quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A FESTA DE NOSSA SENHORA DO FETAL


À Janela, em Reguengo do Fetal....



         Como a janela estava trancada, e nós sem meios para a abrir, pusemo-nos ao caminho...



Havia quem fosse armado de máquina fotográfica, mas era só decoração... Era para "dar estilo"...


"A Leste da airosa e pitoresca povoação do Reguengo do Fetal, a dois passos de Leiria, Batalha e Fátima, sobre um gracioso outeiro, donde se pode disfrutar surpreendente panorama, com a concha do Reguengo aos pés e flanqueado pela estrada coleante que das bandas do ocaso conduz a Fátima, encontra-se situado um dos mais devotos e vetustos santuários marianos do centro do País: - Nossa Senhora da Fé ou do Fetal.
A encantadora e ingénua história da origem deste templo corre ainda hoje viva, de boca em boca, entre os moradores e vizinhos desta terra, cheia de gloriosas tradições cristãs.
E reza assim:

Era uma vez uma pastorinha, que apascentava o seu rebanho pelas encostas áridas e ermas do Reguengo. Em ano de grande e apertada estiagem, andava ela, um dia ali no cabeço, onde agora se encontra o santuário de Nossa Senhora, e, vendo-se ela cheiinha de fome, as suas ovelhinhas tísicas de todo, só com pele e osso, sem febra de verdura para retouçar, encheu-se de tristeza e largou-se a chorar.
Erguendo do regaço o rosto magoado e com os olhos inundados de lágrimas, viu com surpresa, no meio dum tufo de fetos, uma estranha Senhora, que lhe falou assim:
- Porque choras tu, minha menina?
- Tenho fome ...
- Vai pedir pão à tua mãe.
- Já lho pedi, mas ela não o tem. 
- Vai a tua casa, - insistiu a Senhora -, e torna a dizer-lhe que te dê pão. Dize-lhe que uma Mulher te mandou dizer-lhe que está pão na arca. 

Efetivamente, verificou-se que a arca estava inexplicavelmente cheia de fresco e saboroso pão, que mais parecia ter sido amanhado por mãos de anjos do que por mãos de hábil padeiro.
Voltando de novo, já satisfeita e alegre ao sítio onde a Senhora lhe aparecera, eis que a pastorinha mais uma vez a pôde ver e com Ela dialogar, recebendo então dos Seus lábios a seguinte mensagem:
- Dize à gente do teu lugar que Eu sou a Mãe de Deus e quero que, no sítio deste fetal, me edifiquem uma ermida, na qual Eu seja louvada e venerada." (www.leiria-fatima.pt/reguengo)

E assim aconteceu… e festeja-se.

A festa acontece em dois fins de semana consecutivos. Este ano também se festejavam os quinhentos anos da povoação.

Assim, no dia 28 de Outubro, São Sebastião subiu em procissão, até à ermida da Senhora e convidou-a a descer a ladeira, para uma estada de oito dias na Igreja Matriz.

A santa saiu da ermida e desceu por um caminho iluminado por luminárias feitas com cascas de caracoletas, até à Igreja Matriz, que se situa no povoado. Neste dia há menos gente, quase só os residentes assistem e tomam parte, no evento religioso.
Dia 6 de outubro, a Santa voltaria ao seu santuário.

A minha amiga Paula propôs-se receber amigos em sua casa, como de costume e eu fui uma das convidadas.

Chegados, para dar tempo à “tia” Paula de se “pôr nos trinques” fomos passear pela aldeia para avaliar o esforço que a população investia na festa.


 Primeira paragem: O largo no centro da população

 Monumento alusivo ao cinquentenário

 A palmeira ergue-se pelo céu adentro e lá no cimo é o ribombar verde de um foguete. E o Rodrigo "Ainda cai. No meio, o tronco está fininho" Mas nem naquele dia, nem naquela noite aconteceu.


A Igreja Matriz. À esquerda havia febras e à direita, no palanque em azul e vermelho, música para dar ao pé...

 No largo, por detrás do monumento, vende-se café da avó. Há ainda  filhós de prato e muitas outras coisas dietéticas...
 No café da sra. Maria, também no largo, vendiam-se velas para a procissão


 Pormenor de uma janela



S. Sebastião, na Igreja Matriz

Nossa Senhora do Fetal - imagem do século XVI - Igreja Matriz


Em que pensaria? A máquina pesaria muito?

Pormenor de uma luminária- na horizontal são fixadas com areia; na vertical com barro fino.

Nada fica por iluminar. Pormenor de umas velhas escadas


Pormenor de um pequeno largo


Pátio do Jardim de Infância. Foi aqui que conheci a sra. Maria, a dona do café onde se vendiam as velas. Meti conversa, para saber pormenores. E não é que a sra. Maria me estragou a festa? Pensava eu que as pessoas enfeitavam a povoação por pura devoção à Virgem e não é que ela disse que havia prémios para a melhor decoração. Não achei graça nenhuma à novidade. 


E sobre os muros...

E sobre as sebes...


O barro fino secara. Repunham-se as luminárias caídas.

No espaço que estas duas fotos documentam, mora a sra. Maria e a família: cerca de três mil caracoletas para os dois dias de procissão. Sim, as luminárias da procissão de sexta-feira, quando a santa desce, não são aproveitadas para o sábado da semana seguinte, quando a santa sobe, porque se queimam. Nesse sábado faz-se tudo de novo.

E vá de subir a ladeira... A Susana? Onde está a Susana?


Esta, foi só porque as flores eram bonitas. :)


O jardim do taxista da Paula

A "pequena" não chega aos pedais, mas lá se equilibra. Pormenor do jardim do taxista da Paula. 
Também trocámos dois dedos de conversa. Fiquei a saber que de Peniche vieram cerca de vinte mil cascas de caracoletas porque as que se apanham nos campos são mais pequenas e por isso não são tão boas.

 O que estariam estes dois a conspirar?

 E chegámos ao cimo do outeiro. Neste espaço realizam-se os festejos de domingo. 
 O santuário de Nossa Senhora do Fetal (uma pequena ermida onde permanece a imagem - ou a sua réplica dado o valor desta - não sei ao certo - durante o ano)
 Gosto de sinos...

 E nem o cemitério escapou ao meu olhar curioso. E o simbolismo desta campa?


A "tia" Paula tinha ordenado o recolher para as dezanove horas. Era hora de descermos.O Paiva fez parar a viatura de um casal idoso: "Muito obrigada por terem  parado, mas nós preferimos ir a pé, para cumprir a penitência." O casal achou piada. Sorte a dele...

Uau! A "tia" Paula já tinha feito a toilette... Eis os sete magníficos. A oitava estava atrás da câmara.


(A foto está tremida, porque fiquei com os olhos em bico)
As entradas já estavam na mesa. E nós não nos fizemos rogados... O pernil estava ótimo (não há quem o faça tão bem como a Paula), a salada de marisco nem se fala, o paté e o queijo da Serra, deliciosos. A massinha de frango, com ananás era especial para a Nini, por conta das alergias e as ovas não provei, mas ouvi dizer que também estavam maravilhosas.
E o que se seguiu? Um bacalhau com os pimentos esquisitos, cujo vaso eu carregara no dia da Feira Medieval da Batalha (os "tormentos" por que a "tia" Paula me faz passar...);  presunto com feijão; etc, etc etc nem digo o resto para não salivarem mais... e aquele doce? "Floresta negra"... que este ano foi confecionado com a ginja daquela garrafita que me tombou na perna?!! Eu também levei uma torta de noz e os figos em calda de que a "tia" gosta muito.
Depois do jantar - dietético - como se adivinha, fomos à procissão.

 Já se acendiam as luminárias, a procissão estava a quase a sair.
Nas sebes
Nos muros... Por todo o lado havia luz, muita luz.





Gente, muita gente. Gente a mais para o meu gosto, o espaço e...  pouca devoção. 

 O pátio do Jardim de Infância


O sítio onde mora a sra. Maria e a família


O jardim do taxista da Paula


A tal "pequena" que não chega com os pés aos pedais...

Pormenor do lado esquerdo em frente do jardim



E os campos ao longe


Finalmente a Senhora chegou ao santuário, à pequena ermida onde permanecerá mais um ano e o céu ribombou em cor






E virou verde. Vestiu-se da esperança de quem pediu à santa algum milagre.

Acabara a procissão e no muro, em frente à ermida, as pessoas começaram a depositar as velas.


Havia imensa gente, mas eu queria ouvir a ladainha e fui entrando na ermida. Os amigos ficaram para trás. Junto à imagem, perto do altar, um coro de vozes femininas cantava e no coro alto, alguns músicos da filarmónica das Cortes acompanhava. Um jovem tocava flauta prodigiosamente e de um lado algumas vozes femininas associavam-se a outras masculinas e respondiam ao coro situado em baixo.

A Paula, a Nídia e a Susana, professoras de História, insurgiram-se contra a inovação, constituída pela  introdução das vozes masculinas, por admitirem que a festa seja a cristianização de um rito à deusa da fertilidade. Que "resmunguice"!

É uma injustiça a foto estar tremida. O senhor de bigode tinha bem colocada a sua bela voz de tenor e o que cá em baixo cantava ao meu lado, também.


Acabou a ladaínha e apareceu o Rodrigo dentro da ermida: "Isabel vamos embora" "Não Rodrigo, ainda falta o terço." E entrei na sacristia, dei esmola à santa e trouxe...


o terço.


Acabou a cerimónia religiosa. Cá em baixo, começava o arraial. A Paula estava cansada. Uns dirigiram-se a casa, outros ainda foram beber um café da avó e, simpaticamente, não se esqueceram de trazer as filhós para quem ficara. 






8 comentários:

  1. Não vou dizer que gosto muito de festas... receio ser mal-entendido.
    :)

    Bela reportagem.

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    1. Como eu o compreendo, Rui!
      Há festas e festas... E de umas, que não destas, até os bichinhos gostam... (como eu costumo dizer)

      Muito obrigada por ter gostado da reportagem. Sou péssima fotógrafa e conclui que é muito difícil fotografar as luminárias acesas. Tenho de perguntar a alguém que entenda de fotografia, possivelmente já ao comentador que se segue.
      Um dos amigos foi equipado com uma máquina decente, só que, quando pretendeu disparar, descobriu que a bateria não estava carregada. Eu, por acaso, já tinha visto um filme parecido, na semana anterior.

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  2. A reportagem não podia ser mais completa e festiva.

    Não consigo descortinar a Isabel. Será que foi ofuscada pela Santa?

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    1. António,eu era o olho curioso atrás da câmara fotográfica.
      À porta da Paula um dos amigos trocou comigo, mas eu preferi publicar a foto em que stão todos eles.
      Sabe-me dizer porque será que algumas fotos ficaram aos riscos de luz. Terei sido eu que tremi? Tremeram as luzes das luminárias? Nas fotos que retratam a decoração dos campos nota-se o que refiro.
      Faltou lá o António com a objetiva em punho como já o vi na cidade.

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    2. Ora vejamos.

      O problema das ditas fotos pode ter origem numa das seguintes hipóteses:

      1- a focagem não foi ajustada ao objeto a fotografar;
      - por vezes convém selecionar a focagem manual;
      2- já há máquinas com estabilizadores mas que, claro, não resolvem tudo;
      2a- o fotógrafo pode ter-se assustado instintivamente com alguma coisa eheh
      3- a resolução das fotos pode não ser a melhor (mas não me parece que possa ser o caso);

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    3. Meu caro amigo,
      Há entre as suas observações algumas escritas em chinês :))
      O problema deve situar-se ao nível da resposta 2a e 3. De onde concluo que não há nada a fazer para melhorar a qualidade dos registos.

      Não pensará também que tenho uma câmara de jeito?! A minha máquina é uma Nikon Cooplix 5200, das primeiras que apareceram e precisa de ir para o arranjo, pois o LCD, se a máquina está ligada muito tempo, fica negro em metade da superfície o que tem as suas vantagens... o que fotografo é sempre uma agradável surpresa, nunca sei bem o que vai sair :)). Traduzindo: deveria substituir a máquina fotográfica, mas acontece que à época, foi (um bocadinho) carota e eu estou cheia de pena de a deitar fora, embora saiba que hoje há, no mercado, preços convidativos. Também ainda não procurei saber se o arranjo valerá a pena. Enfim, sou um desastre de fotografa...

      Muito obrigada pelas suas dicas.
      Bom fim de semana.
      Abraço.

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  3. disfrutar.....????? A leitura parou aqui!

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    1. Olá, Anónimo. Que nome tão original!
      Para desfrutar terá de ir à festa. As cavacas do Fetal também são ótimas. Diferentes de todas as que conheço.
      Entusiasme-se e vá. No próximo ano há mais.

      Ou será que quer ler mais coisas no blog? Para isso terá de clicar sobre "Mensagem antiga" que está mesmo aqui em baixo à direita ou clicar no topo esquerdo por baixo dos seguidores, onde diz"Arquivo do blog". Tente, não custa nada. Se era o que pretendia, espero que se divirta com os textos.

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