segunda-feira, 1 de outubro de 2012

NADA É COMO DANTES


Houve anos, em que a minha vida era uma vertigem. A educação das filhas, inteiramente a meu cargo; a escola com aulas, atualização pedagógica, orientação de grupos de estágio e toda a gama de projetos pedagógicos a acontecerem em simultâneo em diferentes espaços, em que estava sempre na crista da onda, muito antes de a lei falar e impor que se realizassem; a visita diária à dona Julieta – o que eu gostava daquela senhora! – e aos meus pais, onde aproveitada para recolher as ervilhas ou favas que pedira ao meu pai para descascar; fazer comer, com antecipação para que, à hora, as refeições estivessem prontas e passar a ferro a roupa, mantinham-me numa tal atividade que eu nem precisava de ginásio. Sim, tempos houve em que sem carro, fazia aqueles dois quilómetros entre a minha casa e a de meus pais a pé sempre pendurada nuns saltos altos bonitos. Gosto de sapatos. E daí? Nada de espalhafatoso, tipo Chanel, de salto bem alto. E de ouvir o vento assobiar entre as folhas das árvores do caminho que andava. Adoro a sinfonia.

Ainda arranjava tempo para tricotar, fazer renda e até bordar. Muitas foram as tardes de inverno passadas em casa da Maria Albertina, agarrada às agulhas e a tagarelar com as amigas… O Tó fazia-nos o chá e ria-se de nós com o P, marido da L. que contava as anedotas. E a garotada a brincar junto de nós…

Obviamente que ninguém estica os dias e se o tempo faltava roubava horas ao sono. Deitava-me todos os dias quando Deus queria e levantava-me impreterivelmente à seis da manhã, pois começava a trabalhar às oito e nunca me dispensei ao ritual de saborear o leite e a torrada do pequeno-almoço comodamente sentada, seguido do banho matinal e da maquilhagem que só não faço nos dias de praia.

Se o dia-a-dia já não era fácil, imagine-se quando fui estudar para Lisboa. As horas de sono diminuíram drasticamente e a minha casa quase parecia que tinha entrado num sistema de autogestão, mas não. Eu, é que tive muitas noites em que me entendi uma hora ou duas na cama só para esticar os ossos, uma ou outra em que tomei banho e mudei de roupa sem mesmo me deitar, poupando o trabalho de arrumar o quarto. Também aconteceu dormir no sofá. Sentava-me a fazer alguma coisa e acordava de manhã toda torcida e sem ter realizado aquilo a que me propunha. Eu e o sofá, ainda hoje não nos entendemos bem. Se estou cansada, mal me sento, é “tiro e queda” e depois acordo possuída por uma raiva surda de nem ter descansado devidamente, nem ter feito nada aproveitável.

Quem vive sozinho tem hábitos incríveis e eu claro está, não sou exceção. Adorava estudar deitada cama, evitava a dor de costas. Levava os apontamentos lia, relia, escrevinhava o que me apetecia e quando me dispunha a dormir, atirava os cadernos ao ar e gostava de os ouvir cair no chão. “Lá vai o … e dizia o nome do professor de quem os havia tomado – por ares e ventos!” E adormecia na paz do Senhor. O despertador tocava impreterivelmente às seis da manhã.

Em Lisboa tinha uma colega, muito mais velha do que eu, a E. Talvez tivesse a idade que tenho hoje, mas nem faço ideia. Era velha, parecia-me, tal como hoje parecerei a quem está por volta dos quarenta anos. Licenciada em Educação Física e a trabalhar com Airton Senna, tal como o marido, especializava-se também em Supervisão Educativa. Era uma mulher de espírito aberto, simpática, de riso fácil e talvez por isso entendemo-nos depressa. Ela gostava de mim e eu gostava dela. Não sei o que lhe terá acontecido. Acabei perdendo o contacto. Sei que a filha vivia nesse tempo com o irmão de um amigo meu, cantor de profissão, mas sempre que estou com esse amigo sinto um certo pudor de perguntar “que é feito da E. que era mãe daquela outra I. que viveu ou vive com o teu irmão J.?” Meu Deus, isto soa-me como se fosse a maior alcoviteira a devassar a vida de alguém que nem sequer conheço. Por isso nunca perguntei, mas tenho de pensar numa forma simpática de fazê-lo, porque gostaria muito de ter notícias daquela senhora.

Por altura das frequências o caos era total. Eu tentava não faltar às aulas porque aprendia de ouvido, com facilidade e era rápida a compilar apontamentos cheios de esquemas e chavetas, com cores diferentes. Isso facilitava-me a vida, não só a mim como a todos os que gostavam daquela forma de síntese. Mas as frequências exigiam mais preparação. Um dia em que cheguei a Lisboa com cara de quem já não via cama há algum tempo, por alturas da frequência de Administração, a E. interpelou-me “Que aconteceu? Estás tão mal encarada. Estás doente” E eu, do fundo das minhas olheiras que chegavam às orelhas, respondi “deitei-me com o Chiavenato, estou desfeita” (teórico das teorias de gestão e administração). Dispenso-me aos comentários jocosos da minha amiga E. A partir daí, mal chegava a E. perguntava “Isabel, com quem te deitaste ontem?” E eu entrava no jogo e disseram-se muitas tolices cuja finalidade era desanuviar e rir. E conseguimos.

Pois bem E., lá onde estiveres, fica a saber que na quinta-feira passada Ian Mcewan lançou um novo romance, Mel, de seu nome e esta tua amiga, fiel ao gosto de ler as primeiras edições, livre de doutas opiniões de entendidos e desentendidos (o que por norma quase nunca consegue), foi a correr comprá-lo. Na verdade não tão a correr como isso, porque só sexta-feira o conseguiu.

Desde então deita-se com ele todas as noites e mal escorrega pelos lençóis, aconchegam-se e adormecem profundamente, coladinhos um ao outro... Nem uma linha lida, nem força para o atirar ao ar. O que fazem os anos… já nada é como dantes…

Ah! Também já não me aguento em cima daqueles sapatos que faziam corar as tuas sapatilhas…

2 comentários:

  1. Esse Chiavenato era cá um chato!... Também me chateou bastante, mas... nunca dormi com ele... Credo!

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    1. Cada qual tem o que merece... :))

      Acho muito bem que não troques o meu amigo Sidoninho por um calhamaço destes.
      Beijinhos "pós" dois

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