bem humorada, pelo menos vista pela sua agente...lol. E com uma moral final!!!

    Viver é complicado. Menos para que o saber fazer bem...

    Um dia quero crescer como tu:)

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  2. Comoves-me M.

    O Tico gosta muito de pisar o risco. Puxo-lhe as orelhas, mas não toma ensino :)

    Tu és grande M.! És um Éme Maiúsculo!

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  3. Dois neurónios?!... Eu só tenho UM!!! Ao menos assim não tenho desses problemas...

    E, já agora, Jaquinzinho é nome de carapau, não é de GPS!

    Beijinhos, ó bem disposta!

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  4. Também tive em tempos um canário. Não tinha nome mas cantava bem. Cá em casa todos gostávamos dele, até a gata...
    :(
    Duvido que ela preferisse a marmelada... mesmo sem pão.
    :)

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  5. "carol",
    Tens alguma coisa contra os carapaus? O meu Jaquinzinho é um "doce". Não ralha porque ando depressa ou porque vou devagar, porque travo e deveria acelerar e nem amua quando me sugere que vire à esquerda ou à direita e eu respondo "isso querias tu, mas não me apetece".

    Acho que deverias comprar outro neurónio. Até os neurónios para funcionarem bem precisam de contraditório. Só um é pouco.

    Beijinhos também para ti.

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  6. Olá, Rui.

    Não posso crer que deixou a gata comer o canário! Ao menos a bicha ficou a miar em si bemol?

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  7. Oi Izabel encantador seu post.Aqui em casa tem muito canários mas vivem soltos.Beijos e ótima semana.

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  8. Olá Isabel!

    Tenho-lhe feito imensas visitas, escrito comentários, mas nunca consegui que nenhum entrasse----porquê,...não sei ....vamos vêr se é hoje que tenho esse prazer!!!...

    Primeiro quero felicitá-la pela maneira tão agradável e cheia de sentimento com que escreve; tenho apreciado imenso textos seus que acho maravilhosos---os meus parabéns Isabel!
    Achei muito curioso esta sua narrativa que fala sobre as suas bonecas---levou-me à minha INFÂNCIA e a recordar que também eu, não batizava as minhas primeiras bonecas...e, precisamente a que recordo com mais saudade...era uma linda boneca com cara de louça e corpo de pano que a minha tia LUÍSA me ofereceu! Que saudades daquela linda carinha tão perfeita e rosadinha!!!...Ainda hoje a revejo com nitidez e ternura; como é possível???!!!...
    Obrigada Isabel por me trazer de volta tão doces e saudáveis recordações.
    Até breve.
    Beijinho da Lena Serrador

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  9. Olá, Smareis.
    Obrigada pelas pelas suas palavras.
    Boa semana também para si.
    Bj

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  10. Olá, Helena.
    E finalmente a jarrinha das flores! Pelos vistos o problema está resolvido.
    Muito obrigada pelas gentis palavras.
    Volte sempre.

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  11. Sim Isabel!

    Finalmente voltou a jarrinha das flores....vamos vêr até quando...por ora estou muito contente!....Já era tempo!...

    Estou apta a comentar as belas prosas...
    Beijinho
    helena

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  12. Nada melhor que marmelada (de preferência caseira, mas também pode ser extra) para pôr um ponto de ordem nas ideias, aquela corrente contínua que, às vezes, nos faz virar à esquerda quando queríamos ir para a direita, lá nos perdemos no caminho!

    E quando se trata de neurónios, tipo bem-me-quer mal-me-quer, a confusão pode ser uma barafunda das antigas...

    Não a tenho visto nas primeiras filas...quer dizer, nos primeiros anúncios de novidades no meu rol de blogues.
    Devo ser eu que ando armado em distraído!

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  13. Olá, António.

    Tem muita razão. "Puxão de orelhas aceite".
    Vou "portar-me bem" de futuro. Prometo.
    Aproveito o ensejo para pedir o livro de reclamações... Tenho sempre dificuldades com o seu blog: a abrir, a comentar e até a encerrar, devido à publicidade que está inerente ao mesmo (penso eu)Não haverá forma de o agilizar? Será aselhice minha?

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  14. Não sou de dar "puxões de orelhas", Isabel, muito menos a quem não as merece, como é o caso. Aliás, ao que eu me referia era não ter dado por novos posts na minha barra lateral do blogue.

    Quanto às reclamações já não é a primeira a exigir o respectivo livro. Ora acontece que não tenho livro de reclamações, já meti uma cunha, de modo que estou à vontade.

    Estou, neste momento, a escrever de Monte Redondo, num ponto de Internet diferente do meu. Não noto nenhuma anomalia. Mas sei que há esse problema de poderem aparecer pop-ups (acho que é asim que se diz) que são flashs de publicidade e outras que tais. Penso que isso tem mais a ver com o facto de haver computadores sem protecção anti-vírus, spywares, etct etc

    A ver vamos!

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