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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

CONFESSO


Ontem, mercê do convite da amiga GM, participei num workshop de pão, no Moinho de Papel, que começou cerca das quinze horas e se prolongou até perto das dezoito.

Havia deixado o carro junto à Rotunda dos Industriais, vulgo rotunda dos Pokémons, como dizem os garotos e eu como eles e deslocara-me a pé para o outro extremo da cidade.

Chovia e molhei-me toda, mas o calor rapidamente secou a roupa, no meu corpo. Vicissitudes de quem não quer pagar o parque de estacionamento.

Quando apressadamente me dirigia ao Moinho de Papel, não reparei, mas quando regressava ao carro, pelas dezoito horas, pretendendo cumprir a visita diária a minha mãe que adiara, mal me aproximei da Ponte Hintze Ribeiro, a expressão escrita em letras garrafais de cor preta, na parede branca agrediu-me. “Meu Deus – pensei – depois da luxúria de pão que comunguei com as amigas, na alegria daquele grupo de jovens, não estou disponível para pensamentos dolorosos.”

Parei. Chovia, mas não foi isso que me impediu de fazer a foto, sem outra finalidade que registar aquele chamamento às tristes realidades deste país que se afunda, pela mão da cretinice, num momento em que o meu espírito vogava a milhas de distância das cruezas atuais da vida coletiva.




Hoje levantei-me com uma terrível preguiça mental. Espreitei o mail, onde me aguardava a cumplicidade de uma amiga, para alegria de outra e dispus-me a uma ronda breve pelos blogs dos amigos. Comecei pelo “Dispersamente…” e não passei dali. Nem de propósito, aquela oração a Santo António… Abusivamente, entrei e apossei-me do texto que ilustra a minha foto. Confesso, despudoradamente, sabendo que só a preguiça mental, esfarrapadamente,  justifica o delito.

António, não mereço perdão, acho justo que se queixe à polícia e me mande prender (só para a semana, agora ando muito ocupada), mas ainda albergo a esperança de que me perdoe… Nem sequer "roubei" o texto todo, ainda deixei um pedaço para si. Há quem roube muito mais e continue por aí, pavoneando-se impunemente.



Os mercadores-banqueiros de Pádua e Florença
Estão hoje em Wall Street, na City e noutras praças.
Possuem palácios, iates, aviões e limusinas,
E evitam as ruas onde vivem os que não têm tecto.
Os seus olhos não sabem abrir-se para o nascimento de uma rosa.
Escuta, Santo: continua a ser difícil dialogar com a usura.
Mais fácil é falar com o trovão, como fizeste.

Maria Amélia Neto
Colóquio Letras
Mesmo o Passado
É sempre incerto
Número 142 Outubro-Dezembro 1996
p. 159


4 comentários:

  1. O que vale é que António pode ser nome de Santo.

    E eu, ainda para cúmulo, até sou Santos, logo mais que Santo!
    As cidades, nas partes antigas, estão a ficar assim. E o problema é que, em muitos casos, são casos de heranças mal resolvidas. Além disso, quem é que, nos tempos que correm, quer investir dinheiro em recuperar prédios velhos, ainda que bem situados nas zonas urbanas e centrais das cidades portuguesas?

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    1. Um velho provérbio garante "a quem apregoa santidade, conta menos de metade"

      Estás visto que os tempos são diferentes e o António é mais que Santo (gaba-te cesto...), vai daí eu beneficiei... Não se zangou comigo. Estou contente.

      Reconheço que só me atura quem tem paciência de santo...

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  2. Achas que a Maria Amélia Neto estava a pensar no Gasparito?...

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    1. Poderás avaliar a dor que sente uma mulher que gosta de banda desenhada, fã daquele fantasminho simpatiquíssimo que se dá pelo nome de Gasparzinho, conhecer outro que não valoriza a analogia? Que saudades daquela ternura desajeitada do meu fantasma preferido!

      Não, Maria Amélia Neto não pensaria nele, mas nas desditas de quem é vítima das suas opções políticas.

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