quinta-feira, 9 de maio de 2013

JUSTINE


 “Primavera em Paris”: lembro-me vagamente das personagens do filme: Gisèle e  Pierre. Recordo ainda o furo na roda da bicicleta e de algumas peripécias de enamoramento que à mistura com a paisagem escolhida como fundo para essa comédia romântica, puseram Paris no meu imaginário de pré-adolescente. Ah, mas Gisèle, não! Eu tinha uma amiga no Liceu de longas tranças que se chamava Gisela. Gostava da amiga, mas não gostava do nome. Justine… Eu achava que se fosse francesa teria de chamar-me Justine. E o meu cérebro sonhava a brisa daquelas semivogais, seguidas da vogal muda, soprada ao meu ouvido por algum cavaleiro andante, o tal do cavalo verde, que havia de aparecer na curva do caminho: Justine… Justine… Justine… Não havia nada mais melodioso e as folhas das árvores tremelicavam e os passarinhos chilreavam num céu azul luminoso. Tal e qual como num conto de fadas…


Esta manhã, acordei, pouco passava das seis horas. A claridade entrava pela persiana mal fechada da janela do meu quarto e eu senti que tinha um sorriso nos lábios. “Devo ter sonhado com Paris”, pensei. Também eu fora numa primavera a Paris. Na verdade, durmo sempre tão profundamente que só sonho acordada. Ah, e é sempre hora de sonhar… Saltei da cama, fechei a persiana e voltei a deitar-me…

Justine fingindo-se adormecida esperava que a brisa soprasse ao seu ouvido…

Foi a chave na porta que me alertou... O cavalo verde? Não. Eram oito horas, a Carma chegava para mais uma manhã de limpezas… 

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