terça-feira, 7 de agosto de 2012

TRAGO O TEMPO


À distância de um ano repetia-se a ceia da noite de S. Silvestre e eu fora, de novo, convidada. Como era costume os amigos mais chegados levarem comer para diversificar o menu, eu informei, os que iam de Leiria, de que levaria bacalhau com natas, para o jantar e as passas, separadas em grupos de doze, para serem comidas nos últimos momentos da noite.

Não acredito na tradição das passas, tal como não creio em muitas outras coisas, mas cumpro o ritual porque é importante para os outros. Como as passas sem nada desejar. Possivelmente é por isso que sou feliz, como não tenho expectativas, tudo o que a vida me proporciona é uma dádiva e a primeira de todas, que se vem repetindo diariamente, é ver amanhecer.

No ano anterior, também levara passas e sem saber se eram precisas, deixara-as ficar no saco, para só as distribuir perto da meia-noite quando o dono da casa reconheceu que se esquecera desse pormenor. “Eu trouxe” e os presentes suspenderam as lamúrias, quando comecei a distribuir bouquet a um, bouquet a outro.

Naquele ano, em que era convidada pela segunda vez, eu quis obsequiar o anfitrião; mas que oferecer a um homem que tem tudo e de que nem se conhecem os gostos? Pensei que se o presente não se poderia impor pela qualidade, teria de impor-se pela originalidade. Assim, decidi e comprei a prenda. Por saber que o senhor gostava de poesia, comprei uma agenda poética, intemporal, daquelas que podem ser usadas em qualquer ano, pois somos nós que escrevemos os dias e os meses.

Quando a ofereci ao anfitrião disse: escolhi uma prenda para si. Trago o tempo, porque é coisa que ninguém tem, em quantidade suficiente, para tudo o que quer realizar. Trago-o embrulhado em poesia, para que seja mais doce e custe menos a viver, poderá geri-lo como bem entender. Entreguei o embrulho, o senhor abriu e agradeceu.

O serão foi decorrendo, do meu bacalhau sobraram para além dos tabuleiros, os laços em tons de verde, com que os enfeitara.

O grupo era constituído por pessoas simpatiquíssimas. Falou-se de poesia e ouve quem declamasse e oferecesse rosas às senhoras, discutiu-se política, pretensamente solucionaram-se todos os problemas do país, brincou-se e riu-se facilmente. Cumpriu-se o que restou da noite com um sono curto, numa pensão que se situava perto e, no outro dia, após o almoço, todos regressaram a suas casas.

Referi-o há dias e não pude deixar de lembrar que, passado pouco mais de um ano, após aquela ceia festiva, o homem, a quem eu brincando oferecera o tempo, morria de cancro.

Nos curtos meses de doença, que antecederam a sua morte, vivi rezando para que não se lembrasse da brincadeira que, imprevisivelmente, a vida transformara numa cruel ironia.

Ainda hoje, não consegui racionalizar a dor que me provoca a dúvida: o meu gesto terá tornado ainda mais amargos os últimos dias daquele homem?

2 comentários:

  1. Sem o saber, a Isabel ofereceu ao cavalheiro a única prenda que podia fazer sentido para quem tinha o tampo (mais) contado. Sem o poder adivinhar, aquela foi certamente a oferta mais significativa e bela que podia ter naquela noite. Uma homemagem à vida junto de quem dela se teria de separar em breve.

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    1. As suas palavras são comoventes, são um bálsamo para a minha alma. Bem haja!

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