domingo, 25 de novembro de 2012

UMA HISTÓRIA DA CAROCHINHA


Estava uma tarde chuvosa, que convidava ao conforto. A noite anterior fora mal dormida. Dores no pé torcido e na pele que faltava no joelho acordaram-na frequentemente. Considerara mesmo a hipótese de uma ida ao hospital quando fosse manhã, mas depois levantara-se “ora, tu aguentas… já te aconteceu pior” e, enfiada na meia elástica, ficou-se naquele triste consolo do irremediável. Teria de esperar para que passasse.

Apeteciam-lhe palavras redondas, pequeninas, sussurradas, numa mistura de afagos inocentes. Apetecia-lhe mimo.

O dia foi-se cumprindo com as limitações óbvias e, à tarde, antes de partir rumando afetos, foi à conferência. Só o seu olhar estético se debruçara sobre o tema, seria interessante saber algo mais para além disso.

Tropeçou num sorriso luminoso, daqueles em que apetece mergulhar, como diz o poeta e que afagam a alma, digo eu, a narradora, porque ela não disse nada. Deleitou-se. Apenas.

“Quando é que esta atividade se transformou em arte?” Eis a questão interessante. Considerou: a forma “transformou” fala de um processo longo, demorado. Se fosse um brasileiro a falar diria “virou” e a noção de tempo seria outra: em vez de privilegiar o gesto repetido, a aprendizagem da perfeição, focalizaria o momento criador, o raio de luz, a ideia luminosa, a exaltação do nascimento… “Como as palavras nos espartilham!” Reconheceu…

Fechou os olhos. A voz tinha cambiantes graves de tonalidades que apeteciam, deixando adivinhar, sem exaltação, o prazer que o tema proporcionava ao homem que tinha à sua frente. “Lê-me poemas e conta-me histórias de encantar.” Corrigiu: “Lê-me só os poemas. A encantar estás tu, aqueles que te ouvem aqui.”

Apeteciam-lhe palavras redondas, pequeninas, sussurradas, numa mistura de afagos inocentes. Apetecia-lhe mimo. Não tinha. Ponto final.

Abriu os olhos. Ah! Não fossem pensar que dormia, só porque se deleitava na escala musical da voz que ouvia. Continuou atenta e brincou para o lado.

Depois partiu. As obrigações não lhe permitiam ficar até ao fim.

Na rua a verdade era outra. Era nua e cinzenta, naquela tarde de outono. Aristótles martelou-lhe o cérebro, numa lógica da treta “as palavras redondinhas são para quem as merece; se não as tens; é porque não as mereces.”

Já se viu um pé torcido e um joelho esfolado transformarem a gata borralheira em princesa de conto de fadas? Que mau feitio! Exclamarão alguns. Nada disso. É só uma observação da narradora, que não se furta ao sarcasmo que altera o rumo da história.

Esquece e faz-te à vida!

Enfiou-se no carro e partiu. “Ah! Aquela música não. Hoje prolongaria a tortura.” Parou sem reparar aonde. Felizmente, não havia trânsito… Mudou o CD e seguiu viagem…

Começou a chover…

A escuridão abateu-se sobre a lonjura e choveu mais, ainda mais. O céu desfazia-se lastimando o seu desconforto de alma.

Sempre fora assim: resistia tão bem à dor, que ninguém reparava na sua fragilidade.

A pele que faltava no joelho continuava a doer e o pé… o pé também.

Morrer há-de ser pior.

2 comentários:

  1. Tá melhor do dói-dói?
    Vou soprar daqui com muita força para a dor aliviar
    Não me custa nada tentar
    Quero ver o sorriso da "Belita" regressar

    :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O dói dói há de passar
      Terá de esperar por isso
      Mesmo com o pé a doer
      Ela não perde o sorriso

      Agradece a sopradela
      E as palavras também
      A melhor cura da alma
      São os amigos que tem.

      Um abraço.

      Belita

      Eliminar