terça-feira, 27 de novembro de 2012

OS MELHORES BEIJINHOS


Precisava de ir à Almoinha Grande, local que hoje todos identificam como Nova Leiria, privilegiando o nome da urbanização e não o do local. Enfiei-me no carro e desci a ladeira. Estacionei no parque próximo e fiz-me ao que ia.

Chuviscava e o pé dorido não permitia que as condições de marcha fossem as melhores, mas apetecia-me caminhar à chuva. Feito o que me levara ali, dirigi-me devagar até aos Jardins do Lis. Precisava de comprar uma lembrança para a G. que fizera anos no sábado e que eu iria encontrar, para o chá habitual, nessa tarde. Decorria aí, à semelhança de tantas outras vezes, a Feira do Livro que a Livraria Letras e Livros costuma promover, oferecendo a quem adquire livros, um desconto de vinte por cento.

O livro estava exposto na vertical, meio aberto e chamou-me de imediato a atenção pelo elefante azul que ilustrava a capa. Há algum tempo que amadurece na minha mente uma história, que a timidez não tem força para escrever: “O elefante azul e a formiga rabiga” (pelo menos já tem título e personagens definidas). Sorri e avancei… “Os Melhores Beijinhos”: o título saltava à vista, letra num dégradée de tons quentes, com corações a substituírem as pintinhas dos ii e o elefante azul, enorme nas orelhas abertas (nem cabe todo na capa), atento, vertendo ternura com a tromba, arredondada sobre o animal que nela se senta – uma ave? Sei lá qual… Um pinguim? A imagem transmite ternura, aconchego, proteção, pois a tromba do elefante, com o auxílio da orelha direita sugere uma caixa, em que a suposta ave, alegremente se instala. Os três pequenos corações desenhados nesse espaço, reforçam a ideia. Quase sinto o leve movimento da tromba! Apelo inconsciente à proteção do útero materno, acolhedor e não sufocante, porque os diferentes cambiantes de cor, mostram que o espaço é aberto. Quando não precisar de mimo, a ave poderá saltar do embalo daquele baloiço aconchegante e fazer-se à vida. E só com a imagem da capa, a ilustradora fizera-me capitular. Eu estava rendida de encanto, de ternura. Apetecia-me o livro.

Olhei a contra capa. O elefante estendia-se por lá e, ainda assim, não estava completo. Era mesmo o “meu” elefante, enorme, de porte poderoso, inabalável, mas ternamente condescendente com a tal formiga, irrequieta, rabiga… vivendo há algum tempo no meu cérebro, só lhe faltava sorrir, como o "meu" sorri. “Todos precisamos de beijinhos, por isso haverá coisa melhor que um livro cheio deles?” A sintaxe poderia não ser das melhores, mas a questão era feliz. "...este livro tem beijinhos para toda a gente.” Então vejamos… E dispus-me a folhear o livro…

Beijinhos… beijinhos… “Beijinhos inesperados que te fazem feliz.” “Quem gosta de dar beijinhos? ... E tu, Não queres experimentar?” E todos gostam de dar beijinhos… “Os enormes elefantes também” E as letras garrafais com que a ilustradora escreveu “os enormes” a tornarem ainda maior aquele elefante que não cabe em duas páginas. O “meu” elefante! Sim, eu sei de um elefante azul… Só não sei se ele gosta de dar beijinhos… Sorri e fui sorrindo e não parei de sorrir até…

O fim: “tive estes beijinhos todos…" numa panóplia colorida de duas páginas de bicharada, “mas os melhores do mundo” - e a ilustradora utilizou o negrito -  “são os teus beijinhos!” E o André, com quem eu passara o fim de semana num terno arrolo  e fazia sete anos nesse dia, aos pulos no meu peito. A Rita ainda não sabe dar beijinhos. Só recebe. E tantos… Larguei o livro e saí dali.

Procurava a prenda para a G. que ainda não encontrara. Ao fim de alguma demanda por coisa sugestiva de preço módico, adquiri-a. Estava de regresso ao carro e a casa, evidentemente. Voltara a chover. Encaminhei-me, de novo para o centro comercial Jardins do Lis e adquiri o livro para o André. Ele já está na fase das lutas dos “Gormiti” e eu este ano, optara por oferecer-lhe Bay Blates, no aniversário, pois ele perdera os seus num péssimo “negócio” que realizara na escola. O pai e a mãe não lhe davam outros para que aprendesse a cuidar do que possuía, mas consentiram que a avó os oferecesse, como prenda, para sarar a dor que o afligia.

Então porquê o livro? Porque o André há de crescer. E há de “partir a cara” na vivência dos afetos. Acontece a todos… Crescer dói. Para uns mais do que para outros, por conta da sensibilidade. A ele vai doer muito...  E depois de se crescer, dói a vida… tantas vezes… É agora que tem de sentir (repare-se: não escrevi aprender) que os seus beijinhos são os melhores do mundo, para alguém, nem que seja simplesmente para a avó Belita. 

Até eu gostaria de receber este presente.

"Quero um beijinho ao pequeno almoço, para começar o dia a sorrir. E um beijinho de boas noites antes de ir dormir."


Joana Walsh e Judi Abbot, Os Melhores Beijinhos, Civilização Editora, Porto,2010

2 comentários:

  1. Ainda não fui meter o nariz nessa Feira do Livro, onde habitualmente encontro "tesouros" a muito bom preço. Mas esse dos beijinhos não me leva... Tive uma amiga tipo ama que me dizia: «A Gracinha é muito seca...» (mas não sou tanto assim!)

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    1. Nesta Feira do Livro há muito boas obras. É mesmo de aproveitar. quanto ao livro que refiro é uma delícia.
      Eu confesso que em matéria de beijinhos sou um caso perdido :))
      É uma perfeita maluqueira com o André e a Rita... A mãe ralha, mas eu não tomo ensino. :)

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