sábado, 17 de setembro de 2011

AS AVÓS

Quando eu era menina, as avós eram umas senhoras muito doces, com um sorriso nos lábios, e braços abertos sempre prontas para amar toda a gente. Que saudades tenho da pele fina e macia do rosto da minha avó Isabel! “Avó deixa-me brincar com a tua pele” e ela sentava-se comigo ao colo deixando-me afagar-lhe as rugas da cara e do pescoço. Que saudades tenho da voz pausada com que a minha avó Joaquina Joana mandava em toda a gente e mais alguém, parecendo sempre pedir licença para falar, mais conferindo a execução das tarefas do dia do que ordenando que se fizessem.

Vestiam de preto ad aeternum, após o falecimento dos maridos e, em casa, teciam calmamente os dias preocupadas com a família, bebericando chá e comendo torradas.


Ela aceitou o convite para jantar. Mais um! Os convivas estavam distribuídos por várias mesas. Escolheu o que desejava comer e discutiu a escolha do vinho numa mesa de oito pessoas em que cinco eram homens. Gosta de um vinho subtil, encorpado que se beba suavemente. “Olho de Mocho Rosé nem pensar! Esse bebe-se fresco. Ainda se fosse “Olho de Mocho” branco, ia bem com o polvo à lagareiro…” “Vale da Mata, porque é da região” alvitraram os cavalheiros. “Não, é melhor o Rocim tinto, tem mais alma. Não é da região, mas é do mesmo produtor. Fica tudo em casa”. E foi mesmo esse que se bebeu! Onde já se viu tamanho desaforo?! As avós em jantares políticos a contestarem as decisões dos cavalheiros, no concernente a vinhos?!

Antes das vinte e quatro horas retirou-se. Só excepcionalmente se deita tarde.

E em cada lado da noite, o “polvo à lagareiro”! Malvado bicho!

A manhã aconteceu cedo. Apetecia-lhe vestir uma roupa alegre, mas não podia. Esperavam-na as exéquias do pai de um amigo. O carro precisava de gasolina e ela de comprar flores e “voar” pela A8, para chegar, pelo menos, com uma hora de antecedência para mimar o amigo.

Carregando no acelerador, olhava o marcador do consumo de gasolina que indicava um terço a mais que o habitual. Na sua cabeça ecoava “cortes” “cortes” e ela já nem sabia se o eco se referia ao local do jantar da noite anterior se às contenções propaladas pelo ministro, que o consumo excessivo de combustível fazia lembrar… mas continuava com o André Rieu laboriosamente agarrado ao violino, tocando quase só as três primeiras faixas do CD, por serem as que mais gosta de ouvir. Nem havia tempo para escolher outro…

Uma avó… sozinha em plena auto-estrada, conduzindo feita louca…

E voltou à mesma velocidade. Tinha o almoço marcado: balanço da actividade política da Junta de Freguesia. Mas onde se viu as avós mandarem noutra coisa que não em tachos e panelas, limpezas de casa, rendas e bordados?

Já não se fazem mais avós como antigamente!

Ah! Mas eu garanto que mantêm o mesmo sorriso de beatitude quando olham os netos, a mesma amplitude do abraço e a mesma certeza de que cada neto é único no seu mundo de afectos. Sentem o mesmo amor imensurável e possuem a mesma infinidade de beijos para distribuir.

7 comentários:

  1. "Já não se fazem mais avós como as de antigamente."!.... E ainda bem! Nem é preciso. Como dizes, as de agora, mesmo vestidas de amarelinho ou de cor de rosa, cabelo pintado de louro, a conduzir feitas loucas pela A8 (ou a apanharem, sozinhas, o expresso para Lisboa para irem ter com os amigos de adolescência) adoram os seus meninos com igual desvelo e olham-nos com igual beatitude. É ou não é?!

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  2. De facto, nada se faz hoje como antigamente se faria, nem as avós, mas a essência mantém-se, ou seja, continuamos a ter mais do mesmo. Era precisamente "aí" que eu queria chegar.
    Obrigada pela correcção da frase, mas a minha exclamação é intencional. Ironia, muita ironia...

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  3. Para além das nossas, e das dos outros, não existem outras avós!

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  4. A graça tem quem escreveu aquele texto sobre... a graça...
    Que graça, Olímpio!

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  5. Graças a Deus!
    E a quem tem graça, sabe gracejar, e é graciosa!

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  6. Quando as avós decidem o vinho em jantares políticos e andam a cento e cem na estrada a ouvir violino como é que podemos ficar surpreendidos que as crianças sejam contestatárias....

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  7. "euchavi" costumava dizer aos meus alunos "detesto pasteis de nada"

    Quem gosta de "monos"? Chegam as peças de mobília que temos em casa, não ?!

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