sábado, 22 de setembro de 2012

ISABEL "A FINGIDORA"


Estava a bela infanta
No seu jardim assentada,
Com o pente de oiro fino
Seus cabelos penteava
Deitou os olhos ao mar
…………………………………………

E eu via-a, eu era a Bela Infanta, assentada naquele jardim que eu sonhava ensolarado e cheio de flores, de muros brancos debruçados na falésia, onde chegava a música do longe e os violinos choravam no eco da distância, não penteando os cabelos, mas “deitando os olhos ao mar”. E o meu mar era S. Martinho, porque nunca me tinham deixado diluir noutro…

Tinha talvez oito anos. Decorei o poema. “Mãe, vou dizer para ver se sei de cor”…  “sabes de cor, mas dizes mal. Não deves acentuar a rima.” Trepei para o banco da cozinha: “tu cais daí”, mas não caí. E fui repetindo o poema até dizê-lo bem. Aquele banco foi o meu primeiro palco e a minha mãe o primeiro público.

Quantos poemas mais? Muitos, só os que ao meu pequeno coração apeteciam…

Passavam aves aos pares
E a água em ondas seguia
E o homem triste sofria
Preso aos mesmos lugares

Eis que passa, um tronco
sobre a corrente – como és feliz!
Onde vais?
Eis os instantes primeiros
que fizeram marinheiros
os nossos primeiros pais.
………………………………………..

Não lembro o autor e cito de cor, sujeitando a poesia aos meus lapsos de memória. Sempre, desde então, a fluição, a sensação de movimento que o mar imprime, sem fugir dali.

Nunca me submeti a mais ensaios, que os da solidão do meu quarto, que aconteciam pelo amor à sonoridade das palavras e aos sentimentos que elas me despertavam. Se precisavam que recitasse, bastava pedirem-me na hora. Havia sempre um poema que se soltava ao vento. Como palco, o estrado da sala de aula e o banco da cozinha, como público os colegas, a professora, a família.

Em mil novecentos e sessenta e dois, com doze anos, fiz a comunhão solene. Houve festa depois do almoço, servido no Salão Paroquial de Marrazes e pediram-me que recitasse. O meu irmão estava em Moçambique e eu sofrida de ausência...

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece
De balas trespassado
Duas de lado a lado
………………………………………

E não houve quem se negasse a chorar comigo… “Esta menina entra dentro de nós” ouviu-se alguém.

Cresci declamando os poemas das coletâneas de leitura.

Em mil novecentos e sessenta e oito, já no primeiro ano do Magistério Primário, aconteceu a visita do professor José Hermano Saraiva, Ministro da Educação e eu temerária e irreverente, aproveitando as ocultas tendências do professor de Psicologia, que facilmente adivinhara, declamei no Convento de Alcobaça, o poema de Manuel Alegre: “O que é preciso é poesia dia a dia…” Depois de vinte e cinco de Abril, de setenta e quatro, muitos me perguntaram “tens ficha na PIDE?” “sei lá” e nunca quis saber. Chegara-me aprender que a palavra era uma arma.

Pretendiam fazer-me professora e um dia, testando-me, disseram: “esta semana, vais ensinar a orientação pelo Sol”- “Como sair desta? Como ? Como?” – desesperava-se o meu íntimo  e eu impassível, calada e atenta anotava o tema no caderno, não fosse esquecer-me de alguma coisa… como se a ansiedade deixasse…  mas dando tempo ao medo para se recompor…

“Trago uma coisa para vos mostrar” “sabes o que é isto?” Aquele menino sabia. Todos os meninos sabiam. Era uma carta, que me contava a história de alguém (quem ? queriam saber) que se perdera e graças ao Sol voltara a encontrar-se. Como? Vamos aprender como o meu amigo fez…

“Que boa motivação!” disse o professor Mil-Homens, no fim. “Quase me apetece perguntar-te se a história aconteceu mesmo…” Não, não tinha acontecido. E foi assim que descobri que os professores eram artistas, num palco em que eu já representara muitas vezes: o estrado da sala de aula.

Profissionalmente fui uma professora primária que representou para alunos do primeiro ciclo, do segundo, do ensino médio, do superior e para os colegas, monitorando vastas horas de formação contínua.

Nas horas de lazer, colaborava com o grupo de teatro Trolaró, um punhado de colegas que pela mão de Mimi Fernandes fazia espetáculos onde lhe pediam. Pelo país, pisei diversos palcos, apresentando espetáculos, fazendo teatro, declamando e improvisando na apresentação dos loucos modelos de chapéus, que nunca eram iguais e que eu, já no palco, via no momento em que apareciam ao público. Falava sempre de Leiria e terminava declamando “O pinhal do Rei” “aonde, ecoando a cantar/ se alonga e se prolonga a longa voz do mar”

Aposentei-me e fui para a Academia de Cooperação e Cultura fazer teatro com a professora Isabel Aragão. Com ela continuo, agora na Associação Cultural “Sempraudaz”. Fazemos dois a três espetáculos diferentes por ano. Coisas simples, de acordo com as possibilidades de um grupo, em que ninguém é jovem.

Esta fui e esta sou eu, “a fingidora”. Há quem me chame Belita, mas o meu nome é Isabel. Sempre tive o privilégio de fingir nos sítios próprios, sítios onde representar é arte, ou pretende ser arte. Não torpedeio a vida, não me engano a mim, não engano os outros, porque fora destes espaços sou eu, de corpo inteiro, falando a minha verdade, calando-me quando não quero que me saibam ou questionando porque quero aprender.

A vida não é um teatro, não acontece num palco, não vive dos truques das luzes da ribalta, com ponto a soprar as deixas. Independentemente do papel social de cada um de nós, a vida é um milagre que acontece em cada amanhecer, refulgindo como a luz do Sol. Como bem imediato, concedeu-me o dia de HOJE.



Caldas da Rainha - Chegada ao anfiteatro do pólo da Escola Superior de Educação (1991), com a minha professora primária, Sra. D. Maria Rosa L. Pires; Misericórdia(2005) e Teatro José Lúcio da Silva(1998) - apresentando espetáculos.


Diálogo entre Elisa e Cleanto, filhos de Harpagão - O Avarento - Molière (2005)
Teatro Miguel Franco


Januário- Médico à Força - Molière (2010)
Teatro Miguel Franco

E para além destas, vesti muitas outras personagens de Molière, Gil Vicente, José Régio e de mais autores. Já fui médico alcoolizado, escudeiro, Cara-de-pau, rainha, estrela (falhada) de teatro, Galileu, contabilista , Rei Mago e sei lá que mais...

Que autor gostei mais de representar? José Régio.
Onde me diverti mais? No teatro Trolaró, que vivia do improviso e cada uma era o que calhasse, na altura de representar. Uma vez, no teatro Luísa Todi, em Setúbal, a Mimi, que fazia de D. Dinis, na adaptação da Lenda de Segodim, esqueceu as barbas. Quando passou por mim em cena lembrei-a: "as barbas" ela saiu de cena- D. Dinis perdido de amores demorava a chegar- mas, rapidamente, a Mimi volta a entrar pela esquerda cénica  e diz: "demorei-me tanto que me cresceram as barbas" - não houve quem não risse à gargalhada.  


Um espelho não guarda as coisas refletidas! O destino é seguir...Mário Quintana



Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

                                                                                            Ricardo Reis

6 comentários:

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    1. Não grite bis, Rui. Ou terei de ensaiar mais umas momices para fazer um "encore". :))
      Muito obrigada pelo "bravo" :))

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  2. A Isabel lá correu o pano e nos mostrou este seu belo curriculum de "fingidora".

    Isso é que tem sido uma vida de artista, sempre em ação!

    Quando e onde é que a podemos ver em cena, proximamente?

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    1. António,
      Espero que as minhas palavras não o tenham feito criar expectativas muito acima das minhas reais capacidades artísticas, que são poucas. Uma coisa é gostar de representar, outra muito diferente é saber fazê-lo... Costumo brincar dizendo que não faço teatro "armo barraca".
      Este grupo de teatro também vive do esforço de todas e das habilidades de cada uma. Em Junho, para além de "lavrador", no Auto da Barca (Isabel Aragão gosta muito de Gil Vicente...), ainda fui maquilhadora e ponto até à minha entrada em cena. Há quem cuide do vestuário (menos do meu, que sou eu que providencio), dos cenários, do apoio informático, etc... Tudo mão de obra caseira...
      Normalmente o espetáculo do Natal, tal como o do Magusto e o da Páscoa, são de consumo interno, ou seja, abrilhantamos os nossos convívios, tendo como convidados as autoridades do burgo.
      No encerramento das atividades, em Junho, o espetáculo é, por norma, no Teatro Miguel Franco. A entrada é livre e normalmente é noticiado na Leiriagenda. A última notícia até trazia uma foto minha fazendo de Galileu Galilei (e não é que nem a guardei?!). Acontece mais ou menos a meio do mês.
      Por vezes também fazemos jograis "por encomenda":)) para algum evento em que somos solicitadas.
      Conto consigo e com a esposa, no próximo Junho.

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  3. Com estas ideias e ideais, nunca chegará a ministra, de qualquer governo, neste país... (rsrsrs)

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    1. Olá, José.
      Acredite que nunca tive tais aspirações e estou em condições de garantir que nunca terei. :))

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