terça-feira, 15 de março de 2011

DOZE DE MARÇO

Na véspera a I. telefonara “espero que tenhas providenciado um bolo”; “claro! Ou para o André, não faria anos”.

Não era nada “claro”! Desde que inventaram as velas com números, que deixara de achar graça aos bolos de aniversário. Antigamente sim, era engraçado; por cada ano mais uma velinha; azul para o pai ou para o irmão; cor-de-rosa para ela ou para a mãe. Depois passara a não ter graça nenhuma, era tudo igual, acendiam-se num instante as duas velas, cantavam-se os parabéns e no meio das palmas, com um leve sopro, acabava-se a festa.

A festa… começava na véspera, com a confecção do bolo. Misturavam-se os ingredientes, primeiros os ovos com o açúcar, que ajudava a mexer naquela tigela grande de louça branca. Apetecia-lhe sempre enfiar o dedo na massa amarelinha e provar, mas a mãe era categórica: “isso não. É porcaria” e ela reprimia o gesto, pensando que porcaria obrigatória era, no fim, untar a forma com a manteiga para o bolo não se pegar; as mãos da mãe ficavam sempre cheias de gordura…

Enquanto o bolo cozia a mãe fazia salame de chocolate e às vezes bolo de bolacha, que um dia a prima L. resolveu inovar enfeitando com farófias e bolachas baunilha como se fosse uma celha de lavar roupa. “Coisa esquisita” pensara, sem coragem para dizer que achara de mau gosto.

Depois do bolo cozido e já frio cobria-se com glacê e espetavam-se as velas; quantas mais fossem mais bonito ficava o bolo, que ainda se salpicava com bolinhas prateadas ou multicor.

Depois da modernice das velas com números deixou de ter bolo de anos e só repetiu o ritual quando foi mãe. Recuperou com a prima N. a receita de família e passou a fazer uns enormes bolos cobertos de chantiliy, decorados com chocolate, ananás e noz. As filhas cresceram, não muito, mas o suficiente para entenderem o texto do decreto: “sou eu que faço anos, terá de haver alguém que providencie o bolo” e nesse ano calhou-lhe no aniversário um bolo de iogurte meio torto com uma vela de cada lado do buraco deixado pela forma. Uma ternura que, evoluindo em qualidade e originalidade, se repetiu ano após ano até agora. Este ano, providenciou ela o bolo encomendando-o na pastelaria, para que o André ajudasse a avó a apagar as duas velas.

Mais um ano e a alegria de estar viva e de saúde rodeada por muitos e na lembrança de tantos. Alguns disputavam a primazia das felicitações: “sabes que vou para a Serra da Estrela, mais logo posso não ter ocasião, devo ter sido a primeira”; “telefono agora, mas deixei a mensagem no facebook às três da manhã, devo ter sido a primeira” e ela ria do outro lado do fio e agradecia. É tão bom ter amigos!

E numa mistura de afectos, em que a família e os amigos se não pouparam, somou alegremente, mais um ano aos muitos que já tinha.

4 comentários:

  1. Com que então foi fazer a festa para casa da filhita, heim? Foi, de certeza,muito divertida, com o Andrezito à mistura.... Que bom! Para o ano que vem, outra vez!
    Beijinhos

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  2. Não fiz nada a festa na casa da filhinha, o que é habito. Este ano foi na minha. Por isso é que tive de providenciar o bolo de aniversário... Foi uma trabalheira incrível ir à pastelaria encomendá-lo! (lol)

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  3. Tempos modernos:( Mais fácil, mais barato mas...Vendo bem...as pessoas já não têm tempo umas para as outras...

    E já não digo estarem umas com as outras:)

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  4. Olá M. Bem aparecida sejas!
    Para o meu neto eu "invento" todo o tempo do mundo, nem os 150Km que nos separam eram obstáculo. O que veio dificultar foram os compromissos políticos que assumi, mas compromissos são compromissos. As obrigações são para cumprir e cara alegre... :D

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