terça-feira, 8 de novembro de 2011

FIVE O' CLOCK TEAR

Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
p'ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora

Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la

E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos

E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes

Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada


Emanuel Félix (Angra do Heroísmo, 1936 - 2004) A Palavra O Açoite (1977)


Hoje, não há chá.

3 comentários:

  1. Que belo poema! Gosto muito de chá, mas acho que gostei mais deste poema, em vez do chá.

    Não conhecia - já copiei! Obrigada.

    Beijinho

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  2. Só o chá...
    Na vida!
    Já sem Vida?
    Esperança perdida?
    Memória esquecida?
    No tempo sem tempo
    Só um sentimento...
    Tristeza sofrida.

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  3. Que belo, Olímpio! Às vezes o chá é mesmo uma tristeza sofrida.
    Bem haja.

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