quinta-feira, 1 de novembro de 2012

SÓ PODE SER CASTIGO


Fez esta quarta-feira oito dias, só certa das quinze e trinta, desci até ao rio e me alonguei pela margem esquerda, repetindo o que costuma acontecer em algumas manhãs. O outono sorria agradado, mas rapidamente descobri que a ideia não tinha sido muito feliz. A fauna daquela tarde (teria de ir mais vezes, à mesma hora, para poder generalizar), nada tinha a ver com a que, por ali, se passeia em cada manhã. Como não sou assustadiça, fiz o percurso habitual das piscinas até à ponte Europa e depois voltando para trás, continuei até ao quiosque da Paula, na outra ponta do Marachão, junto à Rotunda do Sinaleiro.

Por altura da Sapataria Mipel, um senhor que fazia o percurso em sentido contrário, abre um sorriso rasgado e para à minha frente, num cumprimento afável, obrigando-me também a parar, retribuindo embaraçada o cumprimento, sem descortinar de onde nos conheceríamos. Vai daí, arrisquei “ possivelmente deveria reconhecê-lo, mas sinceramente não estou a conseguir situá-lo. Não consigo lembrar de onde nos conhecemos” “das voltinhas que damos por aqui” – esclareceu o senhor enquanto, ao ouvi-lo, eu pensava que caíra na conversa da treta, que nem uma principiante. “Gostaria de acompanhá-la no seu passeio” continuou o senhor “mas a minha passada é muito larga, não vai dar. Boa tarde para si” e desandei dali em passo largo, fazendo jus ao que acabara de dizer.

Segui até à saída do Marachão, junto à Rotunda do Sinaleiro, admirando-me com o facto daquele homem não me ter pedido em casamento, como acontecera, havia muitos anos, em Coimbra, quando “um beirão das Terras do Demo” (fora assim que se apresentara) se encantara comigo num almoço, ao balcão do Mandarim (eu nem o havia visto), partilhado com as colegas que comigo assistiam, na faculdade, a uma conferência sobre Literatura Infantil.  Esse introduzira-se no recinto e quando me viu sozinha, regressando dos sanitários, abordou-me. Era um homem apto, dizia, que gostava de música clássica. Eu tinha cara de que também gostava. Estava só e queria partilhar a vida comigo. O Sr. D. só queria acompanhar-me no passeio. Decididamente, perdera qualidades... 

Quando saíra de casa, enfiara no bolso das calças uma nota de cinco euros. O André, a frequentar o primeiro ano de escolaridade, obtivera “umas notas mega boas” nas provas de avaliação. Inicialmente não havia na família quem soubesse o que isso era, mas as provas haviam chegado a casa e o rapaz tivera excelente a tudo, face ao que, a avó babada decidira enviar-lhe um postal ilustrado dizendo como estava contente com os resultados que obtivera. Para isso era preciso comprar o tal postal. Ao voltar para trás, ri-me “agora é que eu troco as voltas ao Sr. D, que deve estar para aí, algures, à minha espera” e saí do Marachão, encaminhando-me para o Quiosque da Natália, que se situa nas Arcadas de D. João III”

Que ingenuidade a minha! De nenhures aparece o Sr. D. com um sorriso mais ousado “encontrámo-nos outra vez” “é verdade” e segui em passo largo, cada vez mais largo…

A Natália não tinha postal que me agradasse e decidi ir à Papelaria Americana. Dou meia dúzia de  passos e eis o senhor: “é a terceira vez que nos encontramos. O destino está a querer juntar-nos” “Socorro!”- Pensei eu e vá de alargar ainda mais o passo.

Voltei ao carro, parado junto às piscina, numa passada, que deveria rondar os seis quilómetros por hora, evitando que o sorriso do Sr. D. me mordesse os calcanhares.

Pois nesse dia à noite, ferrou-se uma tal dor na articulação sacroilíaca esquerda, que ainda não me largou. Admiti que poderia ser da falta de treino, mas não, pensando bem…

É castigo de andar a fugir do Sr. D.! Só pode ser castigo!

8 comentários:

  1. Passada de 6 kilómetros por hora? Nada mau, digo eu, a lembrar-me duma caminhada/marcha nos meus tempos de adolescente, em que nos metemos a caminho para ir ao Aeródromo de Viseu assistir a umas acrobacias aéreas e lançamento de paraquedistas. Mais ou menos 6 km feitos numa hora, é certo que a corta mato, que naquele tempo a urbe propriamente dita se limitava ao centro histórico e pouco mais.

    De modo que tenho essa referência e que uso como medida padrão para avaliar uma caminhada em passo de marcha.

    Quer dizer, o snr. D. não tinha passada suficiente ou faltou-lhe convicção?

    ps.: estou agora a lembrar-me que, às tantas, despistado como eu sou, já nos cruzámos por aí e eu a olhar para ontem...

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    1. Andar a seis Km/h em corta-mato é muito mais difícil do que em terreno plano, como era o caso. Já me vão pesando os sapatos, mas nos meus tempos áureos, ainda relativamente recentes, aguentava mais.
      Agora a caminhada vigorosa está-me interdita, os excessos cometidos no ginásio deixaram-me algumas mazelas. Por isso fiquei com a dor na articulação. Eu era das que gostava de "malhar" (musculação e cardiofitness) até ficar sem fôlego. Agora o ortopedista recomenda juizinho na cabeça e calma nas pernas, mas às vezes esqueço-me...
      Não sei se o sr. D. tinha capacidade para me acompanhar, mas com aquela passada ficou claro que eu não queria companhia. Há muitas formas de comunicar.

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  2. Ah! Esqueci-me de dizer. Que eu reparasse, nunca nos encontrámos nas minhas deambulações pela margem do rio. Se tal acontecer, prometo que o cumprimentarei, tal como fiz naquela sessão solene nos Paços do Concelho, em que já seguidores dos respetivos blogues, sem nunca nos termos visto, o reconheci. Sei que pode duvidar por posteriormente o ter visto na Praça Rodrigues Lobo e não lhe ter dito nada, mas nessa tarde, sentada na esplanada do Chico Lobo, entretive-me a olhar (indiscretamente)o seu namoro com a objetiva, enquanto admirava a paisagem e escolhia o alvo. Achei tão íntimo que não tive coragem de interromper. :))

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  3. Bem me lembro desse teu "apaixonado" quando estivemos nesse encontro de "Literatura Infantil"Foi por Outubro ou Novembro de 1989.Como o tempo passa depressa!!!
    E se bem me lembro também,acho que o dito cujo se chamava Arnaldo.Seria?
    É bom reviver esses tempos.
    Quanto ao novo candidato...tu lá sabes.
    Um beijão amigo

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    1. Ando sempre metida em "alhadas" destas...
      Quem me quer mando embora e quem eu quero??? Onde andará??? :))

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    2. Olha Zabelinha,sabes uma coisa?Quem eu quero não anda por lado nenhum,pois NÃO quero NINGUÉM.Fiquei garantidamente vacinada.

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  4. Olhe que elas não se pagam todas lá em cima...
    :)

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