segunda-feira, 19 de setembro de 2011

MANHÃ DE DOMINGO


Às vezes o telefone toca às oito horas: “bom dia, com alegria” – desejam-me, com entusiasmo, mal levanto o auscultador - “bom dia, também para ti” e rio-me contagiada pela força que aquela voz me transmite.

Domingo de manhã, acordei mais tarde. Vagueei pela casa, ou melhor “reginei”. “Reginar” é um verbo familiar, inventado em “honra” de uma amiga das minhas filhas que passava o tempo em “fralda de camisa”.

Após o pequeno-almoço lembrei-me que há muito não sabia do meu amigo J. M. e liguei eu, plagiando a saudação.

Nem sei como, a não ser estabelecendo aquela velha analogia das palavras com as cerejas, que mal nós puxamos uma vem logo outra agarrada, acabei falando de um assunto recente que não estaria bem resolvido. Eu! Que gosto de tudo bem maduro! Que só gosto de falar dos puzzles depois de saber onde se encaixam as peças! Fiquei de vidro! Mesmo em ponto de rachadura!

Saí porta fora e fui andar. Aliás a ideia já era essa, mas até fui mais ligeira, porque quando não estou bem sinto uma necessidade enorme de dar distância ao pensamento. É assim que desato os nós. Se o meu amigo e colega de liceu P.C.S., que chegou a ser meu médico, ainda fosse vivo, não deixaria de comentar ”que sorte a tua, há quem fique em casa a curtir a telha!”

Cheia de pena de mim apetecia-me chorar; nem sabia se conseguiria ir dar almoço à minha mãe, que lê em mim melhor que num livro aberto (aí o tamanho das letras pode dificultar); mas achava que numa manhã tão bonita em que soprava um vento outonal sibilando uns decibéis acima do habitual, fazendo rodopiar as folhas muitas delas já vestidas de tons avermelhados, isso seria um desperdício. “Há-de aparecer alguém com quem me apeteça rir!”

Então, aparece um casal amigo com quem me costumo cruzar, só que a minha amiga comprou há muito tempo o catálogo das doenças…

Cumprimentámo-nos. “Nem te via” diz-me ela “venho sempre a olhar para o chão” “Isso é para ver se encontras a nota de quinhentos euros que acabei de perder” brinco ”não, as minhas cataratas fazem-me ver as caras das pessoas assim” e mimoseou-me com um esgar “Ah! Mas isso é divertidíssimo!”

Despedimo-nos e continuámos em direcções opostas, mas a minha manhã estava salva. A partir daquele encontro fui imaginando como a minha amiga veria as caras das pessoas com quem me cruzei.

A quem interessar: fui dar o almoço à minha mãe e tudo correu às mil maravilhas. 

4 comentários:

  1. A quem interessa observa facilmente que a tua escrita é viciante:)=

    Gosto da tua maneira de viver. De frente:)

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  2. Olá, M.
    Que bom ver-te por aqui! E que gentil! Bem haja!
    Não passo de um bicho-do-mato M. :)

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  3. Se compararmos com os outros bichos que por aí andam...Não tens razão de queixas:)

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  4. Obrigada, M., por me considerares um bicho raro:)

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