sexta-feira, 30 de novembro de 2012

NUNCA, COMO HOJE


Nunca, como hoje, me senti tão fisicamente parecida com minha mãe. Foi ao enfiar a minha boina basca preta que reparei. A culpa seria do baton vermelho por que optara.

Normalmente, no dia-a-dia, só maquilho os olhos, mas hoje apeteceu-me um baton vermelho. A minha mãe nunca maquilhou os olhos, só pintava os lábios, num vermelho semelhante ao que escolhera.  

O meu pai comentava sempre, com ironia, aquele baton. Comentava diariamente aquele baton, de que tenho a certeza, gostava e com o qual também gostaria de se mortificar. Assim como quem tem ciúmes sem ter, assim como quem sabe que é ridiculamente terno e se ri disso. E a minha mãe ria e todos ríamos com a cena que não poderia faltar. Não tinha hora para acontecer, mas nem o dia seria igual se faltasse, comigo e com o meu irmão a aplaudir.

Enterneci-me com a imagem que o espelho me devolvia. Não por me olhar, mas por ver o meu pai, a minha mãe, o meu irmão e sentir aquela saudável loucura feita de ternura de que já usufruíra sem ter consciência de que, quente e acolhedora, me embalava os dias. De como era amada. De como éramos felizes sem repararmos nisso.

Há quantos anos deixou a minha mãe de pintar os lábios? Nunca, como hoje havia reparado nisso.

E o meu coração desfez-se em ausência… 

2 comentários:

  1. Tenho um espelho parecido com esse...

    (tocou-me no ponto fraco)

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    1. É a vida a cumprir-se sem a nossa autorização. Dói a ausência dos que partiram, rendemo-nos à alegria dos que há pouco chegaram.
      Estive este fim de semana em Lisboa. Garanto-lhe que nada me alegra mais que a festa que os meus netos fazem mal entro a porta.
      Pena não podermos ter todos fisicamente connosco.
      Abraço solidário.

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