quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

É TÃO FÁCIL...

O electricista que compusera a tomada da cozinha em curto-circuito levara-me os últimos trocos. E que trocos! Precisava de levantar dinheiro.

Ainda pensei na caixa multibanco situada perto da Junta de Freguesia, mas não, se descesse até ao Estádio, poderia parar o carro e andar um pouco a pé até à Agência do Montepio, situada perto dos Jardins do Lis.

Foi o que fiz, depois de almoço. Na tarde ensolarada, caminhando sempre pela margem esquerda do rio Lis, atravessei a estrada. As velhotas estavam sentadas logo no primeiro banco, onde mal começa o empedrado em calçada portuguesa. Ao aproximar-me, uma levantou-se, “boa tarde, posso oferecer-lhe este livro?” e passa-me para a mão um exemplar de “A Sentinela” de 1 de Novembro de 2010, o anúncio do Reino de Jeová com alguns meses de atraso; “ensina como ser feliz, leia com atenção” – insistiu. Agradeci, dobrei a revista e guardei-a na mala. Contentores de lixo não faltavam, mas à vista de quem mo oferecera senti-me incapaz de me desfazer de imediato do presente.

Fui ao banco e à volta, as velhotas lá estavam juntando o útil ao agradável: o dever de apostolado, cumprido ao Sol, entre dois dedos de conversa. Ao aproximar-me a mesma velhota levantou-se e veio direito a mim com nova revista. Eu sorri e exibi a revista que guardara “já me ofereceu uma, quando aqui passei antes”. Na cara da velhota o brilho dos olhos rivalizou com o Sol, “obrigada”. Os lábios distenderam-se num sorriso encantador e voltou a sentar-se.

É preciso coragem, muita coragem para ser feliz, mas é tão fácil fazer os outros felizes que vou tentar mais vezes.

2 comentários:

  1. Hoje levei a minha mãe à cabeleireira e fiz-lhe os recados que me pediu. No regresso a casa, parei o carro por três vezes para ela rever pessoas amigas. Acha a minha condução normal? Não corro o risco de ser autuado?

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  2. Caro Rui.
    A minha mãe fará sábado 93 anos, leu bem 93! Tenho por certo mais rodagem. Não sou nenhuma santa e a vida, por vezes tira-me do "sério", mas garanto-lhe que não será autuado por parar três vezes, ou mais numa viagem de cem ou duzentos metros.
    Na véspera do meu quadragésimo quarto aniversário, durante a noite, o meu pai teve um AVC. Foi para o hospital e fui obtendo a informação de que estava a recuperar.Ficou internado e naquela primeira tarde em que o ia ver, como ele gostava muito do meu arroz doce, apressei-me a fazer-lhe um pouco para lhe levar à hora da visita. Acondicionei umas tacinhas num cestinho de verga azul e tapei com um paninho branco, levava até colher e guardanapos, para termos tudo à mão. O meu pai nem me reconheceu. De pés e mãos atados à cama agitava-se para um lado e para o outro, numa aflição incrível. Viveu mais três anos em que não sei se alguma vez mais me conheceu. Um ano antes dele falecer, faleceu o meu irmão. Isto é que é ser-se autuado, garanto-lhe.
    Sei contudo, por um "post" do seu blog, que também já sofreu uma autuação destas.
    Vá aturando com paciência as "velhotas" todas, que até acaba por achar divertida a forma com elas se agarram à vida e sempre aprende alguma coisa para o futuro :)

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