quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

UMA HISTÓRIA TRISTE DE NATAL


Aconteceu há alguns anos. Foi na primeira noite de Natal que passei sozinha com a filha mais nova. Quem tem a filha mais velha casada com marido de famílias radicadas longe, está sujeita à circunstância de ano sim, ano não, ficar sozinha com a outra.

Nesse ano, arquitetara a ideia de voltar à Missa do Galo, soubera que o Padre Carlos recuperara do último AVC e queria ouvi-lo cantar. Quem não canta, encanta-se com a voz dos outros. Ele fora meu professor anos a fio e trabalháramos juntos na JEC. Cantava muito bem. Gostava de ouvi-lo. Como era bonita aquela canção ”bom dia nada custa…" (acho que é por isso que cumprimento toda a gente). Teria de convencer a Zara a acompanhar-me…

Eu fora à cabeleireira na manhã do dia vinte e quatro. Fui à Lina, cabeleireira que dispunha de um salão situado junto da escola aonde trabalhava. Era o hábito, só sabia caminhar para aquele lado. “Só sei estacionar o carro no pátio da prisão” – brincava eu referindo-me ao Largo Rainha Santa Isabel.

Ao chegar, reparei que esquecera a maçã para comer a meio da manhã e, antes de entrar no salão da cabeleireira, atravessei a rua e fui à mercearia da Alice. Ela estava lá, a dona Amélia. Amélia tal como minha mãe. Uma velhinha muito magra e sumida de anos e solidão. Queixava-se disso mesmo, de solidão. Ia passar a noite só, não tinha família. “Dá-me licença que pague a maçã, antes de a senhora ser atendida?” Que sim, que pagasse e eu saí em passo de corrida, com o coração a ordenar-me que convidasse a dona Amélia para jantar connosco e a inventar desculpas para não o fazer. “Também não vou levar a minha mãe” – a falta de elevador do prédio não permitia elevar a cadeira de rodas até ao segundo andar; possivelmente a P. virá buscá-la – P. era minha amiga, colega de trabalho e proprietária do pequeno apartamento onde morava; quero ir à Missa do Galo e o convite impedirá isso; e só conhecia a dona Amélia de vista; e tantas razões inventei que não a convidei.

A Zara chegou, as horas passaram e depois do jantar fomos à Missa do Galo. Havia pouquíssima gente, estava um frio atroz e o padre Carlos… o padre Carlos mal falava, como poderia cantar? E, no fim, a Zara: “não voltas a querer trazer-me à Missa do Galo, pois não?” “Melhor fora ter convidado a dona Amélia para jantar connosco… “ comentei e contei-lhe o encontro dessa manhã, na loja da Alice – “Pois era. Nós não apanharíamos frio e a velhota ficaria feliz” respondeu a Zara, mas já não havia retorno.

Os dias passaram e quando a Carma retomou o serviço perguntei-lhe pela dona Amélia : “A P. levou-a para jantar na Noite de Natal?” – que não  - “ah! mas a senhora não sabe? A dona Amélia morreu poucos dias depois do Natal". Que notícia! E eu que sabia tão bem o que era a solidão, fiquei sofrida, por sabê-la só no último Natal.

Segunda-feira, uma semana antes do Natal, à janela da cozinha, tendo por fundo a mancha verde do jardim da vizinha a que só a buganvília ainda com algumas flores cor-de-rosa, empresta cor e manchas escuras, via chover. Pensava que, possivelmente, aquele jardim se fosse meu não mostraria aquela profusão desordenada de folhagem, mas que era gratificante para os olhos e para a alma mergulhar naquele verde imenso. Olhava através da vidraça a chuva que caía decididamente oblíqua. Gosto de ver chover. Estava tão feliz, que nem sentia a presença física da vidraça.

E lembrei-me da dona Amélia…

Acontece-me inesperadamente em cada Natal, desde que a ouvi falar de solidão.

4 comentários:

  1. A minha 1ªvidita, creio...
    Saudações poéticas!

    E pode ler meus poemas de Natal em
    http://vieiracalado-poesia.blogspot.com
    Ou em lagospt com acesso directo.

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    1. Olá, Vieira Calado. Seja bem vindo!
      Já espreitei o seu Blog e gostei. Prometo fazer uma visita mais prolongada.

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  2. Hoje, ainda me sinto muito melancólico, não irei comentar, nem sequer mencionar a "Ladainha dos póstumos Natais"...

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    1. A nostalgia também me ataca depois do evento... Há sempre um pouco de mim por preencher... Uma ausência que me dói sem saber onde... Bem me critico dizendo-me que não posso pedir de mais à vida, mas isso não me impede de estar triste. Há de passar.

      David Mourão-Ferreira, pois!

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