quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

HÁ UM DIA ESPECIAL PARA TUDO


Ultimamente não tenho dormido bem. Entenda-se por dormir bem adormecer e dormir direitinho e profundamente, para acordar, fresquinha que nem uma alface, no outro dia de manhã, sem memória de sonhos. Há várias noites que acordava preocupada, quase de hora a hora pensando que era manhã. Pois esta noite dormira cinco horas seguidas e tendo acordado cedo, como é hábito, deixei-me ficar na cama à espera da Carma. Era quarta-feira. Logo que a ouvi enfiar a chave na fechadura, pouco passava das oito horas, levantei-me.

Os cumprimentos habituais, “como vai a mãe?”, conversa de circunstância e ala para o banho e vá de me cuidar. Tinha assuntos a tratar de manhã e antes tinha de fazer o almoço.

“Quero provar isso” –disse a Carma de nariz enfiado na frigideira em que salteava os marmelos com que tencionava acompanhar a carne que estufava. “Queria… se eu lhe desse”- brinquei. Os marmelos eram dos que me oferecera e não transformara em marmelada. Estufei a carne, fiz o arroz de cogumelos com brócolos porque, descuidada, acabara as ervilhas e não me lembrara de comprar mais e fiz-me ao caminho.

Entre outros assuntos a tratar, pretendia, por uma questão de boa educação, dar conta do estado de saúde de minha mãe e encaminhei-me para o escritório da senhora com quem pretendia falar. Não estava. E já tinha carregado no botão do elevador para a procurar noutro andar quando lhe ouvi o martelar dos saltos no pavimento. Vem lá, não preciso de descer – pensei sem me enganar. Conversámos, de uma forma que eu costumo classificar com uma expressão de gíria que não tenho coragem de escrever aqui, sem que a senhora, a dois passos do gabinete me mandasse entrar, ou entre um sorriso e outro revelasse grande interesse. Claro que o estado de saúde de minha mãe é importante para mim, não para ela, embora eu achasse que também deveria ser… Saí do edifício a remoer o que considerara uma falta de educação.

Almoço. Hospital. Ida à Câmara, agendada de antemão, para esclarecimento de uns assuntos da Sempraudaz – Associação Cultural e as duas secretárias do Sr. Vereador, avisadas por este da minha ida a receberem-me e à tesoureira da Associação, a quem, pedira para me acompanhar, de pé… Não sabiam responder às minhas dúvidas, menos ainda resolver o assunto e chamaram a funcionária que tratara dos ditos documentos. A menina entra linda, simpática e sorridente, aliás os sorrisos não faltavam por todo o lado, e começa a atender-nos, de pé… Aqui eu achei que já tinha a minha conta. Afivelei o meu sorriso de onze centímetros e disse: “Minha querida, eu já sou muito velha e relha para tratar consigo do que aqui me traz, de pé, com os papéis a voarem por todos os lados. Arranje sítio onde possamos falar calmamente e sentadas, de preferência em volta de uma mesa. Creia que o Sr. Vereador se aqui estivesse também nos receberia condignamente”. Encontrado o sítio no gabinete do Sr. Vereador, expliquei ao que ia, para tornar a adiar o assunto e saímos.

Reunião da Direção da Sempraudaz: pegava de novo nos malfadados papéis, quando um jovem abre a porta e pergunta para a Sra. Dona H.: “Você sabe… “ “A senhora, quer o jovem dizer” – Ah! Mas aquele “a senhora” deve ter saído num tal tom professoral que o rapaz olhou-me, deu as boas tardes e seguiu viagem.

Há um dia especial para tudo. Hoje foi o dia especial da má educação.

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