sábado, 4 de maio de 2013

APETECIA-ME


Hoje cheguei ao Lar e a minha mãe estava nas instalações sanitárias. Enquanto aguardava dirigi-me ao bar. A D. Irene, a voluntária que aí faz serviço, justificou o fim da conversa que mantinha com um utente fora do local de trabalho:

- Vou atender esta senhora, que nem sei quem é - depois riu-se e acrescentou - só nos conhecemos há quarenta e um anos.

- Impossível - declarei eu – só tenho trinta e cinco de idade.

- Mas a sua filha mais velha deve ter um pouco mais.

Rendi-me à verdade dos factos. A D. Irene, uma mulher da minha idade, era funcionária da Escola do Magistério Primário de Leiria quando aí fui colocada como professora, mudou-se depois, tal como eu para a Escola Superior de Educação, voltei a encontrá-la quando como aluna frequentei o curso de Solicitadoria na Escola Superior de Tecnologia e Gestão e não sei por que sortilégio persegue-me ainda, no Lar Emanuel, onde já aposentada, faz serviço voluntário.

A minha filha mais velha e o seu são da mesma idade, pois na altura em que nos conhecemos, estávamos as duas irremediavelmente grávidas. Hoje, ela só não lembrou o meu vestido amarelo. Eu tive no verão em que a minha filha nasceu, um vestido de linho amarelo, enfeitado a azul, comprado em Madrid (tempos idos em que havia dinheiro para ir a Madrid, agora nem há para comprar um vestido), que eu usava bem curto, apesar da enorme barriga, equilibrada em cima de uns sapatos brancos às tirinhas, compensados e altíssimos. Se eu caísse do alto dos sapatos, morria antes de chegar ao chão… Aos vinte e um anos eu era uma rapariga elegante e engraçadota (a modéstia é uma coisa maravilhosa…) apesar da barriga estilo bombo de festa e o vestido amarelo era mesmo bonito e sobretudo, embora de grávida, fora do vulgar. A D. Irene sempre que refere esses tempos costuma dizer com voz ternurenta “parece que ainda estou a ver a senhora com o vestido amarelo”, mas hoje escapou-lhe e eu tive pena que lhe tivesse escapado.

Apetecia-me o mimo…


2 comentários:

  1. E a mim, hoje, apeteceu-me deixar aqui um ar da minha "graça"...

    É mesmo só para dizer olá, como vai, Isabel?
    Parece que está a ficar complicado, para mim, regressar do princípio do séc.passado....

    Amanhã diz que é domingo...

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    1. Olá, António. Seja muito bem vindo.

      Andamos todos atrapalhadíssimos com este retorno ao passado. Ninguém sabe como viver. Andamos todos a improvisar.

      Hoje é mesmo domingo. Um dia lindo de sol. Esperemos que ele aqueça os nossos corações para que a palidez da esperança se transmute num verde luminoso.

      Abraço fraterno.

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