quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O BEIJO E A LÁGRIMA


Por S.Martinho do Porto, pisando a areia da praia, enquanto a maré descia...





Quero um beijo, pediu ela.

Um sismo
abalou o peito dele.
E devotou o calor
de lava dos seus lábios,
entontecida água na cascata.

Entusiamado,
ele se preparou para, de novo,
duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo.

Mas ela o fez parar.

Só queria um beijo.
Um único beijo para chorar.

Há anos que não pranteava.
E a sua alma se convertia
em areia do deserto.

Encantada,
ela no dedo recolheu a lágrima.
E se repetiu o gesto
com que Deus criou o Oceano.

Mia Couto




2 comentários:

  1. Fiquei um pouco entontecido com este poema.

    Eu já sabia que o Mar salgado tem muita água que são lágrimas de Portugal e aí concordo plenamente.

    Não posso aceitar piamente que o Oceano tenha sido criado por Deus dessa maneira!

    Deus não pode ser tão cruel! ...

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    1. António, as lágrimas e o riso fazem parte da dimensão humana. Situam-se ao mesmo nível e tantas vezes, sendo o oposto se tocam. Nunca lhe aconteceu chorar a rir? Chorar de felicidade? Chorar faz bem. Lava a alma das tristezas que a vida acumula. Resolve os lutos mais depressa.
      Quem me dera a mim chorar mais vezes! Mas em muitas situações sinto que herdei de minha mãe um nó que nos estrangula e fica na garganta quase impedindo o ar de passar. E resistimos estoicamente quando deveríamos chorar as desditas que nos acontecem. Assim os lutos tornam-se muito prolongados e muito sofridos. Sós, sofremos sem que ninguém se aperceba e por isso ninguém nos ajuda a construir as pontes de comunicação que sozinhas não somos capazes de estabelecer e que permitiriam desbloquear a emoção. Se tivesse tido oportunidade de presenciar o que foi a dor de minha mãe quando o meu irmão morreu, percebia bem o que lhe digo. Foi uma dor sem lágrimas, uma dor feita de raiva, que quase tocou as raias da loucura.
      Creia que chorar não é crueldade. Fazer chorar alguém é que é.

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