sábado, 29 de dezembro de 2012

ANO NOVO


E o Natal passou. Mais um que aconteceu cumprindo-se em desvelos.

O André veio uma semana antes. Presente antecipado do Pai Natal que atirou com os preparativos culinários para horas habitualmente consideradas impróprias. Não por mim, que tantas vezes trabalhei alongando-me nas horas em que, vulgo, se costuma descansar.

E cozinhei: “para um regimento” – dizem as filhas - que depois se abastecem e levam para suas casas o comer em excesso, poupando-se no trabalho de confecionar algumas refeições. Também eu fico fornecida por uns tempos e, por vezes, até dá para as amigas provarem as iguarias.

“A avó coseu o peru” e todos pensando que o havia cozido não entendiam a admiração… “sim?!” – alguém comentou condescendente. “Com agulha e linha e brincou com as asas; até parecia que o peru dançava” – acrescentou o André. Foi então que se percebeu o espanto. De todos os trabalhos, o André vira rechear o peru e prepará-lo para assar.

Comido o jantar do dia vinte e cinco, começa a debandada. Primeiro parte uma, depois os outros todos. Volto a ficar só. Pela casa parece ter passado o “fim do mundo” e eu começo a arrumar…

E continuo arrumando no dia vinte e seis. Depois cedo lugar à tristeza. Há sempre algo em mim que se não cumpre. São afetos – outros - que me faltam: uns que se foram, porque a vida se há já cumprido, outros porque os não terei merecido. É a nostalgia do Natal: ataca, sacudo-a, adormeço-a e a vida continua, na certeza de que mais ou menos sofrida é o melhor presente que já me foi oferecido.

Ah! Sem presentes de outra ordem. O Pai Natal chegou apressado. Bateu, deixou as prendas na varanda e escapuliu-se. O André bem chamava. Pai Natal! Pai Natal! Este ano nem o vi… – lastimava-se e ele nada, nem para trás olhou. Mas eu gritei-lhe da varanda: Acabe depressa com a crise que eu também quero prendas… Tenho a certeza de que terá ouvido. Sou professora e faço teatro,  falo bem alto!

E chegámos ao fim de mais um ano. Em trezentas e sessenta e seis folhas fomo-nos entretendo a escrever sem borracha. Teremos escrito o melhor que pudemos, tantas vezes angustiados e sempre comprometidos com as decisões que tomámos. E tantas vezes assaltados pela dura sensação de impotência perante as situações em que não dependo só de nós a solução, não conseguimos cativar os outros para ela.

A nível do coletivo ensombramos negra nuvem. A palavra oportunidade, de tão vã, passou a significar demagogia e só um povo de brandos costumes, teimosamente verde, consegue vislumbrar a vontade de continuar a acreditar que o milagre acontece. 

E eu, contagiada pela vontade coletiva de que tudo se resolva a contento também acredito que terei a força, a coragem e discernimento necessários para levar a vida por diante.

Que venham essas trezentas e sessenta e cinco folhas brancas! Cá as espero de lápis afiado, pronta a escrever mais um ano de vida, não como eu gostaria, mas da melhor maneira que for capaz.

Desejo a todos alento e coragem, muita coragem para enfrentarem as vicissitudes que possam surgir, tantas delas devidas a loucuras “outras” que não nossas, mas que nós teremos de sofrer na pele como se de opções nossas fossem a consequência. E acreditem, acreditem que dia a dia o ano cumprir-se-á e havemos de respirar aliviados. Só precisamos de saúde e vontade de viver, o resto virá por acréscimo.

Para vós, os meus votos de um ano de 2013 bem vivido e um abraço solidário.

3 comentários:

  1. «É a nostalgia do Natal» dizes bem! Também a sinto e cava fundo em mim. Mas também, logo sacudo as penas e me levanto impante para enfrentar seja o que for. Logo se vê! O que é preciso é acordar vivo!

    Bom Ano!

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  2. A mensagem não podia ser mais sincera e encorajadora. Muito obrigado.
    Bom Ano!

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  3. O meu abraço fraterno e solidário para todos vós.

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